Análise: empreendedorismo, o fermento da internet, mas…
Somos extremamente tímidos empresarialmente falando, pensamos pequeno, pensamos em nossa cidade, no máximo em nosso País e, pior de tudo, não temos a ambição de mudar o mundo
POR BOB WOLLHEIM
Head digital do Grupo ABC e cofundador do youPIX
Não restam mais dúvidas do poder da internet. Acredito até que subestimamos os impactos que ela ainda trará ao mundo, seja no aspecto de comportamento humano, seja nas questões das mudanças na economia, mas ninguém mais duvida do poder que ela representa.
Note-se que quando digo impacto e poder, não necessariamente me refiro apenas a coisas boas. A internet potencializa o ser humano, com tudo o que ele tem de mais humano.
Uma coisa que também não parece restar muitas dúvidas é de que o empreendedorismo se aproveita da web de forma maravilhosa e tem turbinado a inovação e a disrupção.
Estão aí empresas como Yahoo!, Google, Facebook, WhatsApp, Twitter, LinkedIN, Amazon, Turn, MediaMath, etc. para não nos deixar mentir.
Quer uma continha rápida? Ano passado, a publicidade online, altamente dominada por players como os que citei acima, abocanhou ¼ dos investimentos mundiais em publicidade… e cresce rápido.
Em tempo, tem um estudo interessantíssimo da The Economist sobre a indústria da publicidade que coloca vários pingos nos ís do nosso universo e como e para onde a coisa acontecerá nos próximos anos.
Se está claro o peso da internet como agente de inovação no mundo, quando olhamos para nosso País, porém, a coisa complica. Não sou daqueles que acha que tudo no Brasil é ruim mas também não acho válido essa atitude hey-ho-let’s-go que temos visto no universo do empreendedorismo.
Falta muita coisa, o que existe é bem pequeno e residual e os impactos, por tabela, também são pequenos. Essa é a real.
O que mais tem por aí é auto-ajuda feita por pessoas que geralmente nunca empreenderam e vendem livros, palestras e webinars a rodo! Acho bacana sonhar e achar que “quem luta sempre chega lá”…. mas quem é um pouco mais vivido sabe que na maior parte das vezes o lá é uma ficha suja no Serasa e um caminhão de problemas para resolver na vida.
Apesar disso, sou um otimista e vejo que o empreendedorismo por opção e de alto impacto tem crescido muito em nosso país mas ainda há muito o que fazer…. e quando olhamos o nosso segmento – comunicação – aí falta mais ainda a ser feito!
É inegável que um mercado publicitário com um modelo de negócios bem sucedido e uma forte concentração de mídia atrasam o desenvolvimento, pela simples razão matemática de que há menos espaço para o novo, para o teste, para a quebra de paradigma.
Se, por um lado, temos um segmento superprofissionalizado e estruturado, por outro, o espaço para inovação é muito baixo. Fato.
Para complicar um pouco mais esse cenário, temos uma indústria de capital de risco ainda muito pequena e, em geral, um tanto avessa ao risco que, diga-se, vem junto da inovação.
E, quando se fala de incentivo de Governo, apesar de algumas iniciativas bacanas como o StartUp Brasil e o trabalho do Sebrae, a realidade nua e crua é que os Governos no Brasil conseguem mesmo é atrapalhar o empreendedorismo.
O resultado é que temos mais evolução do que disrupção. Por exemplo, temos centenas de prestadores de serviços de compra de links patrocinados do Google, mas pouquíssima empresas tentando reinventar essa tecnologia… e assim por diante.
No ecossistema de comunicação isso é especialmente dramático e tem retardado nosso futuro, algo semelhante ao que foi a reserva de mercado para a indústria da informática no passado, penso.
Como empreendedor óbvio não concordo em colocar a culpa em quem quer que seja – Governos, investidores, concentração de mercado, etc. – pois sei que nós empreendedores é que temos uma boa parte dessa culpa.
Somos ainda muito despreparados, achamos que estudar é pros outros, adoramos uma cópia (copy cats), somos extremamente tímidos empresarialmente falando, pensamos pequeno, pensamos em nossa cidade, no máximo em nosso país e, pior de tudo, não temos a ambição de mudar o mundo!
Temos visto algumas startups sendo lançadas com essa pretensão mundial, mais agressivas e ousadas, mas elas são exceções e, na maior parte das vezes, mais uns sonhos iludidos do que um pensamento disruptivo mundial. Fazer uma viagem de picth para São Francisco e ficar fazendo selfie no Tech Crunch não nos faz por si só mais disruptores e inovadores.
Se a internet é o grande fermento da inovação digital, nosso fermento no Brasil é de baixa capacidade “fermentística” e nos tem deixado, em geral, à reboque do que vem acontecendo no mundo. Fato.
Se nos comparamos aos EUA ou em especial ao Vale do Silício, obviamente que nossa posição é praticamente inexistente… mas também a comparação é injusta, afinal estamos falando da região mais empreendedora do mundo e de um país que se fez baseado na inovação.
Tudo bem, mas e se nos compararmos a Israel, um país de apenas 8 milhões de pessoas cercado por povos que vivem em guerra e é a 36a (United Nations, onde o Brasil é a 7a /2013) economia mundial?
Hum, dali saíram um ICQ, um Waze, uma Conduit, uma Outbrain…. entre tantas outras empresas inovadoras e que estão no mundo todo.
Ou seja, de fato, o Brasil poderia fazer muito mais e ter um papel mais preponderante na cena empreendedora mundial. Se não preponderante, quem sabe menos coadjuvante, próximo a irrelevância, como é hoje, sempre com as poucas e honrosas exceções.
O que fazer?
Se a gente não olha pro nosso próprio umbigo e não é capaz de fazer uma autocrítica, seguiremos como estamos, ou seja, irrelevantes nessa cena, especialmente no universo da comunicação.
Algumas hashtags passam pela minha cabeça nessa autocrítica: #MenosGovernos #MaisInvestimentodeRisco #StartupsMaisPreparadas #EmpreendedoresMaisOusados #MenosHeyLet’sGo #MaisVontadeDeMudarOMundo!