Empresas estão mais maduras em relação à sustentabilidade
Daniela Magnini, diretora do CEBDS, analisa transformação da agenda ESG e os desafios para a comunicação das marcas
A terceira edição do Reporting Matters, levantamento do Conselho Empresarial Brasileiro para o Desenvolvimento Sustentável (CEBDS) que avalia os relatórios de sustentabilidade das empresas associadas, revela um grau de maturidade em relação à agenda ESG.
O reporte é elaborado a partir da metodologia do World Business Council for Sustainable Development (WBCSD) e avalia 82 empresas que tenham relatórios no Brasil, entre as 110 associadas. A versão mais recente, apresentada no ano passado, aponta para um setor empresarial mais maduro, técnico e comprometido. Há, ainda, maior preocupação em alinhar discurso e prática.

Relatório do CEBDS aponta para empresas mais maduras conforme análise de relatórios de sustentabilidade (Crédito: Blessed Stock/Shutterstock)
De acordo com a diretora do CEBDS, Daniela Magnini, a maturidade é uma prova material de que a sustentabilidade está crescendo no centro dos negócios e das estratégias das organizações. Por exemplo, 75% das empresas aplicam o conceito de dupla materialidade, um aumento em relação aos 54% da edição passada. Além disso, a maior parte segue as Global Reporting Initiative (GRI) combinada a outras abordagens.
O contexto é positivo frente o recuo dos últimos anos, puxados por motivações políticas que afetaram, principalmente, os esforços para promoção de diversidade, equidade e inclusão (DEI). Daniela atenta, contudo, para uma mudança de postura, especialmente nos Estados Unidos. Neste ano, o país ainda deixou oficialmente o Acordo de Paris.
“Ao nos debruçarmos e nos aprofundarmos junto às empresas, vemos que elas não abandonaram essa estratégia, só deixaram de vocalizar”, alega, complementando que muitas adequaram seus termos em relação à diversidade.
No cenário brasileiro, a Comissão de Valores Mobiliários (CVM) alterou a Resolução 193 e revogou a obrigatoriedade da divulgação do reporte financeiro ligado à sustentabilidade. O movimento gerou reações entre o mercado. Entidades pediram que a CVM reconsidere a decisão sobre a flexibilização e alegaram possível perda de comparabilidade entre empresas e setores, sobretudo após três anos de preparação para a adequação à regra.
A reação, afirma a diretora, corrobora com a integração entre estratégia e sustentabilidade. “As empresas querem previsibilidade. Quando o mercado interno e externo tem padrões reconhecidos entre si, há a abertura de mercado. É um sinal de competitividade”, pontua.
Especialmente após a COP 30, que ocorreu em Belém, no Pará, em 2025, o setor privado vem se engajando na agenda de ação. O CEBDS já realizou quatro coalizões com 270 empresas e entidades de quatro setores da economia: energia, agricultura, minerais e transportes. O resultado é um portfólio de 135 projetos ligados à soluções climáticas em todo o País. O Conselho vem realizando uma serie de conexões para ligar as iniciativas ao financiamento, etapa essencial para concretizar a implementação.
“Como resultado da COP e dessa mudança de chave para a era da implementação, as empresas também entendem que precisam se envolver em movimentos pró competitivos. A agenda de sustentabilidade climática é totalmente sistêmica”, declara. Na prática, o CEBDS ainda consolida indicadores críticos para alavancar as ações junto ao Boston Consulting Group (BCG).
A ponta do consumidor
O Sustainability Sector Index 2025, da Kantar, mostra que, em média entre diversos setores analisados, 61% das pessoas já testaram, compraram ou estão abertas a produtos de marcas com impacto social ou ambiental positivo. A pesquisa cobre 42 setores em 22 países, incluindo o Brasil.
Por outro lado, questões econômicas exercem impacto direto sobre a decisão de compra. Em 2024, 33% dos brasileiros disseram adquirir produtos ambientalmente sustentáveis apenas se o preço for igual ao dos convencionais. Os dados são da pesquisa Sustentabilidade & Opinião Pública, da Nexus e da Confederação Nacional da Indústria (CNI), realizado junto a 2 mil pessoas acima dos 16 anos de todo o País.
Apesar da difusão do tema, ainda existe uma dificuldade de compreensão de conceitos e informações, geralmente, ainda são escassas. “É um mercado, do ponto de vista de consumidor e de comunicação, que ainda está amadurecendo. O deslize de informação, muitas vezes, é por falta de conhecimento”, diz Daniela, salientando a responsabilidade do marketing.
E a lacuna se dá, segundo ela, por questões estruturais, dada a distância entre as áreas de comunicação e sustentabilidade. O desafio da sinergia e letramento se estende, ainda, à toda a indústria de comunicação, incluindo agências de publicidade e relações públicas. A dificuldade também perpassa pela variedade de setores e os diferentes níveis de avanço e maturidade na agenda.
O surgimento do conceito ESG
Na contramão, diz, as redes sociais amplificaram a voz dos consumidores pela cobrança por resultados, muito em vez do reconhecimento da jornada. “É um tema tão complexo que tenho a sensação de que as empresas pecam em excesso pela prudência, por serem mal compreendidas ou pela comunicação ser, de fato, difícil. Mas isso não significa que não tenham avanços e que as empresas não estejam fazendo algo”, alerta Daniela.
Perspectivas
O ano de 2030 é decisivo considerando inúmeras metas. É prazo para a implementação dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável da Organização das Nações Unidas (ONU) e para que as emissões globais diminuam 43% para manter os objetivos ao alcance, conforme estabelecido pelo Acordo de Paris.
A diretora do CEBDS é otimista quanto às empresas atingindo suas metas internas até 2030, de maneira geral. Outras estão adiando o prazo para anos seguintes. “É importante observar que elas não estão anulando as suas metas, mas, sim, as alongando e permanecendo absolutamente comprometidas com as metas que estabeleceram”, afirma Daniela.
No longo prazo, enxerga a efetividade do mercado internacional e nacional ligada à harmonização de métricas e regulamentação para acessibilidade de produtos sustentáveis, bem como para melhorias bastidores, à medida em que organizações demandam maior segurança jurídica e previsibilidade.
