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O século que coube em um homem

A morte de Edgar Morin, aos 104 anos, não encerra uma obra, confirma que ela foi feita para durar mais do que qualquer era

Regina Augusto

Diretora Executiva do Cenp e Curadora de Conteúdo do Women to Watch 30 de maio de 2026 - 9h41

(Crédito

Edgar Morin, sociólogo e filósofo (Crédito: Lisaetwikipedia)

Quantas existências cabem em uma vida? Na de Edgar Morin, que nos deixou nesta sexta-feira 29, aos 104 anos, a resposta é: muitas. Resistente da Segunda Guerra, militante político, sociólogo, filósofo, epistemólogo, Morin não se deixou caber em nenhuma caixinha. E foi exatamente essa recusa que o tornou um dos pensadores mais necessários e duradouros do nosso tempo.

Há algo de paradoxal e ao mesmo tempo profundamente coerente na trajetória de um homem que dedicou a vida a criticar a fragmentação do conhecimento e que, justamente por isso, percorreu um século inteiro sem envelhecer intelectualmente. Enquanto o mundo se especializava em silos cada vez mais estreitos, Morin alargava o horizonte. Ao mesmo tempo em que o debate público se polarizava em certezas rasas, ele insistia na complexidade como método e como ética.

Seus quase 70 livros não são uma obra enciclopédica no sentido tradicional. São, antes, uma conversa longa e ininterrupta com o presente. Do engajamento na Resistência Francesa, quando ainda assinava como Edgar Nahoum e tinha 21 anos, até os ensaios sobre a crise civilizatória do século 21, não parou de interpelar o seu tempo. O pseudônimo que adotou na clandestinidade — Morin — tornou-se para sempre o nome de alguém que escolheu se reinventar para sobreviver, e depois para pensar.

Formado em direito, história e geografia pela Sorbonne, ele poderia ter seguido qualquer uma dessas trilhas com distinção. Escolheu, em vez disso, a encruzilhada. O Pensamento Complexo, sua contribuição mais reconhecida, não é uma teoria sobre a complicação das coisas, mas sobre a sua interdependência. Tudo está ligado a tudo: a ciência à política, o meio ambiente à educação, o afeto à epistemologia. Num tempo em que algoritmos nos encerram em bolhas e disciplinas acadêmicas mal se falam, essa proposta soa quase revolucionária.

Na educação, Morin foi igualmente provocador. Defendia um ensino voltado para a cidadania planetária, não para a formação de especialistas eficientes, mas de seres humanos capazes de compreender a incerteza, respeitar as diferenças e habitar o mundo com responsabilidade. Em uma época em que tanto se debate o papel da escola e o que significa aprender, sua voz chegava como contraponto urgente à lógica das métricas e do desempenho.

Mas foi talvez na relação com a natureza que sua visão ganhou contornos mais prementes. Já em 1992, às vésperas da Rio-92, Morin alertava contra “a ideia louca do homem senhor da natureza, que ia conquistá-la e dominá-la”. Três décadas depois, com as mudanças climáticas no centro de todos os debates, sua advertência ressoa com uma precisão que incomoda. Ele não era profeta, simplesmente, alguém que pensava com rigor e sem concessões ao imediatismo.

Essa capacidade de se manter contemporâneo sem abrir mão da profundidade é o que distingue Morin de tantos intelectuais que o precederam ou que surgiram ao mesmo tempo. Ele não ficou preso a um período, a uma escola, a um manifesto. Aos 100 anos, ainda escrevia, provocava e incomodava. Como se cada nova crise do mundo fosse uma confirmação de que o Pensamento Complexo não era apenas uma teoria acadêmica, mas uma ferramenta de sobrevivência civilizatória.

Há quem diga que a longevidade é um presente. No caso de Morin, foi também uma responsabilidade que ele exerceu com rigor e generosidade até o fim. Que a sua ausência nos convide a ler, ou a reler, um pensador que, mais do que nunca, o presente exige.