Mais sobre a briga de cachorro grande do streaming
Publicamos aqui artigo do Michel Lent sobre o tema, além de outro de Mike Raab, investidor especializado no setor. Como essa briga vai determinar parte relevante do futuro da nossa indústria, sempre bom ouvir opiniões variadas sobre o tema.
A festa do vídeo sob demanda e 4 apostas sobre o futuro do mercado
Por Michel Lent
VOD (video on demand) é a sigla da moda, junto com OTT (over the top), onde uma empresa entrega conteúdo para seus assinantes diretamente pela internet, sem depender dos canais tradicionais (tvs a cabo, satélite e afins).
A partir do aumento da velocidade da internet e da possibilidade de se assistir vídeo de qualidade online, poder escolher o quê, quando e onde assistir, ao invés de ter que ver o que está passando num determinado canal naquele momento, passou a ser a grande norma.
É claro que as TVs tradicionais, com programação em ‘grade’ ou linear, ainda mantém enormes audiências mundo afora, mas quando fazemos o corte por idade e vemos a evolução dos números, o mundo está claramente indo para um modelo inteiramente de consumo de video sob demanda e nada parece mudar esta tendência, restando para a TV tradicional basicamente os eventos ao vivo (cobertura jornalística e eventos esportivos, principalmente).
Junto a esta nova configuração, acompanham diversas outras mudanças, como a perda da eficácia da publicidade de TV (pela diminuição do alcance e fragmentação da audiência ) e mesmo o confrontamento das empresas de mídia do modelo antigo com as novas entrantes.
Pensar em VOD e OTT hoje é quase que sinômino de pensar em Netflix. A primeira e mais importante empresa de mídia operando neste novo formato atualmente no mundo. Mas os dias de reinado da Netflix estão ameaçados. Não quer dizer que ela vai deixar de ser relevante, mas certamente vai perder a posição confortável que garantiu por uns anos de estar praticamente sozinha neste mercado.
Com estréia anunciada para novembro nos EUA, a Disney chega toda poderosa com sua OTT Disney+, oferecendo conteúdo dos estúdios e franquias com maior alcance no mundo atualmente — Marvel, Starwars, Fox, entre vários outros. A Amazon também lançou seu serviço Prime Video, assim como a HBO, ESPN, Fox e também o Grupo Globo, com a sua plataforma Globoplay, Globosat play e outros. E já que há tantas opções, a pirataria voltou a subir, para aqueles que querem assistir uma série específica mas não assinar o serviço apenas por um conteúdo.
Se as TVs e as provedoras de TV por assinatura reinavam há alguns anos, neste momento elas vão se encontrando cada vez mais ameaçadas e em confronto direto com os novos entrantes, que ganham território fácil com a parcela mais jovem do mercado e também com aquela que busca economizar, uma vez que estes serviços chegam com uma oferta de conteúdo mais restrita, mas mais específica e muito mais barata que os concorrentes tradicionais.
Mas ainda que a tendência aponte para uma mudança clara do modelo linear para o sob demanda, restam muitas indefinições.
Com a entrada dos novos estúdios e novos serviços OTT no mercado, como vai ficar o lineup dos players? Quais serviços serão os mais assinados? E como ficarão os players tradicionais neste novo cenário? Conseguirão se transformar rápido o suficiente para garantir posição? Quantos serviços as pessoas terão condições de assinar? Quem vai liderar a nova lista?
Aqui vão algumas apostas, para que a gente volte neste artigo dentro de 2 ou 3 anos pra conferir o quão fora ou dentro elas estavam.
1. Substituição dos serviços por assinatura
As ofertas tradicionais de TV linear de agora serão substituídas em sua quase totalidade por alternativas de vídeo sob demanda. E as empresas que reinam hoje em dia na liderança de clientes do modelo de TV linear por assinatura, devem perder espaço para novos players OTT, com valores mais baixo e conteúdos mais modernos.
2. Consolidação dos novos OTT
O momento que vivemos agora é de total fragmentação de OTT. Praticamente cada studio está investindo em seu serviço próprio de video sob demanda, mas o mercado simplesmente não terá capacidade de gerar demanda para todos eles. Na medida em que houver amadurecimento, veremos uma consolidação de serviços, deixando de pé 3 ou 4 plataformas que agreguem diversos studios diferentes. Estas plataformas serão semelhantes ao que são hoje as TVs por assinatura, mas estarão estruturadas em cima de tecnologias muito mais modernas e maior flexibilidade também de modelos comerciais, onde os usuários não vão ser obrigados a ‘engolir’ conteúdo que não lhes interessa no ‘pacote’.
3. Carteira limitada
Como esperado, ainda que a oferta seja muito boa, as pessoas não terão condições de assinar muitos serviços. A aposta é que haja uma concentração em alguns players que serão a liderança do mercado. Minha aposta é que o assinante médio de serviços dentro de 3 anos tenha entre 2 e 3 serviços de video sob demanda.
4. Os líderes de mercado
E nesta carteira de 2 a 3 serviços, no caso do assinante brasileiro, aposto que um destes serviços será obrigatoriamente o GloboPlay ou o serviço que o Grupo Globo esteja trabalhando no momento — pelo interesse característico do brasileiro por conteúdo nacional e qualidade e tamanho do acervo do grupo, outro será o Disney+ e o terceiro oscilará entre Netflix ou outro grande serviço que veremos surgir no futuro próximo.
Estas são minhas impressões sobre o momento atual e o que vem por ai. E você aposta no quê? Vamos combinar de voltar aqui em 3 anos e ver se as coisas caminharam como apostamos?
(*) Michel Lent é Partner, CEO Templo Studio at TEMPLO.cc. Entrepreneur, speaker and advisor. LinkedIn Top Voice.