Opinião

Chove lá fora e eu tenho mais você — pelo celular

Como a música continua sendo uma ferramenta de identidade e pertencimento

Carla Silva

Diretora de planejamento na Noize 9 de outubro de 2026 - 6h00

Basta dar um scroll para acompanhar a movimentação de estilos pela segunda tela: música, moda e comportamento disputando espaço na mesma timeline. Artistas, influenciadores, revistas de moda e portais de notícias entram nessa disputa por atenção, com análises de looks e tendências que nascem, bombam e saturam em questão de semanas. Chego à conclusão de que não tem jeito: mesmo nesse ritmo acelerado de feed, a moda continua sendo uma ferramenta de identidade e pertencimento para quem a vive — no palco, na tela ou nas ruas.

Sempre me impressiono com a capacidade que a moda tem de retroalimentar nossa criatividade e expandir nossas possibilidades de expressão, quase como vocalizes em uma música quando esgotamos as palavras. Resumir a relação entre essas duas pontas criativas à maneira como o algoritmo tem ditado as regras da experimentação seria reduzir a nossa própria vontade de ver e ser visto, de dançar na pista. Se hoje o algoritmo consegue individualizar cada vez mais a nossa experiência musical, por que continuamos precisando da experiência coletiva?

Música e moda nunca deixaram de ser primas, e poucos exemplos traduzem isso tão bem quanto Erykah Badu. Com seu estilo sempre contemporâneo e suas criações personalizadas, ela talvez seja um dos exemplos mais evidentes de como a autenticidade de uma artista pode atravessar eras, capas, videoclipes, performances e fãs por anos. Quando é mesmo quem se é, a assinatura sobrevive ao tempo.

Li recentemente, no Mano a Mano, de Mano Brown, a entrevista de Dom Filó. Em certo momento do papo, eles conversam sobre os rituais do Movimento Black Rio dos anos 1970 e, pela vivência de Filó, entramos numa viagem passado-presente.

Visualizamos os almoços de domingo na casa da matriarca, com a vitrola, a coletânea da Imperial e os discos livres para a garotada conhecer. As calças boca de sino, já abaixo do umbigo, os cintos e outras referências do rock na construção do estilo da época. Os cortes de cabelo que chegavam pelas revistas. E como, nas palavras de Brown, o verdadeiro “status” e estilo dos homens negros na periferia paulistana não vinham do dinheiro, mas da postura, da elegância das roupas e, principalmente, do domínio dos passos de dança nos salões.

Na minha vivência, escuto além de um relato: vejo minha própria família e o impacto da música na personalidade e estilo de todos. A garotada, agora, somos nós. Em casa, em cada look pensado para o feed e para a socialzinha de hoje, construímos

a nossa maneira de criar pertencimento. Os códigos mudaram, mas a vontade de encontrar os nossos continua ali. O desafio, ao meu ver, é não deixar nossa identidade caber inteira nessa dança de 15 segundos. Às vezes, até menos.

Quando a performance em tela vem antes da experiência, a curiosidade pode ficar pelo caminho. E, sem curiosidade, a descoberta também perde espaço. É justamente por isso que a experiência coletiva continua nos atraindo: descobrir uma música também pode ser descobrir uma pista, uma festa, uma roupa, uma pessoa, uma cena. Pode ser reconhecer algo em alguém antes mesmo de saber explicar por quê.

Por mais que os tempos pareçam antagônicos, não estamos vivendo uma ruptura. Estamos vivendo uma mudança de linguagem. Uma linguagem mais veloz, mais efêmera e, ainda assim, atravessada por uma vontade enorme de pertencimento, de ficar mais um pouco.

O Clube de Leitura do Rap, projeto que transforma letras de música em matéria-prima para um encontro de leitura e discussão, é um exemplo concreto de que queremos ir além do digital. Em vez de acelerar a descoberta, o clube faz quase o contrário: imprime as letras, desacelera a escuta e reúne público e artistas para olhar de perto para palavras, referências, contextos e diferentes interpretações.

O vinil, aliás, não sumiu — voltou como símbolo dessa mesma vontade de desacelerar. Não dá para ouvir um disco de vinil no talo, entre uma notificação e outra, porque ele pede que alguém se sente, vire o lado, leia o encarte. E é curioso ver como esse movimento também ganhou corpo justamente nas cenas independentes brasileiras, com selos pequenos, como Amor in Sound e Taioba Discos, relançando catálogos e lançando trabalhos novos direto em vinil, apostando que o público quer segurar o objeto, não só clicar no play.

É sintomático que, em um momento em que boa parte da música chega até nós por playlists, recomendações algorítmicas e vídeos curtos, ainda exista vontade de sentar em uma roda para ler uma letra ou ouvir um bolachão junto. O algoritmo pode até nos dizer o que ouvir, mas não necessariamente com quem conversar sobre aquilo que ouvimos. E é aí que shows, festas intimistas, clubes, bares de audição e outros espaços de convivência continuam encontrando lugar.

O consumo pode ser individual, mas a descoberta ainda quer testemunha. No fim, existe uma diferença entre saber o que gostamos e descobrir quem somos a partir do que gostamos.