Entre o tesão e a razão
Criação nasce nesse lugar que habita entre o racional, a loucura e a perda do controle
Tento construir esse artigo como quem conduz um papo informal durante um café ou uma caminhada matinal. Nele, trago algumas reflexões e perspectivas sobre esse nosso ofício de dar vida a ideias, considerando também algumas percepções e análises dentro da minha experiência como diretora criativa e diretora de cena, atuando há mais de dez anos na indústria criativa, junto à marcas, artistas e instituições.
De início, um rápido panorama com a finalidade de termos esse ponto de partida comum: temos, no Brasil, um fator de grande complexidade e excepcionalidade. Dentro da comunicação e do audiovisual, além de audiência continental, cada vez mais fica nítida a potência e referência que somos como criadores e produtores de narrativas para o mundo. Seja no cinema, nas novelas ou na publicidade. Além disso, acompanhamos, nos últimos anos, uma transição de um País de baby-users da internet para uma população cronicamente online. Estamos cada vez mais naturalizados com as linguagens da comunicação e do audiovisual. Ousaria dizer que temos um dos mercados mais “letrados” nesse segmento do mundo. Nossa régua é alta.
Isso posto, e já conectando ao processo criativo, nosso ofício baseia-se em transmutar ideias. E, sim, de fato, existe uma certa parcela de racionalidade nesse processo, aliás, lidamos com parâmetros projetivos, investimento, estratégia e risco, então, evidentemente que a razão compõe parte da tomada de decisão. Mas é no seu contraponto, no âmbito do tesão, que acredito morar a originalidade e a inovação.
Opto por trazer “tesão” aqui propositalmente, como antítese complementar ao âmbito da razão. Acredito que o próprio processo criativo e artístico tem como base certa obsessão e compulsão irracional, como uma contínua ruminação e elaboração de ideias: reprocessamos realidades e potências ainda só existentes no campo da imaginação. Nossos desejos e sonhos estão imersos no subjetivo, no lúdico, no irreal — e menos na racionalidade. A criação nasce nesse lugar que flui entre razão e tesão, habita entre o racional, a loucura e a perda do controle.
Nessa jornada criativa, cabe a nós conectar tais “interessâncias”. Me aproprio dessa brincadeira linguística para me referir ao potencial de uma ideia de cativar nesse lugar irracional-sensível, onde o estranhamento faz parte da inovação. Aquela sementinha que fica, aquela pulga atrás da orelha que pega sua atenção em meio ao bombardeamento de estímulos da pós-modernidade. Boas ideias nascem nessa tensão-tesão e não da monotonia.
Nesse processo de ruminação, onde nos deleitamos de referências e estímulos, pesquisa e aprofundamento se tornam recurso chaves para digestão e deglutição dessa jornada criativa. Tensionar visões, confrontar cenários, conectar potenciais e mutualismos. Projetos de sucesso dão vida ao que ainda está na iminência de existir. Ideias precisam ter base no mundo, mas como quem lê o contexto e entende os desejos pelo que ainda está por vir.
Em suma, atuamos aqui quase como guardiões desse processo e percurso, onde precisamos garantir que a mensagem percorra essa jornada e chegue ao seu fim de forma potencializada, coesa e lapidada. Comparativamente a fazer um desenho a lápis sem o uso da borracha, onde o processo por si só precisa necessariamente construir a favor do resultado final, mesmo sem saber onde chegaremos com ele. Vejo nos líderes esse papel fundamental de assegurar com coragem esse terreno fértil para o novo. Com a ousadia e desejo que nosso tempo pede.