Não deixe o AM morrer
Surgido no começo do século 20, o rádio foi um dos primeiros meios de comunicação de massa e, por muito tempo, o principal. Eventos históricos como o nazismo e o Estado Novo – no caso do Brasil – mostram a importância que esse tipo de transmissão teve ao longo do último século, além da grande abrangência do meio. Mas, com o passar do tempo e a chegada de novas tecnologias, o rádio perdeu papel de destaque. Primeiro, para a TV. Depois, para a internet.
A primeira transmissão oficial de rádio no Brasil completará 90 anos em 7 de setembro do ano que vem. Em todo o território brasileiro, são 4.526 emissoras comerciais e 200 milhões de receptores. O rádio atinge quase 90% de penetração nos domicílios brasileiros. Com a tendência dos veículos de se tornarem multimídia, o rádio enfrenta dificuldades, uma vez que trabalha somente com áudio.
Com a digitalização das telecomunicações, da TV aberta e da própria internet, que já nasceu digital, o rádio é o único meio, no Brasil, que ainda não saiu do padrão analógico. A digitalização do rádio brasileiro está indefinida. Enquanto não se escolhe o padrão digital — o HD Radio norte-americano ou o DRM europeu —, algumas entidades já resolveram que apoiam a destinação da faixa de VHF (76 MHz-88 MHz) para a digitalização das frequências AM brasileiras. Essa faixa é ocupada pelos canais 5 e 6 da TV aberta analógica, cujo desligamento deve ocorrer em 2016. Com isso, as rádios AM poderão operar na extensão da faixa das emissoras FM.
A digitalização traria, além da qualidade de áudio, a possibilidade, por exemplo, de as emissoras enviarem dados para o display do receptor com informações sobre o trânsito, tempo etc. Ainda, poderia aproveitar o enorme potencial da base de 75 milhões de celulares equipados com rádio.
A indefinição do rádio digital é um dos motivos que explica a redução do share do rádio no bolo publicitário: segundo o Projeto Inter-Meios, enquanto no final de 2001 o meio representava 4,74% do faturamento publicitário no País, no começo deste ano a participação caiu para 3,98%. Isso evidencia que, mesmo com o crescimento do faturamento em publicidade, os anunciantes têm direcionado as verbas para outros meios.
A eventual definição do Sistema Brasil de Rádio Digital (SBRD), instituído pelo Ministério das Comunicações em março do ano passado, cujos padrões estão em teste por algumas emissoras desde 2005, tem sido adiada ano a ano pelo governo federal. Alguns setores defendem que o rádio, inclusive, já perdeu o bonde da digitalização. Diante desse cenário, o Meio & Mensagem ouviu representantes de entidades e emissoras e pergunta: “Qual é a saída para salvar o rádio AM”? Confira abaixo as opiniões dos profissionais sobre o tema:
Associação
“A partir da grande proliferação das rádios FM, os ouvintes passaram a comparar a qualidade de recepção com as emissoras AM. Essa qualidade é muito mais pura no FM, o que acabou por agregar mais ouvintes a essa faixa. A frequência de AM, pela forma de sua transmissão (ondas médias, de longo alcance, cujas frequências estão sujeita a interferências de outras fontes eletromagnéticas), acaba sendo prejudicada pelo ruído elétrico das cidades e também pela baixa qualidade dos receptores. A AESP defende a migração das rádios AM para a faixa de FM estendida, atualmente ocupada pelos canais 5 e 6 da atual TV aberta analógica. O plano do governo é desligar os canais analógicos de TV aberta até 2016 e redistribuir essas frequências. Como as emissoras AM têm uma cobertura maior e os rádios terão, necessariamente, que ter a faixa ampliada, os dois sistemas (analógico e digital) poderiam conviver por mais algum tempo simultaneamente. Desta forma, seria criada uma alternativa para as mais de 1,8 mil emissoras AM do País e, aos ouvintes, seria dada a oportunidade de cultivar o hábito de ouvir esses novos canais.”

Entidade
“Quando falamos sobre AM, consideramos apenas o formato de transmissão, em ondas médias (OM). Não existem conteúdos e formatos que só devem ser entregues via FM, ou OC (ondas curtas), AM ou pela web. As empresas que têm o segundo canal em FM entregam o mesmo conteúdo nas duas frequências e têm sucesso. O que existe é a entrega de sinal de AM com interferência nos grandes centros e receptores sem antenas que atendam à mobilidade. A Abert discute com o governo federal a destinação da faixa VHF (canais 5 e 6 da TV aberta) para emissoras AM. Outra proposta é transmitir a programação via web e trabalhar na queda do custo do streaming. Fora dos grandes centros, o sinal chega a locais distantes com qualidade. Mesmo nos grandes centros existem equipamentos que sintonizam muito bem o AM, os canais de áudio a cabo e os players na web, o que é comprovado com as audiências de muitas emissoras. Vai mudar? Com certeza. Como tudo que foi alterado com a tecnologia. Não usamos mais receptores de válvulas, certo? Mas continuamos a ouvir rádio e ver TV. É uma questão de tempo.”

Anunciante
“A rádio AM é um meio de comunicação que merece nosso respeito e consideração, seja por sua importância histórica ou pela presença que ocupa na vida de milhões de brasileiros (atualmente, cerca de duas mil estações no Brasil são transmitidas por AM, um número considerável). Fora dos grandes centros, o rádio AM ainda é a principal fonte de entretenimento e informação e, nas grandes cidades, é um bom modo de ocupar o tempo passado no trajeto entre a casa e o trabalho, inclusive por quem fica parado no trânsito. Por isso, acredito que é necessário discutir exaustivamente diversas questões relativas ao meio. Esse debate deve abranger desde os problemas técnicos que afetam as transmissões, a viabilidade econômica, novas tecnologias, ética até mesmo a qualidade da programação, entre outros pontos. A Porto Seguro sempre contempla emissoras AM em seus planos de mídia, dependendo do público a ser atingido e perfil do produto anunciado, pois acreditamos que a rádio AM continuará ocupando um espaço significativo no dia a dia do cidadão brasileiro.”

Emissora
“De fato, a frequência AM tem enfrentado dificuldades do ponto de vista tecnológico. Existem exceções como a Jovem Pan AM que, em São Paulo, permanece sendo uma referência de sucesso comercial absoluto. Por outro lado, as rádios com pouca tradição tendem a ter problemas mais graves. Estamos acompanhando um processo no qual muitas rádios que estavam no AM migraram para o FM, principalmente no Rio de Janeiro e em São Paulo, e talvez a customização de rádios seja uma alternativa para a frequência. Porque, se o modelo de naming right – quando as empresas se apropriam de conteúdos – é um modelo vencedor, então, isso é ótimo tanto para o AM quanto para o FM. Empresas que chegam e se associam ao nome do produto, da rádio (como a própria SulAmérica Paradiso e, mais recentemente, a Fast 89 FM), acabam gerando uma relação “ganha-ganha” com as emissoras. Não conheço nenhum caso na frequência AM, mas, sem dúvida, este pode ser um caminho interessante para recuperar a receita das emissoras que têm encontrado dificuldades.”
