TECNOLOGIA

Como o descompasso na adoção da IA pode impactar a criação?

Nivelamento do uso da IA ainda é gargalo para as agências; tecnologia exige mudança na cultura e novas habilidades

i 9 de setembro de 2026 - 6h24

Nos últimos anos, a indústria da comunicação vem descobrindo as possibilidades do uso e impactos da inteligência artificial (IA) na operação. A evolução da tecnologia, contudo, não acompanha a integração efetiva dentro das agências e, especialmente, nos times criativos.

inteligência artificial

(Crédito: Napaartmax/stock.adobe.com)

O movimento, alega Rafael Guth, diretor de criação da Crispin, é natural do processo de adoção de qualquer tecnologia ou ferramenta inédita, dados os níveis discrepantes de interesse, familiaridade e facilidade de uso e incorporação ao próprio trabalho desde o início. O tempo de trabalho e aprendizado de cada colaborador é outro fator que contribui para o desnivelamento, complementa.

“A principal lacuna não está apenas no acesso às ferramentas ou na capacidade de escrever prompts, mas na maturidade para integrá-las ao processo criativo”, salienta Guth.

Um levantamento da Montag School de 2025 já mostrava que 86% dos profissionais da indústria ainda se consideravam iniciantes ou com habilidades intermediárias em IA. Outros 12,7% não haviam utilizado soluções, enquanto o domínio avançado ficou restrito a 1,3% da amostra.

A metodologia envolveu uma pesquisa qualitativa junto a 228 profissionais de 12 empresas de publicidade, branding, design e tecnologia.

O fundador da Montag, Bruno Deos, afirma que a maioria dos profissionais já experimentou ferramentas de IA, mas muitos ainda não sabem exatamente quando utilizá-las, como direcioná-las ou como transformar resultados pontuais em fluxos de trabalho aplicáveis ao cotidiano.

“No início, existe uma curva de aprendizagem que demanda tempo, testes e documentação. Sem esse investimento, surgem iniciativas isoladas, dependentes de esforços individuais e difíceis de incorporar à operação de forma consistente”, complementa.

Os especialistas alegam que os principais impactos de um uso não estruturado da IA é o abismo entre experimentos pontuais ou individuais em capacidade operacional e coletiva. Assim, o uso fica concentrado em poucos colaboradores, podendo levar ao retrabalho, inconsistência de ritmo e dificuldade de estimar prazos e custos.

Há, consequentemente, um reflexo nas entregas às marcas. Para os clientes, o resultado pode ser uma entrega inconsistente ou uma aplicação da IA mais orientada pelo efeito de novidade do que por uma necessidade real de comunicação, conforme explica Deos.

Interferências do cotidiano

Além da adoção acelerada, alguns outros fatores contribuem para o problema de nivelamento. A implantação de inovações está em grande parte ligada à capacidade de tentativa e erro, fator influenciado pelo ambiente organizacional e cultura que permita a criação de um ambiente de testes que estimule a experimentação e a troca.

“Quando a cultura prioriza apenas resultados imediatos, os profissionais tendem a utilizar as ferramentas de maneira superficial, reproduzindo processos conhecidos em vez de explorar novas possibilidades”, declara o fundador da Montag.

Outro desafio, segundo Marcelo Namura, coCEO da agência Bold, é alinhar as expectativas criadas sobre a IA. “Manter a consistência visual, seja em um simples post de rede social até uma série animada, exige um processo rigoroso de testes e consolidação de storyboards antes de partir para a geração de um vídeo ou uma peça final. Sem essa rigorosidade no processo, a operação perde tempo refazendo entregas desalinhadas”, exemplifica. Outro gargalo existente, cita, são as próprias alucinações da IA.

Diante de um cenário em que a experiência exerce impacto relevante na forma em que a tecnologia é incorporada no cotidiano, as lideranças devem se posicionar como ponto focal da estratégia da criação. Isso inclui introduzir as ferramentas aos times, criar as condições necessárias para a adoção em escala, bem como estruturar processos e critérios para balizar a implementação.

“Cabe à liderança organizar esse desenvolvimento de forma coletiva, ampliar o acesso aos treinamentos, promover a troca entre diferentes experiências e criar oportunidades para aplicar o conhecimento no trabalho cotidiano”, entende Guth. “A expertise pode surgir em qualquer ponto da equipe, mas precisa de uma estrutura que permita que ela circule e se transforme em capacidade coletiva”.

Conquista e aprimoramento de habilidades

O levantamento da Montag School revelou que a maior parte dos profissionais de agências utiliza a IA para a criação de conteúdo visual e textual, a geração de ideias e a otimização de tempo e processos.

ChatGPT, Gemini, Midjourney e Adobe Firefly estão entre as ferramentas preferidas dos entrevistados. Deos alerta que a acessibilidade das soluções faz crescer a importância de competências relacionadas à direção. Assim, defende, pensamento crítico, clareza de intenção, capacidade de formular boas perguntas e habilidade para avaliar e refinar resultados se tornam diferenciais centrais.

Já para profissionais menos seniores, os treinamentos devem desenvolver fundamentos – experimentar com método, avaliar resultados, iterar, combinar ferramentas e documentar processos -, descreve o fundador da Montag. “O objetivo não deve ser apenas formar profissionais que saibam gerar conteúdo, mas pessoas capazes de fazer escolhas e utilizar a IA com intenção, consistência e responsabilidade”, pontua.

Há, contudo, uma baixa fluência quando se trata do desenvolvimento de vídeos. Antes de desbravar territórios complexos como geração de vídeo ou áudio, complementa Namura, os criativos precisam começar com o domínio de geração e o controle de imagens estáticas, sempre acompanhados do desenvolvimento técnico da profissão, justamente, o olhar crítico.

E outras áreas são capazes de contribuir para o nivelamento da tecnologia nas agências de forma geral. À medida que disciplinas como mídia, atendimento, estratégia e produção, além de operações e negócios, passam a também adotar a IA, a solução deixa de ser exclusividade do time criativo e vira a linguagem operacional padrão da agência, afirma o coCEO da Bold.

“Quanto mais transversal for esse aprendizado, menor o risco de termos iniciativas isoladas que não se conectam à operação nem às necessidades dos clientes”, declara Guth, diretor de criação da Crispin.