Por que as startups SaaS mostram resiliência na crise?
Geração de caixa mais previsível e o lançamento de features adaptadas à nova realidade por algumas companhias brasileiras propiciou uma “travessia mais tranquila” do mercado durante a pandemia
Ricardo Corrêa, CEO da Ramper (*)
Atualmente o Brasil conta com mais de 13.000 startups e o segmento SaaS – empresas que oferecem softwares como serviço – acumula a maior fatia de mercado com mais de 5.500 companhias existentes ou 42% do share, segundo a Associação Brasileira de Startups (ABStartups). Pelo fato da maioria também operar no mercado B2B, o setor mostrou-se altamente resiliente em meio à pandemia – mais do que o imaginado no início – comparado a outros modelos de negócios, passando longe de sofrer o mesmo impacto financeiro de startups ligadas às áreas do turismo, entretenimento, mercado de eventos, entre outros segmentos.
Esse cenário foi possível graças ao fato de grande parte das empresas SaaS contarem com geração de caixa mais previsível, já que no País cerca de 90% delas fazem a cobrança via assinatura e por meio de pagamento recorrente. Ainda que a crise tenha pego algumas companhias despreparadas, a maioria conseguiu manter a operação apenas com o próprio fluxo de caixa e até adequar a queda na receita com ajustes nas despesas, sem precisar tomar medidas tão drásticas. Obviamente as startups que ainda não comprovaram sua proposta de valor no mercado ou não contaram com caixa suficiente para pivotar em um período de escassez estão mais debilitadas no momento.
Por outro lado, as startups que aceleraram o desenvolvimento do produto e inovaram durante a crise estão mais fortalecidas. É o caso específico da Ramper, que lançou a ferramenta “Conectar” no mês passado, na qual permite aos vendedores de empresas B2B realizarem o primeiro contato via e-mail e saber a hora correta de realizar a ligação ao prospect, além de trazer a possibilidade dos possíveis clientes escolherem a hora ideal para entrar em contato por uma espécie de “WhatsApp do B2B”. Na mesma linha, a Gupy – empresa de tecnologia para recrutamento e seleção de colaboradores – lançou uma nova solução para auxiliar à admissão de novos colaboradores. Nos dois casos, foram exploradas adjacências imediatas ao segmento em que já atuavam, levando a digitalização para novos processos dentro das empresas. Não à toa, ambas as startups foram reconhecidas entre as mais inovadoras do país pelo 100 Startups to Watch.
Por essas e outras ações, as companhias que apresentaram soluções capazes de contribuir para o aumento de produtividade e beneficiar de alguma forma o trabalho remoto, bem como aquelas que ajudam a reduzir custos e/ou expandir receitas, tendem a surfar uma onda mais favorável daqui para frente. Certamente sairão mais preparadas e capitalizadas da crise.
A expectativa é de que a pandemia também possa pouco a pouco transformar o status quo do mercado de startups no Brasil. Após um hype em torno dos unicórnios, os fundos de investimentos estão cada vez menos dispostos em aportar capital em empresas que fazem o management da operação com base apenas no crescimento a qualquer custo e queima de caixa descontrolada.
Com essa mudança de paradigma, algumas startups SaaS podem se beneficiar. Certamente a atenção de potenciais investidores é outra após muitas companhias se mostrarem resilientes e preparadas para atravessar a crise. Além de se mostrarem anticíclicas, a Gartner ainda traz outro componente favorável. O setor deve alcançar faturamento mundial de US$ 143 bilhões em 2022, crescimento de 43,7% em relação aos US$ 99,5 bilhões alcançados no ano passado.
Evidentemente, é preciso deixar claro que as empresas do nicho não têm um potencial de explodir da noite para o dia como outras voltadas ao B2C. Pelo contrário, na maioria das vezes, o crescimento acontece com consistência e por meio da geração de caixa. Apesar disso, o meu sonho é que o Brasil um dia possa se aproximar ou quem sabe até alcançar o mesmo patamar do mercado norte-americano. Na terra do Tio Sam, os modelos de negócios SaaS são a base econômica de startups e fundos de venture capital, e inúmeras companhias conseguiram atingir uma expressão global ao gerar ótimos resultados, M&As e até mesmo a abertura de capital na bolsa. A minha torcida é que o início desta jornada esteja emergindo a partir de agora no País.
(*) Ricardo Corrêa é sócio-fundador e CEO da Ramper, startup criadora da principal plataforma de prospecção digital de vendas do Brasil.