GSMA lança iniciativa que acelera IA para telecomunicações
Entidade e líderes do setor destacam a colaboração internacional e confiança global como essenciais

Vivek Badrinath, diretor-geral da GSMA (Crédito: Reprodução)
A GSMA, entidade que organiza o Mobile World Congress (MWC) anunciou o lançamento da Open Telco AI, iniciativa global criada para acelerar a IA de telecomunicações por meio da colaboração aberta entre operadoras, fornecedores, desenvolvedores de IA e instituições acadêmicas.
A indústria de telecomunicações passa por uma fase de transformações sem precedentes, impulsionada, principalmente, pela conectividade via satélite e pela inteligência artificial (IA).
“Existem quase 9 bilhões de conexões e nosso setor conecta 5,8 bilhões de pessoas, 70% da população mundial. No ano passado, contribuímos com US$ 7,6 trilhões para a economia, o equivalente a 6,4% do PIB global”, revelou Vivek Badrinath, diretor-geral da GSMA.
Dessa forma, o setor deve continuar a crescer e ultrapassar US$ 11 trilhões até 2030, segundo Badrinath.
Durante o primeiro dia do MWC, o diretor e outros líderes do setor indicaram que, apesar de todo o progresso desde a primeira chamada telefônica, realizada por Alexander Graham Bell há 150 anos, o futuro sustentável está sujeito a duas condições: colaboração internacional e a construção de um ambiente confiável para os usuários.
Rumo ao futuro da conectividade, Margherita Della Valle, CEO da Vodafone Group, concorda que operadoras, fabricantes e reguladores precisam unir forças e trabalhar juntos, como quando lançaram cabos submarinos, estações-base e redes.
Badrinath salientou que o objetivo é que, com acesso aberto a mais capacidade de processamento, os modelos possam ser treinados para as necessidades do setor e “para que possamos medir o progresso por meio do que chamamos de Telco Capability Index, construindo assim uma comunidade para aprimorar a IA para telecomunicações”, destacou.
Para o diretor-geral da GSMA, o futuro da conectividade exigirá que a indústria se una, principalmente, para superar três desafios gigantescos: concluir a jornada do 5G, enfrentar o desafio da IA e segurança cibernética.
GSMA e parcerias extraterrestres
Um bom exemplo para ilustrar o que pode ser alcançado por meio das parcerias é a Estação Espacial Internacional.
Tim Peake, astronauta da agência espacial europeia britânica, disse que o projeto envolve cinco agências espaciais e 15 países.
Além disso, após 27 anos de sua criação, a estação espacial conta com 43 módulos interligados e já recebeu mais de 300 astronautas de 26 países.
“Nenhuma dessas nações teria conseguido realizar isso isoladamente. Trabalhando juntas, criaram a escala necessária para enfrentar um desafio dessa magnitude. O projeto sempre teve um propósito claro, que se manteve firme apesar das mudanças geopolíticas e macroeconômicas”, comentou Peake.
Contudo, há dois desafios em transpor as fronteiras do espaço quando se trata de conectividade via satélite.
A primeira, segundo Margherita, é enfrentar justamente tensões geopolíticas e a falta de coordenação entre as nações sobre como lidar com um espaço sem fronteiras. “Isso exige coordenação e cooperação entre nações”, comentou.
A segunda é a falta de regulamentações. “O que precisamos, acima de tudo, são regras claras de segurança e proteção para as comunicações via satélite, garantindo que os clientes estejam protegidos e que operadoras individuais não assumam riscos excessivos que possam comprometer a confiança de todo o setor”, complementou a executiva.
“Precisamos evitar um ‘velho oeste’ no céu que desorganize a Terra, em vez de enriquecê-la”.
IA como camada operacional
No contexto no qual o espaço de se torna a nova infraestrutura física, a IA se transforma na camada operacional dessa nova fronteira da conectividade.
Nesse cenário, o CEO da Orange, Christel Heydemann, destacou que saber em quem confiar se torna uma tarefa difícil em meio a violações de dados e deepfakes diárias.
Ainda, a ascensão da IA também serviu para impulsionar os ataques criminosos.
Sunil Bharti Mittal, fundador e chairman da Bharti Enterprises, alertou que US$ 480 bilhões são perdidos em todo o mundo por links fraudulentos, fraudes digitais e spams.
Assim, na visão do executivo, se nada for feito para mudar esse cenário, as pessoas perderão a confiança em todo o ecossistema.
Entretanto, ressaltou que o setor de telecomunicações não pode agir sozinho.
As big techs, dessa forma, devem ser integradas nessa regulamentação.
“Faço um apelo a todas, seja WhatsApp ou outras plataformas de mensagens, para colaborar e fazer parte dessa regulação”, comentou.
Mittal propôs, inclusive, a criação de uma estrutura institucional global de regulamentação, semelhante à ONU ou à Interpol.
Governança e inclusão
Portanto, para Christel, as teles devem assumir papel histórico como “arquitetas de um ambiente de confiança”.
“Na era da IA, a própria confiança se torna infraestrutura, e as operadoras têm um objetivo único na construção, operação e governança dessa infraestrutura”, argumentou.
Christel também enfatizou a necessidade de investimento e de regulamentação europeia que acompanhe a sua ambição tecnológica, afirmando que a competitividade do continente dependerá da capacidade de simplificar regras, harmonizar frameworks entre países e criar condições sustentáveis de investimento.
Assim, além da segurança e governança, outro desafio para a conectividade é a inclusão digital.
Exemplo disso é a crescente lacuna linguística na IA generativa.
Badrinath ressaltou que, como a maioria modelos de IA é treinada em apenas alguns idiomas, bilhões de pessoas no mundo podem ser excluídas das oportunidades geradas por essa tecnologia.
Para tentar mitigar essa barreira linguística, a GSMA lançou, nesta segunda-feira, 2, o primeiro modelo de raciocínio aberto em suaíli, língua mais falada no continente africano, com cerca de 150 milhões de falantes na África Oriental e Central.