Opinião MWC

IA é o novo core das telcos

A edição deste ano deve consolidar a IA não apenas como uma ferramenta, mas como a própria arquitetura que redefinirá o setor

Lucas Frenay

Diretor executivo e sócio do Boston Consulting Group (BCG) 27 de fevereiro de 2026 - 16h37

À medida que o Mobile World Congress 2026 (MWC) se aproxima, o cenário global da inovação tecnológica ressoa com uma pergunta central: como as empresas de telecomunicações (telcos) podem realmente transformar a disrupção da Inteligência Artificial (IA) em um motor de crescimento robusto e sustentável? Se o MWC 2025 já apontava para a integração e a espinha dorsal da conectividade, a edição deste ano deve consolidar a IA não apenas como uma ferramenta, mas como a própria arquitetura que redefinirá o setor.

Um estudo recente do Boston Consulting Group (BCG), intitulado “Turning AI Disruption into Telcos’ Growth Engine“, enfatiza isso, mostrando que, embora o papel das telcos permaneça indispensável, o crescimento nas redes fixas e móvel tradicionais estagnou, com o valor migrando para plataformas digitais e camadas de inteligência. Nos últimos cinco anos, o setor tem ficado atrás de quase todos os outros setores de tecnologia em crescimento de receita e retorno total para o acionista.

Ou seja, a oportunidade é clara e não fazer nada não é uma opção. Por isso, destaco aqui quatro pilares para ajudar as telcos a destravar a próxima onda de crescimento e conquistar relevância estratégica:

1. Telco Core AI-First. Esta é uma profunda reformulação do funcionamento interno da telco, redefinindo como as redes operam, como os clientes são atendidos e como as decisões são tomadas. A IA está rapidamente se tornando o sistema de controle da moderna rede de telecomunicações, com operadores líderes implantando sistemas autônomos capazes de otimizar o tráfego, prever falhas e gerenciar o uso de energia em tempo real. O estudo destaca que telcos que adotam esta estratégia podem obter ganhos de EBITDA de 5 a 15 pontos percentuais, com resultados significativos em 12 a 18 meses. É o fundamento não negociável para gerar nova capacidade de reinvestimento.

2. Monetização de IA no B2C. A incorporação acelerada de inteligência artificial em dispositivos e serviços digitais está redefinindo a experiência do consumidor e criando novas frentes de monetização para as telcos. À medida que assistentes inteligentes passam a mediar interações, recomendações e decisões de consumo, a relação com o cliente deixa de ser centrada apenas em conectividade e passa a envolver experiências digitais personalizadas e contextuais. Para as operadoras, isso abre espaço para integrar IA na jornada ponta a ponta – desde atendimento proativo e ofertas dinâmicas até serviços digitais embarcados – fortalecendo engajamento e relevância no dia a dia do usuário. Quando bem executada, essa estratégia impulsiona aumento de ARPU (receita média por usuário), redução de churn e maior satisfação, posicionando a telco como um orquestrador inteligente da experiência digital do consumidor.

3. Convergência com IA. A demanda empresarial por serviços de telco está mudando de conectividade bruta para soluções seguras, orientadas a dados e habilitadas para IA. Este caminho reimagina os operadores de telco como parceiros digitais de ponta a ponta. Com os gastos globais empresariais com IA projetados para ultrapassar US$ 400 bilhões até 2027, as telcos podem oferecer um portfólio de alto valor, incluindo conectividade otimizada por IA, soluções específicas para a indústria (como manutenção preditiva ou automação de rede inteligente), serviços de integração de nuvem e borda, e IA de cibersegurança e conformidade. Essas ofertas criam receitas recorrentes tipo SaaS com margens mais altas.

4. Parceiro de Infraestrutura de IA. À medida que governos em mais de 40 países buscam ambientes seguros e compatíveis para cargas de trabalho de IA, as telcos estão unicamente posicionadas para entregar essa visão. Elas já gerenciam infraestrutura nacional crítica, operam sob rigorosos regimes de privacidade de dados e mantêm conectividade de nível de operadora. Além disso, podem entregar uma infraestrutura de IA soberana, incluindo data centers prontos para IA, plataformas GPUaaS e hubs de computação de borda.

Essas estratégias não são mutuamente exclusivas e formam um roteiro integrado de defesa e crescimento. A Telco Core AI-First é a fundação não negociável, enquanto as outras dependem de ambição, ativos e maturidade técnica. Para cada uma delas, é preciso atrair e reter talento de IA, posicionando a empresa como empregadora de tecnologia e fomentando uma cultura AI-first.

A próxima fase de criação de valor das telcos não será vencida por mudanças incrementais, mas por meio da execução bem planejada e disciplinada. Telcos que se moverem primeiro, reestruturando operações, cultura e tecnologia em torno da inteligência, ditarão o ritmo da indústria.

Até 2030, as telcos líderes não serão mais definidas apenas por suas redes, mas por seu papel como orquestradores de inteligência em conectividade, dados e nuvem. Aqueles que agirem agora não apenas participarão da economia da IA, eles a definirão.