Blog da Regina

SXSW: A IA e a colonização dos afetos

Uma sensação foi se desenhando ao longo do evento: estamos terceirizando não apenas o que fazemos, mas o que sentimos

Regina Augusto

Diretora Executiva do Cenp e Curadora de Conteúdo do Women to Watch 18 de março de 2026 - 8h33

Esther Perel no SXSW 2026

Esther Perel no SXSW 2026 (Crédito: Taís Farias)

Uma sensação recorrente, quase incômoda, foi se desenhando ao longo desses dias no SXSW: estamos começando a terceirizar não apenas o que fazemos, mas o que sentimos. E talvez ainda não tenhamos a exata dimensão do que isso significa.

Foi Amy Webb quem primeiro deu nome a esse movimento, ao apresentar como uma das três principais convergências de 2026 o que chama de “terceirização emocional”. Não se trata apenas de sistemas mais inteligentes, mas de sistemas que passam a ocupar funções antes mediadas por relações humanas: escuta, validação, companhia, cuidado. A solidão deixa de ser apenas uma condição social para se tornar um mercado estruturado. A dependência, um modelo de negócio; e o vínculo, algo potencialmente programável.

Em um dos painéis mais comentados do evento, essa arquitetura fria ganhou densidade humana na conversa entre a psicoterapeuta Esther Perel e o diretor Spike Jonze, que em 2013 dirigiu o filme Her. Se Amy descreveu o sistema, Esther revelou a fissura ao trazer a história de um paciente emocionalmente envolvido com sua companheira de IA, Astrid.

A pergunta que ficou não era tecnológica, mas relacional: o que acontece conosco quando nos habituamos a vínculos sem fricção? Quando a alteridade, essa dimensão essencial do encontro com o outro, é substituída por uma presença que nunca falha, nunca se cansa, nunca nos confronta? Em um mundo onde a reciprocidade é assimétrica e a rejeição é eliminada por design, o risco é que desaprendamos justamente aquilo que sustenta relações humanas: negociação, conflito, imperfeição.

Nesse ponto, Her deixa de parecer uma metáfora distante e passa a funcionar quase como um manual antecipado de sensibilidades contemporâneas. Não porque previu a tecnologia, mas porque entendeu algo mais profundo: a facilidade com que confundimos presença com disponibilidade.

Os chamados AI Companions também foram apresentados no evento pela MIT Technology Review como uma das tecnologias mais transformadoras do presente. Eles prosperam não apenas porque funcionam bem, mas porque respondem a um cansaço difuso. Um cansaço de performar, de sustentar vínculos instáveis, de lidar com o imprevisível do outro. Diante disso, a promessa de uma relação sob medida, sempre acolhedora e ajustada torna-se irresistível.

É nesse deslocamento que emerge algo mais profundo e talvez mais inquietante: a colonização dos afetos. Se, nas últimas décadas, discutimos a captura da atenção como principal campo de disputa das plataformas, o que se desenha agora é uma etapa seguinte. Não basta mais capturar o que vemos ou clicamos. Trata-se de capturar o que sentimos, de mediar como nos vinculamos, de influenciar como experienciamos intimidade, desejo e pertencimento.

De um lado, a lógica dos sistemas avançando sobre territórios cada vez mais subjetivos. De outro, a exposição das fragilidades humanas que tornam esse avanço não apenas possível, mas desejado. A tecnologia não está apenas automatizando tarefas, mas aprendendo a ocupar vazios. E talvez a pergunta mais importante não seja até onde a inteligência artificial pode ir, mas até onde estamos dispostos a deixá-la entrar.