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SXSW 2026: Duas mulheres, duas gerações e a mesma força

Há algo profundamente inspirador quando personalidades femininas falam não apenas sobre carreira, mas sobre como enxergam o mundo

Regina Augusto

Diretora Executiva do Cenp e Curadora de Conteúdo do Women to Watch 15 de março de 2026 - 22h25

(Crédito: Artigo pessoal)

A atriz Rhea Seehorn e a produtora executiva Jamie Lee Curtis no SXSW 2026 (Crédito: Artigo pessoal)

Há algo profundamente inspirador quando duas mulheres de gerações diferentes ocupam o mesmo espaço público não apenas para falar de suas carreiras, mas para compartilhar a forma como enxergam o mundo. Uma troca honesta e transparente sobre sucesso, reconhecimento e longevidade profissional. No SXSW, duas dessas vozes se destacaram com uma potência rara.

De um lado, Rhea Seehorn, atriz que conquistou o público com a complexidade de sua personagem Carol, protagonista da série Pluribus. Do outro, Jamie Lee Curtis, uma das figuras mais longevas e reinventivas de Hollywood, que aos 67 anos adicionou ao currículo o papel de empresária e produtora executiva.

São trajetórias muito diferentes. Uma construída no refinamento silencioso da atuação, outra marcada por décadas de protagonismo no cinema. Ainda assim, havia algo que as aproximava em cada um dos painéis que estrelaram: a capacidade de falar sobre criação e vida com uma franqueza desarmante.

Rhea Seehorn participou de um painel sobre o processo criativo de Pluribus, ao lado do criador Vince Gilligan e de outros membros da equipe. A conversa era sobre colaboração na construção de narrativas complexas, mas quem roubou a cena foi ela. Quando perguntada quanto tempo levou para entender do que exatamente a série tratava, sua resposta foi desconcertante: “Eu ainda estou tentando descobrir.”

Para a atriz, isso não é um problema, é parte da liberdade criativa. Interpretar uma personagem que também não entende totalmente o que está acontecendo permite algo raro: abandonar a obrigação de explicar tudo ao público e simplesmente viver a verdade da personagem.

Jamie Lee Curtis participou de um painel que ela mesma descreveu com humor: “Agora sou uma chefe.” Depois de décadas como atriz, de Halloween a Tudo em Todo Lugar ao Mesmo Tempo, Curtis se reinventou como produtora executiva ao criar a Comet Pictures. Contou, porém, que a origem da produtora não nasceu de um plano estratégico. Décadas atrás, durante as filmagens de True Lies, ela viu em um catálogo de leilão uma escultura de uma mulher sobre um cometa e decidiu ali que um dia teria uma produtora com esse nome. A ideia levou mais de 15 anos para se materializar.

Para Curtis, esse tipo de gesto faz parte de algo que ela chama de manifestação, a capacidade de imaginar um destino e trabalhar para torná-lo real. Mas ela desmonta qualquer mito de perfeição. “Sou cheia de ideias, conflitos e contradições. Eu me amo e me odeio, provavelmente em doses iguais”.

Talvez por isso um dos momentos mais marcantes da conversa tenha surgido quando Curtis falou sobre tecnologia. Em um festival dominado por debates sobre inteligência artificial, ela trouxe um lembrete quase óbvio, e ainda assim poderoso: “As IAs não são reais. Elas não se importam com você. Nunca vão se importar. Não vão chorar quando você morrer.”

Não era uma crítica à tecnologia. Era uma defesa daquilo que continua sendo insubstituível: as conexões humanas. No fim, os dois painéis pareceram dialogar entre si. A coragem de permanecer nas perguntas é o grande destaque da fala quase hipnótica de Rhea Seehorn. Enquanto que Jamie Lee Curtis deu uma lição sobre a coragem de continuar se reinventando.