Opinião

Em um mundo obcecado pelo novo, o familiar ganhou valor

Talvez a nostalgia seja apenas a parte mais visível de uma mudança maior no comportamento do consumidor

Aline Jabbour

Diretora sênior do Samsung TV Plus para a América Latina 15 de outubro de 2026 - 6h00

Existe um paradoxo interessante acontecendo na indústria do entretenimento. Nunca tivemos tanto conteúdo disponível e, ao mesmo tempo, nunca pareceu tão natural voltar para aquilo que já conhecemos.

Músicas lançadas décadas atrás encontram novos públicos nas redes sociais. Séries que terminaram há anos seguem entre as favoritas de diferentes gerações. Franquias são redescobertas. Artistas voltam aos palcos e encontram, não apenas quem cresceu com eles, mas jovens que nem eram nascidos quando suas músicas foram lançadas.

Talvez a nostalgia seja apenas a parte mais visível de uma mudança maior no comportamento do consumidor. Vivemos uma era de abundância. Temos acesso praticamente ilimitado a filmes, séries, músicas e vídeos.

Mas esse cenário carrega outro problema: escolher. Quanto maior a oferta, maior o esforço necessário para navegar por ela. E, em determinados momentos, não queremos necessariamente descobrir alguma coisa. Queremos simplesmente assistir.

É nesse contexto que o chamado “comfort content” ganha relevância. São filmes, séries ou programas que voltamos porque sabemos o que vamos encontrar. Não precisamos surpreender. O valor está justamente na familiaridade.

Esse comportamento já começa a ser estudado pela academia. Uma pesquisa publicada em 2025 por pesquisadores da America Latina analisou por que as pessoas reassistem a filmes e séries mesmo diante de tantas opções novas. O estudo relaciona esse hábito à busca por estabilidade e previsibilidade.

Em outras palavras, voltar a uma história conhecida também pode ser uma forma de conforto.

Mas existe uma segunda dimensão desse fenômeno que considero ainda mais interessante: o passado não pertence apenas a quem o viveu.

No Brasil, dados do Spotify mostram que o consumo de rock dos anos 80/90 pela Geração Z cresceu 21% entre julho de 2023 e julho de 2025. Mais do que falar sobre um gênero musical específico, o dado ajuda a revelar um comportamento: novas gerações também estão descobrindo referências culturais que surgiram muito antes delas.

Isso muda a maneira como pensamos sobre nostalgia. Para uma geração, determinado conteúdo pode representar memória afetiva. Para outra, descoberta.

Um jovem pode ouvir uma música dos anos 80 pela primeira vez em uma rede social. Pode descobrir uma série dos anos 90 em uma plataforma de streaming. Pode conhecer um personagem décadas depois de ele ter entrado para a cultura popular. O que é lembrança para alguém pode ser novidade para outro.

Talvez seja justamente por isso que algumas histórias consigam atravessar tantas gerações.

O recente retorno de Xuxa aos palcos é um bom exemplo. Os primeiros shows da turnê em São Paulo tiveram ingressos esgotados e novas apresentações foram abertas. É fácil explicar parte dessa demanda pela memória afetiva de quem cresceu assistindo à artista. Mas fenômenos como esse também mostram como referências culturais conseguem permanecer vivas muito depois de seu momento original.

Para a indústria de entretenimento, há uma provocação importante aqui.

Durante muito tempo, novidade foi praticamente sinônimo de valor. A lógica da indústria sempre nos empurrou para o próximo lançamento, a próxima estreia, o próximo fenômeno. E, claro, continuaremos precisando criar novas histórias.

Mas talvez tenhamos subestimado o valor daquilo que já conquistou um lugar na vida das pessoas.

Isso não significa simplesmente resgatar catálogos antigos ou produzir remakes. Significa entender que conteúdo tem ciclos de vida muito menos lineares do que imaginávamos. Uma história pode desaparecer por alguns anos, voltar por meio de uma trend, encontrar uma nova audiência e adquirir outro significado.

Para as plataformas, isso muda também o papel da curadoria. Em um universo de oferta praticamente infinita, não basta disponibilizar conteúdo. É preciso ajudar as pessoas a encontrar aquilo que querem assistir, inclusive quando elas ainda não sabem exatamente o que estão procurando.

Às vezes será uma novidade. Em outras, será uma história que conhecem de cor. E, muitas vezes, será algo antigo que, para elas, é completamente novo. A nostalgia, portanto, não significa rejeição ao novo. O consumidor não está escolhendo entre descobrir e revisitar. Ele quer as duas coisas.

O desafio para a indústria talvez seja parar de pensar no novo e no antigo como forças opostas.

Em um mercado disputado pela atenção, criar a próxima grande história continuará sendo fundamental. Mas reconhecer o valor das histórias que já significam alguma coisa para as pessoas pode ser igualmente poderoso.

Porque, em um mundo obcecado pelo próximo, as vezes o que queremos é simplesmente encontrar algo que nos faça sentir em casa.