De nicho à transformação social: a nova função das canetas emagrecedoras
Terceira edição do Blue Connections apresenta pesquisa da Croma sobre os impactos do uso de medicamentos à base de GLP-1 nos consumidores

Edmar Bulla, fundador da consultoria Croma, apresenta pesquisa sobre impacto das canetas emagrecedoras durante o Blue Connections (Crédito: Eduardo Lopes/Máquina da Foto)
Embora o mercado formal de medicamentos à base de GLP-1 (as populares canetas emagrecedoras) tenha alcançado apenas 7% da população brasileira, o efeito dessa descoberta científica é bem mais amplo, tanto para a vida e comportamento das pessoas como também para diferentes setores econômicos.
Os impactos desses medicamentos já podem ser percebidos não apenas na indústria da alimentação como também em outros setores econômicos. No lugar de chocolates, happy hour e outras indulgências, ganham espaço as atividades físicas na academia, a compra de suplementos e a inclusão de itens em menor porção ou com propostas mais funcionais.
Essas mudanças causadas pelos mais recentes tratamentos contra a obesidade foi o tema da terceira edição do Blue Connections, encontro trimestral promovido para os membros do Círculo Liderança de Meio & Mensagem. Realizado nesta terça-feira, 15, em São Paulo, o evento inaugurou o novo espaço do Blue Note, situado ao lado da original, no Conjunto Nacional.
O tema foi abordado a partir da exposição de dados de uma pesquisa inédita, realizada pela Croma Consultoria, expostos pelo seu fundador, Edmar Bulla.
“Falamos que a entrada dos medicamentos à base de GLP-1 é uma revolução porque é a primeira vez, em toda a História, que as pessoas são capazes de interferir em algo primitivo: o apetite. E se o apetite deixa de ser algo natural e passa a ser ajustável, cai dramaticamente o impulso e muda totalmente a lógica das intenções de consumo”, resumiu o pesquisador.
Um mercado maior do que os números mostram
Um dos pontos destacados na pesquisa apresentada por Bulla é que o mercado dos usuários de canetas emagrecedoras está longe de ser um nicho. Além de ser maior do que os dados apontam – por conta do consumo de versões irregulares do medicamento, algo que ainda não é mapeado – esse mercado, na verdade, se expande por conta da influência de que os novos hábitos de alimentares de uma pessoa exercem sobre os demais familiares.
Segundo dados apresentados por Bulla, três em cada quatro brasileiros que fazem uso de canetas emagrecedoras apontam que a alimentação de todos que moram em sua casa também mudou a partir da influência de seus novos hábitos.
Considerando as novas marcas entrantes no segmento, que devem baratear os custos dos medicamentos, associada à maior consciência a respeito de adoção de hábitos saudáveis, a pesquisa da Croma considera que 49% da população brasileira está no que Bulla classifica como “porta da conversão” à GLP1 – ou seja, considerando seu uso em um futuro próximo. “Pensar na GLP-1 como algo de nicho é algo já equivocado. Já estamos falando sobre um comportamento coletivo”, frisa o especialista.
Lista de compras reorganizada
Para que as canetas emagrecedoras entrem, vários ajustes na lista de compras dos consumidores precisam ser feitos. Por conta, sobretudo, dos valores ainda elevados desses medicamentos à base de GLP-1, os brasileiros precisam fazer adaptações – e elas variam, naturalmente, de acordo com o poder aquisitivo.
Na classe A, quem faz uso de canetas emagrecedoras incorpora não apenas o custo da medicação em seu orçamento como também tende a ampliar os gastos com atividade física e nutrição complementar. Já a classe B até consegue arcar com os custos do medicamento, mas, para isso, precisa fazer alguns cortes nas atividades sociais e de lazer. E, para as classes C, D e E, o tratamento é custeado a partir de redução em diversas despesas do dia a dia.
Bulla chama a atenção que o tratamento, na maior parte dos casos, é custeado a partir do corte dos pequenos prazeres cotidianos, algo em que a indústria de alimentos manteve seu foco por décadas – e que, agora, exige uma nova estratégia.
Na maior parte dos casos, não há prejuízo da vida social: ela continua, mas o que encolhe é a conta. As pessoas não deixam de sair e de consumir comidas e bebidas, mas a frequência com que fazem isso diminui bastante”, aponta Bulla, destacando que, entre os usuários da medicação, 67% apontaram que reduziram as atividades sociais.
E os estabelecimentos já sentem esses efeitos. Na pesquisa da Croma, entre restaurantes e empresas de alimentação, 65% já detectaram redução no consumo de sobremesas e 64% apontam um aumento da busca por miniporções de itens que já tinham no cardápio.
Outros efeitos sentidos pelos estabelecimentos são a queda no volume dos pratos principais (sobretudo em restaurantes por quilo) e crescimento do interesse por opções de bebidas zero álcool.
A respeito dessa mudança no consumo fora do lar, Bulla pontuou que as ocasiões de consumo mais estruturais – como almoço e jantar – tendem a resistir mais aos novos hábitos do que os consumos esporádicos. Na prática, segundo ele, as pessoas que usam canetas emagrecedoras preferem cortar o café e o lanche da tarde, mas não deixam de almoçar.
Na prática, apesar de seguirem a orientação de um hábito de consumo mais saudável, as pessoas não excluem, ainda, ingredientes de seu prato. Carboidratos, doces e bebidas, continuam lá, mas com presença bem menor do que no passado.
Por outro lado, ganham mais espaço no prato dos brasileiros usuários das canetas emagrecedoras itens de hortifruti (crescem 64%), alimentos integrais, com fibras e sementes (aumento de 44%) e proteínas animais (crescimento de 29%).
E o que fica para a indústria?
Ao apresentar os dados para os membros do Círculo Liderança de Meio & Mensagem, Bulla destacou que existe uma avenida de oportunidades para as marcas de diversos segmentos, que precisam readequar sua atuação para atender às pessoas que vêm descobrindo uma nova relação com a comida.
Segundo o fundador da Croma, a oportunidade maior está no que ele classifica como etapa de manutenção dos hábitos alimentares – ou seja, para quem já fez uso de medicamentos e, agora, deseja somente conservar os hábitos saudáveis para tentar manter o peso.
Outro ponto que Bulla destacou para a indústria é de que nenhuma categoria será excluída nessa agenda de alimentação mais saudável, mas será preciso, contudo, revisar sua função, seja em porções menores ou em ocasiões diferentes.
“É preciso também entender que comer menos não gera economia. Gera redirecionamento de gastos. Aquilo que a pessoa deixa de gastar com delivery e com restaurantes ela direciona para suplementos, proteínas, lazer etc. E, muitas vezes, o valor muda de endereço dentro da mesma cesta de compras”, pontua.
