Opinião

Bolha

Como vamos ter máquinas e coisas que nos ajudam a aumentar nosso potencial se ainda temos tanta gente sem acesso ao básico?

Gustavo Otto

Vice-presidente de planejamento da NBS 12 de março de 2017 - 15h51

Enquanto escrevo esse artigo, estou sentado esperando uma sessão que não sei sobre o que será. Tentei duas diferentes, no mesmo prédio (aprendi a selecionar por proximidade) e ambas lotadas e com novas sessões para a hora seguinte. Ou seja, tenho três problemas agora, porque as três (inclusive a que iria se uma delas tivesse dado certo) são bem interessantes. Enfim, problemas de primeiro mundo.

Esses dias tem sido bastante interessantes. Não digo incríveis para não gerar muita expectativa no estimado leitor. Como vim sozinho, meu único trabalho é assistir as sessões que quero, encontrar pessoas queridas entre uma sessão e outra e pensar. Muito. Minha cabeça ferve não somente, mas com algumas preocupações sobre o que chamamos de Futuro.

Nos próximos anos (realmente não sei precisar em décadas o que isso significa), a tecnologia vai passar muitas das habilidades que julgamos ser únicas dos humanos e obviamente, nos ultrapassar. E a essa altura do mundo, talvez você já tenha se dado conta de que seremos o nosso próprio limitador para o progresso.

Ou seja, aquela sensação do que nos faz tão especiais e únicos, nosso intelecto superior, irá desaparecer e, obviamente, isso não é bom para qualquer ego. Daí virão maquinas (e drogas) que nos ajudarão a melhorar o nosso potencial e fazer com que ultrapassemos nossas habilidades. Sim, o mundo será um lugar melhor, mais aberto e com muito mais chances de progresso.

Neste momento, olho para o mundo como está hoje (pausa dramática), e acho tudo isso uma bolha. E aqui não pensem que estou criticando ou sendo negativo. Mas são fatos. Basta olhar a própria Austin: a única cidade do Texas onde Trump não ganhou as eleições passadas. Indo um pouco mais ao sul de Austin, ali será um dos cenários onde o atual presidente construirá um museu para separar seu pais do México. Brexit, Le Pain, CIA espionando o mundo.

E penso em nosso pais. Não vou nem falar dos problemas políticos e economicos, mas de algo básico: mesmo com uma digitalização crescente, ainda temos metade da nossa população sem acesso a internet. Ou seja, o básico. E mesmo a população conectada o faz via smartphones, que este ano volta a ter um crescimento estimado em 3,5%, provavelmente passando 200 milhões de devices em uso.

Isso ainda me parece pouco. Fala-se muito aqui no SXWS de IoT, AI, casas integradas, vidas integradas, acesso desmaterializado à tecnologia e à internet. Mas, como vamos ter máquinas e coisas que nos ajudam a aumentar nosso potencial se ainda temos tanta gente sem acesso ao básico? Como essas pessoas que hoje estão a margem deixarão de estar em um tempo que precisa ser curto? E como evitar que essas pessoas sejam vítimas de estratégias e ideologias que potencialmente possam utilizar dessas novas tecnologias para dominar quem não tem acesso?

Parece teoria da conspiração, mas para mim é um pouco do que o Mafessoli fala que (reduzindo bastante aqui) vivemos num momento onde forças políticas, identidades, instituições, valores e todo o mundo tem suas crenças em cheque, já que todo esse avanço tecnológico traz uma mudança inevitável em termos de comportamento, afetando o comportamento da sociedade como um todo.

Ainda de acordo com ele, a era moderna (começada após o Iluminismo) é caracterizada pela busca da segurança, do racionalismo e dos padrões. Porém, todo o advento da tecnologia nos leva para para o resgate do humano, das paixões e da liberdade, que foram suprimidas pela era anterior. E acho que estamos nisso. Vivendo uma época onde discutimos o que será o pós-humano e como tudo isso afeta nossa constituição social.

Creio que daqui para frente, dado a velocidade exponencial com que isso chega, precisamos entender como estourar essa bolha e pensar que se vamos ter máquinas a nossa disposição, para melhorar nosso potencial, precisamos fazer com que todas as pessoas tenham acesso a isso, para que tenhamos mais condições e igualdade para todos. Caso contrário, vamos ter um outro conceito de elite, que passará tudo o que conhecemos hoje, de maneira ainda mais cruel. E somente poucas pessoas conhecerão a liberdade e poderão viver suas paixões (entendam isso como metáforas figurativas, ok?).

Porém, pude perceber que aqui em Austin também tem bastante gente pensando nisso. Principalmente com iniciativas para mapear o cérebro humano em áreas como biologia, neurologia, AI e robótica. Tem muita gente incrível pensando em hacker tudo isso. Eu, ainda não sei como ajudar nisso e estourar essa bolha, mas pelo menos, sei que quero ajudar de alguma forma.