CONSUMO

Por que o setor eletro é mais afetado pela crise no varejo?

Em quatro meses, Grupo Toky, Lojas Marabraz e Grupo Casas Bahia protocolaram pedidos de recuperação judicial

i 27 de agosto de 2026 - 6h10

Em meio à sequência de pedidos de recuperação judicial apresentados nos últimos meses, um segmento se destaca: o de móveis e eletrodomésticos. Em quatro meses, Grupo Toky, dono das varejistas de móveis Tok&Stok e Mobly, Lojas Marabraz e Grupo Casas Bahia entraram na justiça com pedidos para reorganizar suas dívidas que, somadas, chegam a mais de R$ 18 bilhões.

Casal avalia máquinas de lavar e secar em loja de eletrodomésticos, homem tocando um aparelho.

Ticket médio alto e depência de crédito tornam o setor mais vulnerável (Crédito: Serhii-stock.adobe.com)

Em seus pedidos, as companhias citam uma combinação de fatores econômicos, com a alta da taxa de juros e o endividamento das famílias, que pressiona todo o varejo, mas é especialmente prejudicial para o modelo de negócio das redes de móveis e eletrodomésticos.

Isso porque o ticket médio e a dependência de crédito no setor são altas. Professora na FGV e cofundadora do Wakaro, Vera Bermudo explica: “Fogão, geladeira, TV, smartphones e sofá, por exemplo, raramente cabem no orçamento sem parcelamento. Com uma taxa de juros do crédito livre para pessoas físicas de 64% ao ano, em junho de 2026, o consumidor não apenas reduz o apetite. Ele simplesmente não consegue mais bancar as parcelas”.

Esse cenário encontra, em muitos casos, um modelo de crescimento dependente de juros baixos e desafios internos de gestão, disputa societária e disciplina financeira. É no ponto da gestão que as empresas, mesmo atuando em um mesmo segmento, se diferenciam ao atravessar esse momento.

Imunidade à crise

Fernando Faro, fundador e diretor da Varejo 360, defende que cada empresa que atua no segmento varejista de eletrônicos e eletrodomésticos está em um estágio diferente de atuação no e-commerce que avança em participação ano a ano.

“As empresas que investiram mais precocemente neste canal e que têm uma participação das vendas digitais proporcionalmente maior, têm demonstrado mais resiliência para enfrentar a conjuntura econômica atual”, aponta o executivo.

Outra vantagem competitiva seria uma operação logística eficiente já que o consumidor tem se tornado, cada vez mais, exigente em relação aos prazos de entrega. “Entregas rápidas podem ser um fator decisivo para a escolha do varejista e fica evidente que neste aspecto as empresas também estão em estágios diferentes”, pontua Faro.

Setores mais e menos afetados

Para os analistas, a lógica que explica a vulnerabilidade do varejo eletro serve como régua para as demais categorias. “Quanto maior o ticket médio, maior a dependência de crédito e a exposição ao ciclo de juros e a isso adicionamos o endividamento e a inadimplência das famílias como agravantes”, descreve Bermudo.

Nesse sentido, além do eletro, setores como material de construção e acabamentos, veículos e decoração também estariam vulneráveis por compartilhar o perfil de ticket elevado e venda dependente de parcelamento.

O movimento inverso também é válido. “Os setores mais resilientes são os que atendem necessidades não adiáveis, como o varejo alimentar, farmácias, serviços de saúde essenciais e combustíveis. Nesses segmentos, o volume não cai de forma abrupta porque a compra é, em grande medida, compulsória”, explica a professora da FGV.

Uma exceção a essa regra seria o varejo de luxo, uma vez que o seu consumidor médio não depende de crédito para consumir e possui renda menos sensível às variações econômicas. “Em contextos de maior concentração de renda, padrão que tende a se acentuar em crises, o luxo historicamente mantém ou expande desempenho enquanto o varejo popular retrai”, resume Bermudo.