Ed O’Brien e o processo da ressurreição espiritual-criativa
Prestes a lançar o disco solo Blue Morpho, guitarrista do Radiohead reflete sobre depressão, criação, natureza e sua relação com o Brasil

Ed O’Brien (Crédito: Steve Gullick)
Ao final da turnê de Ok, Computer, considerado por muitos o mais importante álbum da discografia do Radiohead, Ed O’Brien sentia-se perdido e muito sozinho.
Ele diz ter sido acometido pelo vazio típico que invade muitos dos que alcançam a fama e, supostamente, tudo o que vem a reboque disso: dinheiro, amor, fama e reconhecimento.

Ed O’Brien em Austin, no Texas (Crédito: Isabella Lessa)
Um dos elementos que o tirou do sentimento foi a música brasileira. “Me deparei com a beleza da música brasileira, com a ‘saudade’. Me deram um CD que tinha bossa nova, Tamba Trio, Jorge Ben”, relembra.
De 1997 para cá, a relação do guitarrista da banda britânica com o Brasil tornou-se ainda mais intensa. Além de passar a amar Os Mutantes, Caetano Veloso, Gilberto Gil, Joyce Moreno, Gal Costa e até artistas contemporâneos, como Rogê, O’Brien e sua família passaram uma temporada morando em uma fazenda em São Luiz do Paraitinga, interior de São Paulo. Depois, chegaram a morar na capital paulista, onde se afeiçoou à gastronomia de diversas partes do País.
Tanto é que Blue Morpho, faixa que dá nome ao seu segundo álbum solo, evoca a Mata Atlântica, conta. O trabalho, que será lançado no dia 22 de maio, é, de fato, resultado de sucessivas imersões na floresta, só que uma a quilômetros de distância do bioma tropical brasileiro: na casa de O’Brien no País de Gales – onde o entorno é repleto de montanhas, vales, rios e quantidades impressionantes árvores seculares adornadas por musgo.

Capa do disco Blue Morpho, de Ed O’Brien (Crédito: Divulgação)
“A natureza, para mim, é onde a beleza está. Estar com a fauna, a flora, os animais. Sou um garoto do interior e existe algo na terra de certos lugares do mundo em que a música reverbera e a natureza é muito dominante. Sinto isso no Brasil também: quando estou na Bahia, sinto a música reverberar na terra”, afirma O’Brien.
O flerte com as terras brasileiras também estão em Obrigado, faixa que encerra o disco. A letra da canção partiu da curiosidade do artista sobre experiências de quase-morte e a constatação de que, no momento de partida, ele gostaria simplesmente de agradecer. E a palavra obrigado, diz, carrega mais poder e beleza do que thank you.
Para conhecer a escuridão, é preciso adentrá-la
Produzido por Paul Epworth, que trabalhou com Paul McCartney e Adele, Blue Morpho é fruto da cura de uma depressão. Depois de lançar Earth, seu álbum de estreia, em 2020, O’Brien conta ter entrado num labirinto escuro, do qual não sabia como sair.
Encorajado por sua esposa, começou a meditar, sair para caminhadas diárias, tomar banhos gelados e, ao final de cada dia, passar horas a fio tocando guitarra. As quatro atividades aplacaram a escuridão na qual se encontrava, mas antes disso, o levaram ao encontro dela – para explicar esse processo, gosta de citar a frase “To know the dark, go dark” (Para conhecer a escuridão, vá para a escuridão, em tradução livre), do poeta Wendell Barry.
“Quando você entra na escuridão, é assustador no começo, certo? Depressão é algo muito assustador porque vem com todo tipo de sintoma, como não querer sair da cama, ter ansiedade social, você se sente terrível, pesado, tudo isso. Mas o corpo tem uma inteligência, não está fazendo isso de maneira randômica. O corpo está dizendo: ‘Você precisa se curar. E precisa ouvir isso'”, compartilha.
Quando emergiu da escuridão e começou a compor as músicas do disco – e a resgatar algum material que havia ficado de fora do primeiro trabalho – O’Brien começou a ter uma série de encontros com o acaso, que foram dando vida a Blue Morpho. Ele conheceu Epworth, o produtor, na escolha de um de seus filhos, o que levou a sessões com o engenheiro Riley MacIntyre.
Depois de conversas sobre frequência e ressonância natural, Shabaka Hutchings contribuiu tocando flauta, enquanto a admiração por Arvo Pärt, compartilhada com o compositor Tönu Körvits, levou aos arranjos de cordas executados pela Tallinn Chamber Orchestra.
O disco foi concluído no estúdio de O’Brien no País de Gales e no The Church Studios, em Londres. Flood realizou ajustes finais e Ben Baptie fez a mixagem.
De volta à jornada pela escuridão, O’Brien quis realmente trazer o assunto à tona por acreditar que a depressão é parte da experiência humana e, portanto, um tema que deve ser abordado sem constrangimentos.

Igreja Presbiteriana de Austin (Crédito: Isabella Lessa)
No South by Southwest, ele apresentou o curta-metragem Blue Morpho: The Three Act Play, que traz o público mais para perto do processo do artista (veja o trailer aqui). A exibição aconteceu na Igreja Presbiteriana de Austin, no Texas. “Quando você se cura, torna-se inteiro, encontra a paz. Quando encontra a paz, consegue aproveitar tudo”, diz ele, na entrevista que você lê a seguir:
Meio & Mensagem – Você disse que o País de Gales foi um lugar importante para que a criação de Blue Morpho acontecesse. O que há de especial nesse lugar em particular?
Ed O’ Brien – Na minha cabeça, a faixa Blue Morpho acontece na Mata Atlântica. A natureza, para mim, é onde a beleza está. Estar na natureza, com a fauna, a flora, os animais. Sou um garoto do interior. Cresci no campo. Para mim, o País de Gales é uma terra muito, muito antiga. Existe algo na terra desses lugares que soa como música. Sinto isso no Brasil: quando estou na Bahia, sinto a música reverberar na terra. Você pode sentir os ritmos. Sou sensível a essas coisas. Há certos lugares no mundo aos quais você vai nos quais a natureza é muito dominante. Quando pensamos em como tudo cresce tão rápido, isso nos informa que, como seres humanos, somos parte da natureza. O problema é que a maioria de nós mora em cidades, estamos meio desconectados. Mas, à medida que envelheço, estou me conectando mais e mais ao fato de estar no mundo natural e meu instinto é que, quando me sinto perdido, confuso ou sinto que estou perdendo meu eixo, vou para o campo. Ando, fico parado, não olho para meu telefone.
M&M – A tecnologia afetou seu processo criativo de alguma forma?
O’Brien – O lugar sombrio no qual entrei não foi por causa da tecnologia, foi por coisas que não tinha processado. Coisas que me aconteceram e não tinha descoberto como atravessá-las. Eu meio que as joguei de lado e fugi. Mas não há dúvida de que é super importante, neste mundo moderno, ser vigilante sobre quantas vezes você olha para o seu celular. Não acho que esse tanto de tecnologia seja boa para nós, tampouco o fato de as pessoas passarem tanto tempo em seus celulares o tempo todo. Os celulares são muito viciantes, certo? E são incríveis, mas é preciso usá-los com sabedoria e o que estou tentando fazer é chegar a um estágio em que olho o celular de manhã, para mandar e-mails, mensagens e então deixá-lo de lado. Mas fazer isso constantemente durante o dia é loucura. Eles deveriam tornar a vida mais fácil, não? Mas deixaram-na mais complexa e alteram nosso humor, nossa energia. Não foi a causa, mas estou ciente do impacto do celular sobre a forma como me sinto.
M&M – Você citou a frase “To know the dark, go dark”. Como foi adentrar a escuridão para você?
O’Brien – Bom, para mim foi como – quando você entra na escuridão, é assustador no começo, certo? A depressão é algo muito assustador porque vem com todo tipo de sintoma, como não querer sair da cama, ter ansiedade social, você se sente terrível, pesado, tudo isso. Mas o corpo tem uma inteligência, não está fazendo isso de maneira randômica. O corpo está dizendo: “Você precisa se curar. E precisa ouvir isso”. Dizem que depressão é sobre o que aconteceu no passado, ansiedade é se preocupar com o futuro. Então, não tenho ansiedade. Não me preocupo com o futuro, mas tive essa depressão, que foi basicamente coisas minhas do passado que não foram resolvidas, que não processei. E meu corpo disse que tinha que lidar com isso. Minha analogia é a seguinte: parecia que fui colocado num tipo de labirinto escuro. E como saio daqui? Não sei. Não queria tomar medicamento, queria me curar. Queria confiar no meu corpo para que me curasse. Meu instinto foi que a meditação, a prática espiritual, a água fria, tocar guitarra todo dia, andar na natureza. Essas quatro coisas e um livro lindo de Eckhart Tolle chamado The New Earth, me ajudaram a superar. E a razão pela qual falo sobre isso é porque muitos de nós passam por isso. É uma experiência humana. Todos sofremos às vezes, certo? Eu sou tão feliz por ter passado por esse período porque eu tinha que me curar. Quando você se cura, torna-se inteiro, encontra paz. Quando encontra paz, consegue aproveitar tudo. Sentir. Ouvir os pássaros cantarem. Sentir a luz do sol no seu rosto.
M&M – Você também se sente criativo quando está contente?
O’Brien – Algumas pessoas dizem que só é possível criar quando se está numa turbulência, quando se está infeliz. Não acho que seja verdade. Para mim, sinto que, com frequência, o que você cria vem de um lugar emocional, mas é preciso ter alguma estabilidade. Para mim, a paz é um lugar muito criativo.
M&M – Você disse que Thom Yorke (vocalista do Radiohead) te ensinou que, para criar, é preciso ser um bom bibliotecário. O que isso significa?
O’Brien – Essa foi uma das muitas coisas que ele me ensinou: você precisa ser um bom bibliotecário. Ele é um compositor de músicas brilhante e há um craft, uma disciplina nisso. Ele apontou para mim que há coisas que funcionam e vêm à tona, mas não são apropriadas para o momento, mas podem vir a ser dez anos depois. Você não quer perdê-las. Portanto, um bom bibliotecário consegue revisar o material, encontrá-lo, acessá-lo. E acho isso tão verdadeiro.
M&M – Esse ensinamento mudou seu jeito de criar?
O’Brien – Não mudou, mas acrescentou, porque eu estava no caminho de criar um processo criativo. E o que ele fez foi apenas dizer como eu poderia me manter criativo. É algo de craft. É um bom conselho. Um professor faria isso, sabe? Foi ótimo, um conselho bonito.
M&M – No que estava pensando quando escreveu a música Obrigado?
O’Brien – Eu só tinha a parte do verso escrita e senti um som muito brasileiro, ding ding ding. Quis que tivesse um sabor brasileiro. Parece que sempre escrevo cartas de amor para a Terra, mas também para o Brasil. Fiz as faixas Brazil, Santa Teresa (do álbum Earth), porque é um lugar tão importante, um país tão importante. Com Obrigado, bem, eu fiquei um pouco obcecado com o momento em que nosso corpo para de funcionar. Li muito sobre experiências de quase-morte. A ideia de que a alma sai do corpo. Realmente acredito em reencarnação e que vivemos muitas vidas. Ficava pensando: Como será quando eu morrer? Como vou me sentir? Vou me sentir grato. Haverá muita gratidão pelas pessoas que conheci, que foram gentis, mas também as que me desafiaram. E um grande obrigado à Gaia, o planeta que vivemos. Porque ela é tão bonita, é um presente poder olhar para essas árvores, esses animais. É um milagre. A música tomou forma rapidamente com Paul e obrigado foi a palavra perfeita. É mais legal, poderoso dizer obrigado do que thank you.
M&M – Tem algum álbum brasileiro favorito?
O’Brien – Não sou bom com nomes de álbuns, mas amo os discos do Jorge Ben dos anos 60. E também os dos anos 70, com todo o lance da África. Amo os Mutantes, obviamente Caetano Veloso é incrível, Gilberto Gil. Outra que amei foi Joyce Moreno. Gal Costa. Não tenho um conhecimento profundo de música brasileira, mas as coisas que amo, simplesmente amo demais. Faz eu me sentir muito emotivo, amo a música brasileira sob todos os aspectos. Amo o Brasil.
M&M – Tem planos de fazer shows no Brasil?
O’Brien – Adoraria tocar no Brasil, estou tendo conversas para que isso aconteça. Fazer uma turnê de três semanas com a minha banda e, no final, ir num estúdio e passar dois dias lá gravando.