Blog da Regina

A grande lição de Cármen Lúcia e Daiane

O que a reação desproporcional à presença de mulheres em espaços de poder revela sobre nós?

Regina Augusto

Diretora Executiva do Cenp e Curadora de Conteúdo do Women to Watch 26 de fevereiro de 2026 - 10h35

(Crédito: Reprodução)

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Uma veste toga. A outra veste shorts e camiseta. Ambas ocupam espaços historicamente masculinos e, ainda hoje, seguem sendo exceções nesses territórios. Nos últimos dias, as duas se tornaram personagens centrais de uma mesma narrativa: a de como mulheres em lugares de poder ainda incomodam e de como as reações a elas revelam o quanto o machismo e a misoginia permanecem estruturais no Brasil.

A árbitra Daiane Muniz foi escalada para apitar a partida em que o São Paulo venceu o Red Bull Bragantino por 2 a 1, avançando às semifinais do Campeonato Paulista. Ao final do jogo, o zagueiro Gustavo Marques criticou a arbitragem e questionou a Federação Paulista de Futebol por ter escolhido uma mulher para um confronto “desse tamanho”. A frase, embrulhada em um “todo respeito às mulheres”, deixou explícito o que ainda é naturalizado: a ideia de que há lugares grandes demais para serem ocupados por elas.

Poucos dias depois, no julgamento dos mandantes do assassinato de Marielle Franco e Anderson Gomes, realizado na Primeira Turma do Supremo Tribunal Federal, a ministra Cármen Lúcia fez um pronunciamento que ecoou para além das paredes do tribunal. Única mulher na composição da Turma, ela falou sobre a misoginia e a violência de gênero com a contundência de quem conhece, por dentro, a estrutura que descreve.

“Nós, mulheres — e mesmo eu, branca, e mesmo eu, juíza –, nós somos mais ponto de referência do que sujeito de direitos”, afirmou. “Nós somos quase muito parecidas com seres humanos, mas não temos a integridade ainda de um reconhecimento pleno.” E concluiu: “Matar uma de nós é muito mais fácil. Matar fisicamente, matar moralmente, matar profissionalmente. É muito mais fácil”.

Entre o gramado e o plenário, o que une Daiane e Cármen Lúcia não é apenas o fato de serem mulheres em ambientes masculinos. É a pedagogia involuntária que suas presenças provocam. Ao apitar um jogo decisivo ou ao proferir um voto histórico, elas não estão fazendo “militância”. Estão apenas exercendo suas funções. Ainda assim, suas atuações desencadeiam reações que expõem a lógica de subalternização feminina que insiste em sobreviver.

A fala do jogador, ao sugerir que partidas importantes não deveriam ser apitadas por mulheres, e a reflexão da ministra, ao afirmar que mulheres ainda não são plenamente reconhecidas como sujeitos de direitos, dialogam de forma perturbadora. A primeira revela o preconceito cotidiano, muitas vezes travestido de opinião esportiva. A segunda desnuda o pano de fundo histórico que sustenta esse tipo de pensamento.

A epidemia de feminicídios no Brasil não nasce do nada. Ela é alimentada por essa percepção arraigada de que mulheres são menos. Menos autoridade, menos competência, menos legitimidade. Quando uma árbitra é questionada não por um erro técnico, mas por seu gênero, ou quando uma ministra da Suprema Corte precisa reafirmar sua condição de sujeito de direitos, vemos o quanto essa lógica atravessa diferentes esferas da vida social.

A grande lição que Cármen Lúcia e Daiane oferecem à sociedade não está apenas em suas palavras ou decisões, mas em sua permanência. Em continuar ocupando o campo e o tribunal. Em não se retirarem diante do incômodo alheio. Em transformar o exercício cotidiano da competência em ato político, ainda que não seja essa a intenção inicial.

Porque cada mulher que ocupa um espaço de poder amplia o repertório coletivo sobre o que é possível. E cada reação desproporcional a essa presença revela que a disputa nunca foi apenas sobre futebol ou sobre direito. Foi, e ainda é, sobre quem pode decidir, julgar, comandar e ser reconhecida como plenamente humana.

Se há algo verdadeiramente pedagógico nesses episódios é a evidência de que igualdade não é concessão; é construção. E que toda vez que uma mulher exerce autoridade com firmeza, o país é convidado a rever, ainda que à força, suas próprias estruturas.