Rebeldes com causa — quando fazer a coisa certa dá trabalho
Estamos todos exaustos gerenciando múltiplas tarefas ao mesmo tempo. E, sem perceber, de preguiça em preguiça, nossa eficiência diminui, assim como nosso brilho e nossas conquistas
Recentemente li um artigo que me chamou a atenção: “Como os melhores líderes respondem à quebra de regras”, de Michael J. Gill.
A ideia central do artigo é que a resposta a uma quebra de regra pode fazer a diferença na resolução de problemas futuros, e não necessariamente apenas uma punição.
Quem me conhece já me ouviu dizer: “existem regras que foram feitas para serem seguidas e outras que precisam ser questionadas”. Para não deixar dúvidas: integridade, honestidade e comportamentos sociais estão entre aquelas que nunca devem ser quebradas. Respeitar os outros (a maneira como você fala, age, conduz reuniões) e tratar o dinheiro da empresa como ele deve ser tratado (com integridade e altos níveis de responsabilidade) são apenas alguns exemplos em que não deve haver dúvida ou flexibilidade.
Mas, e há um “mas” enorme, existem regras que estão pedindo, eu diria implorando, para serem questionadas. Se você não concorda, reflita sobre o seguinte exemplo: um funcionário foi chamado ao RH por direção perigosa com o carro da empresa. O problema? Uma multa de trânsito por avançar o sinal vermelho à noite. Para quem mora ou trabalha em bairros com alto índice de assalto, não existe dúvida: à noite, em uma rua pouco iluminada e isolada, ele fez o que muitas pessoas fariam por segurança própria, e não por desrespeito à lei. Esse é um ato que deve ser punido? Na minha visão, a resposta é claramente não. Conversar e combinar outras opções que preservam a segurança pessoal do empregado deve ser o objetivo do RH e do funcionário.
Outro exemplo, dessa vez pessoal. Há alguns anos, uma compra de menos de US$ 100 (flores para um funeral) foi questionada durante uma auditoria porque deveria ter sido aprovada previamente pelo CEO. Essa pré-aprovação era uma informação nova para mim, e que, sem nenhuma explicação ou contexto, não me fazia sentido, considerando as responsabilidades de um CEO e os valores envolvidos. Quando questionei o auditor, ele mesmo concordou que a regra parecia antiga e sem sentido. Conversando, encontramos uma solução que esclarecia qualquer dúvida contábil (nota fiscal, e-mail de confirmação de recebimento etc.) e com isso a assinatura adicional do CEO não foi mais necessária. Essa foi uma situação pequena, mas que exigiu algo que nenhuma regra consegue prever completamente: discernimento, diálogo e jogo de cintura. Para mim, isso também é liderança: entender o propósito das regras e saber encontrar soluções quando a realidade não cabe perfeitamente no que foi previsto.
Nos dois casos, questionar a aplicação da regra não foi uma reação impulsiva ou inconsequente. Foi uma decisão baseada no contexto e no bom senso, buscando uma solução mais adequada e eficiente para o negócio.
Mas preciso confessar que até para quebrar regras e desafiar o status quo é preciso ter energia e disposição. Muitas vezes, vejo que, mesmo discordando, líderes seguem com o barco, pensando “que preguiça”.
O problema é que a preguiça de um impacta a produtividade do outro. Estamos todos exaustos gerenciando múltiplas tarefas ao mesmo tempo. E, sem perceber, de preguiça em preguiça, nossa eficiência diminui, assim como nosso brilho e nossas conquistas.
Mas, voltando ao artigo, o único ponto de que senti falta foi de um facilitador crítico para que essas perguntas e respostas sinceras aconteçam: segurança psicológica, com uma alta dose de coragem.
Em um mundo em que tantas pessoas ainda têm medo de perder o emprego por questionar a forma como as coisas são feitas, criar um ambiente em que elas se sintam seguras para falar e desafiar velhas práticas pode levar uma empresa e sua cultura muito mais longe. Isso não significa abrir mão das regras ou da disciplina que fazem sentido para o negócio e estão alinhadas com os valores e a cultura de uma companhia e de seus líderes. Pelo contrário: ajuda a reforçar aquelas que realmente importam para a boa governança, ao mesmo tempo em que abre espaço para pessoas dispostas a questionar, de forma construtiva, o que pode evoluir e ser melhorado.