Xuxa Meneghel: “Temos obrigação de nos posicionar”
Convidada especial da “Entrevista Coletiva” de Meio & Mensagem, apresentadora avalia transformações da mídia e sua atuação perante a sociedade

Xuxa Meneghel foi a entrevista especial na edição de aniversário de Meio & Mensagem (Crédito: Divulgação)
Se os dicionários da língua portuguesa trouxessem uma imagem para ilustrar cada verbete, a foto de Xuxa Meneghel poderia facilmente acompanhar o termo ‘celebridade’. Poucas pessoas representam, de forma tão contundente, o que é ser uma personalidade da mídia, capaz de ditar tendências, angariar fãs de diferentes gerações e ter uma atuação que vai da televisão ao cinema, passando pela música e tornando seu nome sinônimo de produtos licenciados, engajamento e, consequentemente, lucro.
No entanto, entre a Xuxa que recebeu o título de Rainha dos Baixinhos, ainda na década de 1980, e a mulher de 63 anos, que se prepara para subir aos palcos de várias cidades brasileiras com a turnê “O Último Voo da Nave”, que celebra seus mais de 40 anos de carreira, muitas transformações aconteceram, tanto no cenário da mídia e da tecnologia como na própria consciência da artista, que hoje vê sua carreira e projeção como resultados de ser a figura certa, para o público certo, no momento em que a sociedade demandava aquele tipo de entretenimento.
Um dos maiores exemplos de originalidade da mídia e do entretenimento brasileiro, Xuxa foi a personagem da seção “Entrevista Coletiva”, na edição especial de aniversário de Meio & Mensagem, publicada no último dia 13.
Na seção, a apresentadora respondeu a perguntas de outras personalidades da publicidade, do meio artístico e de executivos de marcas com as quais trabalhou ao longo da carreira.
Veja, abaixo, parte da “Entrevista Coletiva” com Xuxa Meneghel. A íntegra está disponível na edição de aniversário de Meio & Mensagem, exclusivamente para assinantes.
Amauri Soares, diretor dos Estúdios Globo
“Você acha que existe espaço ainda hoje para programação infantil na televisão? Que tipo de programação?
Xuxa: Amauri, um beijo para você! As crianças, hoje em dia, não podem ser colocadas dentro de uma mesma caixinha. A criança da cidade grande é uma; a da cidade pequena, é outra. Um menino para uma menina é diferente, assim como uma criança de uma idade para outra, também tem muita diferença. Então, não existe a possibilidade de fazer um programa infantil que englobe tantas nuances e texturas diferentes no mesmo programa. Particularmente, acho impossível. Agora, fazer um programa para a família, onde a criança possa se encontrar, possa estar ali, possa ser vista nesse lugar, pode ser que seja possível. Como sou uma pessoa muito curiosa, tenho vontade de conhecer a cabeça das crianças. Gostaria de fazer um programa para crianças, mas sendo feito por elas. Queria me sentar com alguns grupos de crianças, com idades e cabeças diferentes, perguntar o que elas gostariam de ver, como elas gostariam de fazer, para ver o que sairia. Amo conversar com crianças e gosto de fazer perguntas sobre, por exemplo, religião. O que é Deus para uma criança que mora no Sul? E para outra, que mora no Nordeste, Norte, Centro-Oeste? Queira perguntar, me aprofundar, querer saber como elas chegaram naquele pensamento. Perguntar sobre a guerra, sobre castigos, sobre adultos. Tenho muita curiosidade pois, como as crianças cresceram e mudaram muito, elas absorvem muita informação, mas ainda têm o frescor de criança. Tenho muita curiosidade em saber como essas cabecinhas funcionam, como essa genialidade e esse lugar tão mágico poderia ajudar, inclusive, no desenvolvimento do mundo. Se alguém me perguntasse qual programa infantil eu gostaria de fazer, gostaria de chamar as crianças e descobrir o que elas sentem e o que gostariam de ver.
Cassia Dian, jornalista, fotógrafa e diretora de “Xuxa, o Documentário”
“As pautas femininas, ainda muito tímidas nos anos 80, quando você ganhou projeção, hoje repercutem com mais força. Como sua trajetória influencia o seu olhar sobre ser mulher?”
Xuxa: É, Cassia, vejo muita gente falando que eu já era influencer sem que essa palavra existisse, e que eu fiz muita coisa, que ajudei muita gente a se sentir forte, a sonhar e a acreditar. Ao mesmo tempo, hoje, com a idade que tenho, acho que poderia ter feito muito mais pelas meninas, pelas mulheres, pelas pessoas que são muito massacradas. Nunca vi tanto feminicídio, tanta violência contra a mulher como hoje em dia. Muita gente fala que sempre existiu, mas que não era filmado. Será? Acho que não. Hoje, parece que a coisa está mais forte. Os homens, os machistas, as pessoas que acreditam que a mulher tem de der inferior, tem de ganhar menos, parece que se tornaram mais poderosos e fortes a ponto de acharem que nós, mulheres, realmente precisamos ficar em casa. E o que mais me revolta é quando vejo uma mulher dizendo a outra que, se ela apanha, é porque realmente fez alguma coisa errada. Poderia falar, por horas, sobre coisas que eu poderia ter feito e ter dito. Tinha um lugar onde eu escrevia e colocava para fora todos os meus pensamentos, mas, depois de um tempo, eu disse para as pessoas que trabalhavam comigo que eu precisava parar, que eu não precisava ter um cantinho onde colocar tudo para fora porque, com aquilo, não chegaria a lugar nenhum. As pessoas não iriam me entender e eu não conseguiria mudar nada. Então, às vezes, fico pensando que, por mais que eu tente e lute, tem tanta coisa errada que, por mais que eu esteja fazendo minha parte, aquilo não seria nada. Essa doença de querer pisar nas pessoas, diminui-las, deixar o outro lado mais fraco, está muito feia. Falamos das guerras nos outros países, mas vivemos guerras internas na escola, no trabalho, no dia a dia, na internet, em tudo. Sempre há essa briga, de querer mostrar quem se é e o outro querer que você morra. Não sei se a maturidade, a velhice, fazem com que a gente veja as coisas dessa maneira, mas para mim está muito claro que o ser humano é um bicho muito egoísta, muito preconceituoso, muito feio. E que, por mais que a gente faça e fale, parece que não adianta. É bem assustador tudo isso.
Maurício de Sousa, desenhista, fundador e presidente da Mauricio de Sousa Produções
“Minha querida Xuxa, a criatividade e a identidade sempre fizeram parte da sua trajetória, desde os cenários mais simbólicos até a forma como você se comunica com o público. Hoje, olhando para esse momento da sua vida, o que tem te inspirado de verdade? O que você anda vendo, lendo ou ouvindo no dia a dia que tem despertado a sua criatividade?
Xuxa Meneghel: Mauricio, meu amor! Eu vejo de tudo. Vejo seriado bom, vejo seriado ruim. Vejo filme bom, filme ruim. Vejo tudo o que as pessoas estão consumindo e estou bastante apreensiva com a política, com a guerra no mundo. Quando chegamos a uma certa idade, não adianta não querer ouvir ou não querer saber das coisas. Temos que nos posicionar, principalmente quando temos a possibilidade de falar, a possibilidade de alcançar alguém. Temos essa obrigação. E isso me deixa bastante nervosa porque, às vezes, acho que eu poderia falar mais, fazer mais pelas crianças, pelas mulheres, pelos animais. Às vezes acho que fico muito quieta, muito parada, tendo tantas oportunidades e, muitas vezes, essas mesmas oportunidades não voltam. Porque hoje o tempo é mais rápido, tudo muda muito rápido. Então, estou tentando me moldar com a cabeça e o tempo das pessoas, com o que é bom hoje em dia. Na realidade, eu sou, aos 63 anos, uma eterna aprendiz. Estou vendo e consumindo de tudo para tentar entender um pouquinho da cabeça das pessoas e do mundo. E isso me faz ter alguma ou nenhuma criatividade nas coisas que eu faço. Vivo em uma montanha russa. É 8 ou 80. Muitas vezes, acordo e penso que poderia fazer isso e aquilo e aí, no outro dia, me pergunto: ‘por que pensei isso ontem?’ O mundo está mudando, está confuso e temos que aprender um pouco de tudo.
Patrícia Abravanel, apresentadora do SBT
“Xuxa, considerando tudo o que você fez ao longo da carreira, o que mais de fascina em trabalhar no mercado audiovisual?
Xuxa: Comecei a fazer televisão apenas por curiosidade e para ver se realmente iria dar certo e acabei me apaixonando de primeira. Vi que era aquilo que queria para mim. O cantar veio da necessidade de passar as mensagens que eu queria em vez ficar falando. Todo mundo concordou que, se eu cantasse sobre sonho, não precisaria falar sobre sonho e que poderia passar, através da música, temas como natureza e alimentação. A música veio praticamente de uma necessidade ligada ao programa. Já os filmes vieram como uma forma de impactar outro público e atender ao que queriam naquele momento. Tudo foi, na realidade, surgindo a partir da necessidade de crescer, além de apresentar o programa e o que eu poderia fazer para isso se fortalecesse. Assim foi ao lançar produtos, lançar as bonecas. As pessoas já estavam fazendo isso, então, resolvi fazer com mais cuidado e carinho ao meu público. Mas, sem dúvida nenhuma, posso te responder que, de tudo o que fiz, o que mais gosto de fazer é a televisão, é apresentar. Os shows também foram uma necessidade, após lançar os discos. Não foi um caminho muito planejado, foi algo que foi acontecendo. Não tinha a certeza de que eu iria dar certo e de que as pessoas iam querer me ver e me consumir. Até hoje, me pergunto o que as pessoas viram em mim e por que tudo isso aconteceu comigo. Acredito que o fato de ter um programa, na manhã toda, na terceira maior televisão do mundo – e você, que também lida com isso, sabe a força que a TV tinha nos anos 1980 e 1990 – trouxe um pouco a resposta. As pessoas queriam, naquela época, ver alguém parecida comigo e acompanhar o que eu tinha a oferecer. Foi uma junção de coisas. Hoje em dia, não acredito que uma pessoa parecida comigo, com aquele horário todo, tenha esse boom, porque o mundo mudou, as pessoas mudaram, a TV mudou. Sem dúvida, apresentar o programa foi o que mais me fascinou e o que mais me deu oportunidade de ir para outros caminhos.
Sérgio Gordilho, copresidente e CCO da agência de publicidade Africa
“Hoje, Dengue e Praga dominariam os feeds. As Paquitas seriam top creators. Os baixinhos, um fandom ativo. O que a tecnologia teria potencializado no seu trabalho naquela época… e o que talvez ela teria tirado de você?”
Xuxa: Caramba, Sérgio! Eu acho que minha naturalidade seria um pouco podada. Porque, não vou dizer sempre, mas as vezes me arrependo de falar as coisas sem pensar. E acho que, se eu tivesse todas as manhãs, todos os dias, como naquela época, para falar o que eu quisesse, iria falar coisas bacanas, coisas ruins. Se eu tivesse toda essa parafernalha que temos hoje, ia ser idolatrada em um dia, cancelada em outro. Acho que ia perder a naturalidade e isso não seria muito bom. Foi ótimo para aquela época, em que eu recebia cerca de 8 mil cartas por dias, jogava aquelas cartinhas para fora para poder ler o que as pessoas pensavam de mim. Hoje em dia é só botar o dedo e ficar lendo os comentários, bons e ruins, que as vezes poderiam me magoar e com certeza tirariam a minha naturalidade, e também das Paquitas, do Dengue, do Praga, de todos nós.
