Meu balanço do SXSW
As reflexões de um evento que se propõe a ser um tradutor deste momento histórico espelham a realidade -- e ela não é bonita

(Crédito: GSPhotography/Shutterstock)
Já de volta a São Paulo, digerindo mais um SXSW, compartilho aqui algumas impressões. Gostaria que fossem mais “alto astral”. No entanto, nestes tempos de presente movediço em que vivemos, as reflexões de um evento que se propõe a ser um tradutor deste momento histórico espelham a realidade. E ela não é bonita.
Cansaço, repetição e a necessidade de ampliação de referências: Em ano de mudança logística e de nova gestão, o SXSW reproduz um cansaço que é reflexo da euforia que nós temos de buscar sempre a próxima onda. A delegação brasileira customa declarar que o evento é o maior festival de inovação do mundo, mas se esquece que é um festival norte-americano. Neste momento de reconfiguração geopolítica e mudança no eixo de poder global, é importante buscar referências para além do mundo ocidental.
Ênfase forçada no humano é reflexo de que a batalha está sendo perdida: Ficou evidente uma orientação da organização do SXSW para que os painelistas reforçassem que apesar do avanço da IA, o humano ainda será o grande diferencial. Tudo isso é lindo e música para os nossos ouvidos já bombardeados. Mas pareceu um pouco forçado, para não dizer desesperado. Ter as máquinas como interface, e até no comando, já é a próxima barreira. E, quando deixamos de ser protagonistas, operamos no modo sobrevivência.
Ansiedade epistêmica e soberania cognitiva: Ao falarem sobre como a tecnologia e os algoritmos modelam a nossa visão de mundo, Tara Palmeri, podcaster americana, e Imran Ahmed, do Centro de Combate ao Ódio Online (CCDH), trouxeram o conceito de “ansiedade epistêmica”: a incapacidade de discernir verdade de desinformação. Uma doença que assola especialmente as gerações mais jovens. Tristan Harris, de O Dilema das Redes, voltou SXSW para divulgar outro documentário, The AI Doc, e fez um alerta sobre a necessidade de se criar consciência compartilhada sobre os riscos reais da IA antes que seja tarde demais. Para ele, trata-se de olhar para a tecnologia com a maturidade que talvez tenha faltado quando ainda dava tempo de colocar limites mais firmes para as redes sociais.
Entre convergências e colisões: Amy Webb trocou o nome das tendências que costumava divulgar no seu tradicional relatório anual e as rebatizou de “convergências”. No entanto, a definição que deu para elas é bastante paradoxal: manteve o papel de apontar riscos, mas mudou a forma de organizá-los. Levou ao palco do SXSW um argumento de que o problema agora não está em cada tecnologia isolada, mas nas colisões entre elas.
Política nas curadorias terceirizadas: Alguns painéis trouxeram vozes críticas ao status quo norte-americano, da forma que se espera de um festival que nasceu, há 40 anos, com a contracultura – como o com governador da Califórnia, Gavin Newsom, ferrenho opositor de Donald Trump, levado pela Vox Media; e os do The Guardian: o primeiro com Mahmoud Khalil, um dos manifestantes pró-Palestina da Columbia University que foi preso em 2025 e luta contra um processo nas cortes de imigrição para não ser deportado; e o segundo sobre a decisão do estado do Texas de proibir educação sexual nas escolas, defender a abstinência até o casamento e colocar em vigor uma lei que impede a maior parte dos abortos após seis semanas — com três mulheres jovens discutindo os impactos dessa política. Vozes incômodas, mas necessárias.
Os paralelos entre 1929 e a corrida pela IA: Autor de 1929: Inside the Greatest Crash in Wall Street History, o editor do New York Times, Andrew Ross Sorkin, vê semelhanças entre o entusiasmo tecnológico dos anos 1920 e o boom atual da IA. A diferença é que hoje já convivem entusiasmo e medo sobre as consequências econômicas, enquanto naquela época, predominava a euforia. Ele sugere um descompasso entre as centenas de bilhões de dólares investidos em IA e o potencial de receita no curto prazo, e acredita que pode haver um momento em que “a conta não vai fechar”.
O antídoto para a mesmice do marketing: Quem vê o triunfo do posicionamento Priceless, da Mastercard, não imagina que, à época do lançamento, ainda no final da década de 1990, a campanha enfrentou rejeição nos pré-testes. “Os resultados de metodologias do tipo são gerados sob a ótica das respostas racionais dos indivíduos, sendo que muitas decisões de consumo são feitas a partir do subconsciente”, disse Raja Rajamannar, chief marketing e communications officer da Mastercard. “Marketing não é sobre lógica, é sobre mágica”. A correlação entre as previsões das pesquisas de marketing e o que, de fato, acontece, é de 30%, compartilhou.