35 anos de “Thelma & Louise”: quando a estrada virou espelho
Como o filme de Ridley Scott segue relevante ao discutir liberdade, escolha e representação feminina no cinema

(Crédito: Divulgação)
No início de 1991, eu tinha 20 anos. A vida ainda parecia um território a ser mapeado e foi exatamente isso que senti ao assistir “Thelma & Louise”, dirigido por Ridley Scotty. Não foi “apenas” um filme. Foi um deslocamento interno. Uma faísca. Um convite à coragem.
Ver duas mulheres, Susan Sarandon, como Louise, e Geena Davis, como Thelma, se encontrarem e, a partir desse encontro, partirem em busca da própria liberdade numa road trip, era uma inversão radical de papéis. A estrada, até então, era um território exclusivamente masculino no cinema. O volante, a decisão, o risco.
Aquela viagem pelo deserto não era um rota de fuga. Era a possibilidade de assumir as rédeas da própria vida, fazer e assumir as consequências das escolhas, atravessar limites impostos (externos e internos). Para mim, jovem mulher começando a construir sua trajetória, foi um espelho incômodo e libertador. Mostrava que a liberdade tem custo. E que pagar esse preço, muitas vezes, é mais honesto do que seguir em rotas pré-determinadas.
Trinta e cinco anos depois, muita coisa mudou na agenda do protagonismo feminino. Avançamos em direitos, narrativas, ocupação de espaços de poder. No meu próprio percurso, vi portas se abrirem, outras precisarem ser empurradas, e algumas serem construídas do zero. Aprendi que autonomia não é um destino, é um exercício diário. Que liberdade não é ausência de medo, mas a decisão de seguir apesar dele.
No cinema, porém, a estrada segue esburacada. Basta lembrar a ironia afiada de Natalie Portman ao apresentar, durante a última edição do Globo de Ouro, a lista de indicados, todos homens, na categoria de Melhor Direção. O riso, ali, era denúncia. Três décadas depois de “Thelma & Louise”, ainda contamos quantas mulheres chegam ao volante das grandes narrativas.
Talvez por isso o filme siga tão atual. Porque não romantiza a liberdade. Ele a complexifica. Mostra amizade como pacto, sororidade como abrigo, e escolha como ruptura. Mostra que, quando duas mulheres se reconhecem, algo irrecuperável acontece: elas deixam de pedir permissão.
Rever “Thelma & Louise” hoje é revisitar a jovem que eu fui e reconhecer a mulher que me tornei. É agradecer às histórias que nos antecederam e assumir a responsabilidade de ampliar as que virão. A estrada continua. E, apesar dos obstáculos, seguimos dirigindo, com mais consciência, mais alianças e a mesma fome de horizonte.
Porque algumas viagens não terminam nunca. Elas apenas mudam de paisagem.