A estratégia sonora como ativo de negócios
Quando a solução sonora resolve uma dor de forma brilhante, ela gera um ativo extra: narrativa
Vamos começar desfazendo um mito? O Audio Branding não nasceu com a Intel nos anos 90, nem com o rádio na década de 1920. Marcas usam o som para gerar reconhecimento e vínculo emocional há gerações. O que mudou com o tempo foi a formalização deste campo de conhecimento para sistematizar essa prática de forma estratégica.
Existe uma diferença crucial entre uma marca simplesmente usar som e pensar a sonoridade como parte estrutural da sua identidade. O maior erro do mercado é reduzir essa disciplina ao Sonic Logo — aquelas poucas notas no encerramento de um comercial. A assinatura sonora é importante, mas é apenas a ponta do iceberg. A verdadeira identidade de áudio engloba a voz da marca, composições autorais, Sound Design, sons de interface (UI/UX), experiências imersivas, ambientes físicos e curadoria musical.
Por isso, o ponto de partida nunca deve ser o ativo isolado, mas a necessidade estratégica: do que essa marca realmente precisa e como a arquitetura sonora pode resolver essa dor?
Dois exemplos práticos ilustram como o som resolve desafios reais de negócio. O primeiro vem do Brasil, em 1971, com o “Plim-Plim” da Rede Globo. A solução nasceu de uma exigência operacional identificada por Boni: um recurso de Sound Design para alertar o telespectador que estava longe da tela sobre as transições de bloco. O que começou como um aviso funcional de engenharia virou memória afetiva, identidade e patrimônio cultural.
Mais tarde, em 1994, a Intel enfrentou um desafio de branding: sinalizar que seu componente tecnológico estava presente dentro de computadores de terceiros. A solução visual “Intel Inside” abriu o caminho, mas foi a camada sonora criada por Walter Werzowa que consolidou essa presença de marca na memória do consumidor global.
Mais do que marcos teóricos ou datas de criação — como o livro Audio Branding, de Kai Bronner e Rainer Hirt (2009) —, o que realmente importa é a capacidade do som de resolver um problema através da autenticidade. Em tempos de Inteligência Artificial e automação, a criação de uma sonoridade única representa o craft humano no seu sentido mais profundo.
Essa busca transformou a dinâmica no nosso estúdio. Deixamos de olhar para instrumentos musicais como antes olhávamos e passamos a enxergá-los como possibilidades sonoras. Todo projeto funciona como um laboratório onde a premissa é construir soluções sob medida a partir de qualquer sonoridade que faça sentido para a dor da marca.
Quando a solução sonora resolve uma dor de forma brilhante, ela gera um ativo extra: narrativa.
Não à toa, a história de como o “Tu-dum” da Netflix nasceu do som de uma aliança batendo em uma porta de madeira ainda atrai a atenção de matérias e palestras pelo mundo. A história fascinante viaja porque a solução funcionou. E, ao despertar a curiosidade das pessoas, o Audio Branding cumpre seu papel máximo: gera mídia espontânea e conexão real. No fim do dia, o que define o sucesso da marca não é a teoria aplicada, mas a capacidade de criar conversas humanas através do som.