Sem categoria

Uma questão de princípios

i 15 de agosto de 2011 - 2h59

Um dos maiores escândalos da mídia mundial, as escutas ilegais praticadas durante anos pelo jornal News of the World (NoW), da News Corporation, controlada por Rupert Murdoch, tem reverberado globalmente porque traz à tona alguns velhos hábitos da imprensa: as relações com o poder público, na maior parte das vezes carentes de transparência, e a forma como se pratica o jornalismo, nem sempre clara para os leitores.

No Reino Unido, sede do agora extinto NoW, a Press Complaints Commission (PCC), que autorregula a imprensa britânica, é acusada de, ao largo de todo o episódio, não agir firmemente para evitar a crise que respingou, inclusive, no conceituado Wall Street Journal, também da News Corp. Outro veículo britânico, a rede de TV estatal BBC, talvez influenciado pelos desdobramentos gerados pelas práticas do NoW, editou um guia, em julho, sobre como os profissionais da empresa devem se comportar nas redes sociais.
 
A BBC estabelece três atividades principais que devem ser observadas pelos funcionários com o objetivo de coibir as práticas que, para o NoW, resultaram extremamente nocivas. Nessa linha, abrange: a atividade pessoal do funcionário, feita para amigos e contatos, de cunho particular e, portanto, não relacionada à BBC News; a atividade que envolve notícias, programas ou qualquer outro que envolva o nome da BBC News; e a atividade de editores, apresentadores, correspondentes ou repórteres que se relacionem oficialmente como BBC News. Nesse contexto, a emissora lista uma série de recomendações a serem seguidas pelos profissionais.

No Brasil, as Organizações Globo acabam de divulgar os seus Princípios Editoriais para definir o que é o jornalismo, quem é jornalista e como se deve proceder para produzir informação. Essa declaração de princípios é uma espécie de autorregulamentação que denota, principalmente, a preocupação das empresas de mídia sobre os limites do jornalismo e do profissional de comunicação. Diante dessa publicação, o Meio&Mensagem questiona: “Qual é a importância do veículo se posicionar publicamente sobre seus princípios éticos­ e editoriais?” A seguir, as opiniões de veículos­ e profissionais da comunicação.

wraps

Organizações Globo

“Com a consolidação da era digital, em que o indivíduo isolado tem facilmente acesso a uma audiência potencialmente ampla para divulgar o que quer que seja, nota-se certa confusão entre o que é ou não jornalismo, quem é ou não jornalista, como se deve ou não proceder quando se tem em mente produzir informação de qualidade. As Organizações Globo, diante dessa necessidade, oferecem ao público o documento Princípios Editoriais das Organizações Globo. O objetivo é não somente diferenciar-se, mas facilitar o julgamento do público sobre o trabalho dos veículos, permitindo, de forma transparente, que qualquer um verifique se a prática é condizente com a crença. O que se pretendeu foi explicitar o que é imprescindível ao exercício, com integridade, da prática jornalística, para que, a partir dessa base, os veículos das Organizações Globo possam atualizar ou construir os seus manuais, consideradas as especificidades de cada um”.

wraps

Grupo Estado

“A missão editorial do Grupo Estado inspira-se nos princípios proclamados desde a fundação, em 1875. Esses princípios incluem o compromisso com a democracia, a defesa da liberdade de expressão e de imprensa, a promoção da livre iniciativa e da justiça. O Grupo Estado foi um dos primeiros a ter o Manual de Redação e Estilo abertos ao público. As normas éticas e de conduta estão duplamente documentadas. Na empresa, pelo Código de Conduta e Ética, em formato de guia de bolso, que abrange todos os funcionários. No âmbito jornalístico, pelo fichário intitulado Princípios Editoriais, Normas Éticas e de Qualidade. O Grupo acredita na prática desses princípios e normas em todos os meios de difusão. Há seis anos, o Grupo Estado publica e distribui, em meios digitais e encartados em seus jornais, o Relatório de Responsabilidade Corporativa, que expõe ao público informações jornalísticas e empresariais completas sobre o desempenho do Grupo. O documento exibe tanto êxitos quanto projetos pendentes, além de números e estatísticas de todas as suas atividades, seguindo padrões internacionais de transparência e sustentabilidade”.

wraps

Folha de S. Paulo

“Foi muito importante a divulgação dos Princípios Editoriais das Organizações Globo, o maior grupo de mídia do País. Ao explicitar suas normas de conduta, regras e objetivos, o veículo dá ao público parâmetros para que ele possa cobrar isenção, qualidade da informação e posicionamentos. A Folha é pioneira nesse sentido, com a edição de seus projetos editoriais, manuais de redação e com a instituição do cargo de ombudsman. Ao criticar o jornal, o leitor costuma citar ‘apartidarismo, independência e pluralismo’, que são bandeiras levantadas pela Folha. A partir de agora, poderão fazer o mesmo com a Globo, desde que sejam criados canais para isso. Além de ser fundamental para o público, um documento com compromissos éticos serve de baliza para os jornalistas sobre como compor melhor as reportagens, como se portar na internet e até questionar as chefias com base no que foi divulgado. Comprometer-se publicamente com certos princípios é sinal de transparência, vital para o chamado quarto poder, muitas vezes acusado de não dar satisfações a ninguém”.

wraps

Especialista e Acadêmico

“A publicação dos Princípios Editoriais das Organizações Globo constitui um marco jornalístico. Difícil saber de imediato o âmbito temporal a ser impactado por esse evento, mas é indiscutível que estamos diante de um documento histórico. Destaco dois aspectos: o compromisso com o público e o compromisso com a objetividade. Quanto ao primeiro, as Organizações Globo subscrevem um contrato com o direito à informação do cidadão. Trata-se de um contrato corajoso. A partir de hoje, qualquer um do público poderá interpelar qualquer veículo do grupo quando julgar que não foi informado corretamente. E terá, em sua defesa, os princípios assinados pelos próprios acionistas. A Globo dá poder ao seu público. Poder de fiscalização e de cobrança. Poder político, se assim quiser o leitor. Não é pouco. Sobre a objetividade — entendida como um antídoto contra a subjetividade consciente ou inconsciente —, o documento reforça as bases do apartidarismo e do pluralismo, que são requeridas pela excelência jornalística. A Globo declara um rompimento com o discurso de propaganda e promete isenção. Expõe-se a ser cobrada por isso. Há tempos não temos notícia tão boa. Se vamos cobrar no futuro, temos de começar aplaudindo no presente”.

wraps