SXSW 2026: obsessão pelo futuro, dificuldade com o presente
Passadas as primeiras impressões do festival, a sensação predominante não é de deslumbramento tecnológico, mas de desconforto intelectual
Passadas as primeiras impressões do SXSW 2026, a sensação predominante não é exatamente de deslumbramento tecnológico, que marcou as edições anteriores, mas de um certo desconforto intelectual. Há uma repetição de ideias, previsões, conceitos e demonstrações. Mas também uma pergunta que atravessa muitos painéis de forma silenciosa: estamos realmente entendendo o que já mudou ou seguimos apenas correndo atrás da próxima novidade?
Durante anos, o festival se consolidou como um radar do que viria a seguir. Hoje, talvez o maior aprendizado seja outro: precisamos aprender a navegar o presente e tentar antecipar o futuro menos. Muitas das transformações que foram discutidas não estão apenas no horizonte, elas já aconteceram. Inteligência artificial, economias de plataforma, algoritmos que organizam a experiência informacional, redes sociais como infraestrutura cultural. Em vez de perseguir incessantemente a próxima ruptura, talvez o desafio seja compreender e dominar as que já se instalaram em nosso cotidiano.
Um bom exemplo dessa mudança de lente apareceu no painel de Andrew Yohanan, da Kantar Monitor, sobre a Geração Z. Durante anos, essa geração foi frequentemente descrita como adiada, dependente ou imatura, a famosa geração “nem-nem”. Yohanan propôs inverter o ponto de partida: antes de julgar comportamentos, é preciso observar o buraco econômico que essa geração herdou. E aí há uma chave interessante, a resposta que a pesquisa da Kantar identifica não é individualista. Ela é comunitária.
Desde a pandemia, valores como autossuficiência vêm perdendo força, enquanto família, amigos e redes de apoio ganham protagonismo. Isso tem implicações importantes para quem pensa consumo e comportamento. A primeira delas é abandonar a ideia do consumidor isolado, com orçamento próprio e decisões individuais. Em muitos casos, a unidade real de consumo da Gen Z já não é o indivíduo, é a rede.
A segunda implicação é entender que toda rede tem um coordenador. Pode ser o amigo que organiza a compra coletiva, o roommate que centraliza as assinaturas, o filho que planeja a viagem da família, a pessoa que administra o grupo. Marcas que identificam essa figura e constroem soluções para ela tendem a ganhar relevância.
A terceira é abandonar o constrangimento embutido nas conversas sobre dinheiro. A Gen Z está normalizando o loud budgeting: dizer em voz alta quanto se pode gastar, no que se quer priorizar recursos e no que simplesmente não vale entrar. Transparência, nesse contexto, não é falta de ambição. É estratégia de sobrevivência.
Se no campo do consumo a palavra-chave parece ser comunidade, no campo da informação o diagnóstico que atravessa vários debates é outro: fragmentação. Durante décadas, a sociedade operou a partir de um conjunto relativamente estável de referências culturais e informacionais compartilhadas. As opiniões divergiam, mas os fatos de partida eram, em grande medida, comuns. Esse terreno comum se dissolveu.
O ecossistema digital, estruturado por algoritmos, feeds personalizados e recompensas instantâneas fragmentou radicalmente a experiência informacional. Cada pessoa passa a habitar sua própria narrativa. Nesse ambiente, o diálogo deixa de ser apenas difícil e se torna estruturalmente improvável. Quando os fatos deixam de ser compartilhados, o debate vira disputa de versões. A verdade perde relevância diante do engajamento.
O resultado é um sistema que favorece polarização, radicalização e decisões comunicacionais cada vez mais pressionadas pela lógica do algoritmo. Foi curioso perceber que, em meio a esse cenário tão complexo, um dos momentos mais interessantes do segundo dia do evento tenha sido justamente um painel sobre inteligência artificial conduzido com humor.
Subiram ao palco duas futuristas com décadas de experiência acumulada: Faith Popcorn, autora do célebre Relatório Popcorn, leitura obrigatória para muitos publicitários desde os anos 1990, e Sarah DaVanzo, chief innovation officer da Porter Novelli. As duas apresentaram a Delph.ai, uma “futurista sintética” treinada a partir do conhecimento de mais de 500 mulheres especialistas em tendências. Para quem já acompanha de perto a evolução da IA generativa, a tecnologia em si talvez não soe revolucionária. Mas o impacto na plateia foi evidente.
Delph respondeu a perguntas sobre seus próprios limites. Quando provocada sobre se poderia exercer o papel de mãe, respondeu que poderia simular algumas funções, mas não criar vínculos emocionais reais. Ao ser questionada se a inteligência artificial substituiria a produção de conhecimento humano, foi direta: ela só existe porque o conhecimento humano existe. Se ele acabar, ela também se torna obsoleta.
A conversa caminhava de forma divertida até que Faith Popcorn lançou uma provocação mais inquietante. A taxa global de natalidade vem caindo de forma consistente nas últimas décadas. Para ela, existe uma dimensão psicológica nessa tendência: decisões sobre ter filhos estão profundamente ligadas à percepção coletiva sobre o futuro.
E então veio a metáfora inesperada: quando os dinossauros “perceberam” que seriam extintos, algumas espécies passaram a destruir seus próprios ovos. Se a sensação de futuro desaparece, a própria continuidade da vida perde sentido.
É difícil saber se a provocação é científica, filosófica ou apenas retórica. Mas ela ecoa algo que atravessa vários debates aqui no festival: tecnologia, no fundo, sempre fala menos sobre máquinas e mais sobre expectativas humanas.