Fome e FOMO
A parte mais legal de trabalhar com planejamento é que trabalho para aprender o tempo todo
Sempre tive problemas com controle do peso. E da gula. Minha família é bem brasileira, ou seja, misturada: índios, negros, italianos, alemães e espanhóis (esses últimos, uma suspeita não confirmada). O que importa é que, “na minha época”, criança saudável era criança gordinha. Então, um dia meu avô me olhou e disse: “Esse guri é muito magro. Tem que engordar”. Numa boa família patriarcal gaúcha, isso era lei. Lá foram minha mãe comprar vitaminas e toda a família dar acesso irrestrito a comida. Resultado: faço dieta desde os 12 anos. Algumas com mais sucesso que outras.
Hoje em dia, aprendi que preciso controlar mais minha cabeça que a boca. Sempre serei gordo, mesmo que esteja mais magro, porque penso como gordo. Tenho medo de passar fome. É bizarro, mas tenho certeza de que tem gente que se identificará lendo isso. Em resumo: finalmente entendi que a gordura está na cabeça e não na boca. Hoje consigo ser mais tranquilo e buscar comer melhor e emagrecer. Pressão estética? Se disser que não, minto. Sou vaidoso. Mas hoje a busca é mais por saúde física e mental.
Todo esse aprendizado sobre a fome e a gordura me levou a fazer um paralelo com o SXSW. É a primeira vez que vou para o evento e, obviamente, fiquei absolutamente excitado de ver tudo que vai rolar: as palestras, plenárias e discussões das quais terei a oportunidade de participar, além das pessoas e conteúdos que terei a chance de conhecer. Olho a agenda e vráááá: ansiedade. Pensei: “f@#%u! O que vou fazer agora? Quero ir nisso, nisso e naquilo. Mas não vai dar. Saio na metade deste pra ir naquele? E, além da inovação, tem música e cinema. Quero fazer tudo”.
Associo isso diretamente às minhas experiências com a comida e penso que preciso de um chocolatinho pra pensar no que fazer e acalmar essa ansiedade atávica por tanto conteúdo maneiro. Mas aí a maturidade, que chegou repentinamente com os 40, diz para eu me acalmar. “Que chocolate o quê, mané!”, ela me diz. Respiro, penso e me remeto aos festivais de música que amo ir. Lá também acontece isso. No Coachella, por exemplo, é impossível assistir a todas as bandas que você curte, porque elas acabam acontecendo sobrepostas. Minha maturidade recém-adquirida diz: “sobreviva a isso. Assista ao que você realmente quer, mas esteja inteiro nisso”. Pah! Numa epifania Lispectoriana, sou outra pessoa.
A parte mais legal de trabalhar com planejamento é que trabalho para aprender o tempo todo. E isso é maravilhoso. Além de ter contato com conteúdos variados, de diferentes assuntos, é fundamental aprender a definir o que é mais importante e objetivo para o que eu estou fazendo no momento. E, com esse espírito, já tenho uma ideia mais clara dos assuntos e sessões dos quais participarei no festival. De algumas coisas não vou abrir mão. Para outras, posso mudar de opinião e seguir recomendações de amigos que encontrar por lá. O fato é que o FOMO é uma coisa com a qual temos que aprender a lidar todos os dias. Toda a vida interconectada nos deixa a impressão de que podemos participar de tudo, viver tudo e fazer tudo. Pode até ser. Mas eu decidi que quero estar de verdade no que estarei. E essa é a minha programação para esse SXSW.
A parte boa é que, provavelmente, encontrarei na internet, através dos olhos de outras pessoas e amigos, muito dos conteúdos que não vou presenciar. Isso também vai ser legal, já que terei outra perspectiva sobre o assunto. Assim como você poderá me seguir e ver o que estou vendo. Espero que ajude o seu FOMO e a sua fome.