AUDIOVISUAL

O que há por trás do sucesso das adaptações literárias?

Produções encontram comunidade engajada e fomentam acesso a novos públicos por meio do cinema e streaming

i 15 de setembro de 2026 - 6h03

Este ano, Off Campus do Prime Video, que se inspira nos romances universitários de Elle Kennedy, tornou-se a terceira série de estreia mais vista na história do streaming.

Foram 36 milhões de espectadores nos primeiros 12 dias.

Já o Verão que Mudou Minha Vida, que se baseia na trilogia de Jenny Han, permaneceu por dez semanas no Top 10 da Nielsen e gerou mais de 6,5 bilhões de minutos de audiência.

adaptações literárias

Off Campus: série com inspiração no romance de Elle Kennedy já tem segunda temporada em produção (Crédito: Reprodução/Instagram)

O sucesso de adaptações literárias para a televisão reúne comunidade engajada em torno das obras que, antes, existiam apenas no papel.

Assim, ao mesmo tempo em que o envolvimento do público com o enredo e personagens atrai as pessoas aos cinemas e às plataformas de streaming, essas produções fomentam a literatura para a audiência que tem nas adaptações o primeiro contato com as histórias.

Conexão emocional

Segundo Pato Gonzales, head de marketing internacional do Prime Video, uma das maiores vantagens de se adaptar um livro de sucesso é que a conexão emocional com o público já existe.

“A empolgação vem de ver algo que o público imaginou tornar-se realidade, de repente — personagens, cenários, relacionamentos —, ao mesmo tempo em que reconhecem a história pela qual se apaixonaram”, declara.

Na seara das plataformas, cerca de 15% dos filmes brasileiros disponíveis na Netflix se baseiam em livros.

Segundo a empresa, no primeiro semestre deste ano, todas as semanas tiveram, pelo menos, uma adaptação literária no top 10 global.

Em breve, estarão disponíveis títulos que são adaptações de clássicos como O Diário de um Mago, de Paulo Coelho, e Feliz Ano Velho, de Marcelo Rubens Paiva.

A Netflix, ainda, produziu A Estranha na Cama, do autor Raphael Montes, antes mesmo do lançamento da obra.

“O streaming tem o poder de levar as histórias para muitas plateias, tanto no próprio país quanto no mundo, porque estimula a descoberta”, comenta Higia Ikeda, diretora de filmes na Netflix Brasil.

Dessa forma, há reflexo do sucesso fora das telas.

A executiva cita o estudo NielsenIQ BookData, que revelou que, nas semanas seguintes às estreias na Netflix, as vendas no Brasil do livro Pssica, de Edyr Augusto, multiplicaram em mais de oito vezes.

Gustavo Gontijo, produtor-executivo da O2, aponta o streaming como maior canal e escoador audiovisual para o grande público.

“A cauda, que já era longa quando tínhamos cinema, TV aberta, TV a cabo, ficou muito mais longa com as múltiplas plataformas de streaming, que, quase como um carrossel, dividem e circulam todo esse conteúdo”, acrescenta.

Das páginas para as telas

Antes do sucesso, contudo, existem os desafios.

Plataformas e produtoras encaram a missão de trabalhar sobre uma história que já existe, de diversas formas, no imaginário dos leitores.

Ainda que a produção se inspire ou baseie em obra existente, a adaptação, em si, é uma criação.

O Gênio do Crime, que deriva do livro escrito por João Carlos Marinho, chegou aos cinemas recentemente com algumas mudanças.

A história original se passa em 1969, mas, para as telas, a narrativa foi transposta para os dias atuais.

A decisão de roteiro, direção e linguagem deve preservar a essência da obra, fazendo com que funcione também no audiovisual, alega Tiago Mello, produtor e sócio da Boutique Filmes.

“Às vezes, é necessário mudar elementos da história, atualizar o período em que ela acontece ou encontrar outras formas de traduzir para a tela aquilo que, no livro, está no pensamento dos personagens. Na literatura, por exemplo, pode haver muitos momentos de reflexão interna; no audiovisual, muitas vezes, precisamos transformar isso em ação, diálogo ou imagem”, exemplifica.

Gustavo Mello, também produtor e sócio da Boutique Filmes, corrobora que é preciso transitar na linha tênue entre a liberdade de escolhas artísticas que a adaptação exige e a proteção da alma do livro.

Por isso, defende, cada adaptação demanda ferramentas criativas muito particulares.

Marketing na era digital

“Não existe melhor divulgação que um trabalho feito. Um bom roteiro, com uma bela direção e um super elenco fala mais alto que um megafone na 13 de Maio ou no Saara carioca”, ilustra Gontijo, da O2.

Apesar disso, a produção, por si só, não é o suficiente e, sem investimento na mesma proporção no marketing e na divulgação, o projeto, por melhor que seja, corre o risco de passar anônimo.

As produções audiovisuais encontram um público que participa ativamente dos lançamentos.

Por se tratarem se fãs, há comportamento mais voltado a comunidades, o que requer estratégias de maior imersão e envolvimento no universo das histórias.

Para promover Off Campus, o Prime Video trouxe o elenco a São Paulo para evento dedicado a fãs e convidados no Jockey Club.

A resposta foi satisfatória não apenas do ponto de vista da audiência, mas também aos talentos da série, que puderam vivenciar a dimensão do sucesso.

“Quando os fãs sentem que são parte de um momento, uma première pode se tornar muito maior. Torna-se um evento cultural”, diz o head de marketing internacional.

O conteúdo é replicado para as redes sociais, seja por meio de discussões, memes ou outros formatos.

Plataformas como Wattpad, Instagram e TikTok servem como termômetros para entender a conexão do público com uma obra, especialmente junto a criadores de conteúdo ligados ao universo literário – a exemplo dos booktokers, como são chamados.

Em alguns casos, adiciona Mello, é possível até mesmo identificar o potencial antes mesmo que o livro chegue fisicamente às livrarias.

Novos espaços

Há alguns meses, a Netflix criou a seção “Assista a seus livros favoritos” justamente para ajudar os fãs a revisitar obras favoritas, descobrir histórias novas e potencializar a característica de descoberta para obras novas e clássicas.

A empresa participa da Festa Literária Internacional de Paraty (Flip) há três anos e, neste ano, tornou-se patrocinadora oficial.

“Além de celebrar o legado e a importância do evento, também é uma ótima oportunidade para encontrar o público leitor, se conectar de perto com os autores e com o mercado editorial, o que sempre abre portas para novas oportunidades”, descreve Ikeda.