Opinião

Da esferográfica às emagrecedoras: o design que reorganiza o consumo

A mesma lógica que colocou a Bic Cristal em bilhões de mãos no século 20 hoje move as canetas de GLP-1, e redesenha de quebra os mercados de alimentos, bebidas, fitness e moda

Leonardo Massarelli

Sócio e diretor de Inovação na Questtonó 4 de agosto de 2026 - 14h00

Alguns objetos parecem pequenos demais para mudar o mundo. Até que mudam. Poucos provam isso tão bem quanto a Bic Cristal.

Lançada em 1950, a caneta atravessou gerações, países e classes sociais fazendo uma coisa somente, e fazendo muito bem. Escrevia com regularidade, custava quase nada e cabia no bolso. E nada nela é por acaso. O corpo transparente mostra a tinta, a forma hexagonal impede que role da mesa, o furo na tampa reduz o risco de asfixia e o furo no corpo mantém a tinta fluindo. É a definição mais limpa do que o design industrial sabe fazer: resolver muito com muito pouco.

Trago a Bic porque acho que estamos vivendo a chegada de uma nova geração de canetas. Não as que escrevem no papel, mas as que agem sobre o corpo, mexem no metabolismo, no apetite e na relação de cada um com a própria vontade. As canetas de GLP-1, que o público já chama pelos nomes de balcão, Ozempic, Wegovy e Mounjaro, são para mim alguns dos objetos de design mais importantes deste momento. Não pela molécula que carregam, mas pelo que fazem com ela.

E não é conversa de simbolismo. Em poucos anos, a categoria saiu do nicho e passou a movimentar dezenas de bilhões de dólares por ano. Somados, os quatro principais produtos (Ozempic e Wegovy, da Novo Nordisk, mais Mounjaro e Zepbound, da Eli Lilly) ultrapassaram US$ 40 bilhões em vendas em 2024. Poucos produtos recentes cresceram nessa velocidade.

O que mais me interessa é o que menos aparece nas manchetes. A inovação dessas canetas não está apenas na química. Está no design. Transformar uma terapia complexa em um gesto caseiro semanal, que a pessoa repete sem medo, é um problema tão difícil quanto o da ciência que veio antes. Uma caneta médica precisa resolver dose, higiene, precisão e, acima de tudo, confiança. Precisa pegar uma injeção, que por décadas significou dor e hospital, e devolvê-la como algo que se faz em segundos, na cozinha de casa. Isso tem nome. Chama-se design de comportamento.

A Bic venceu porque funcionava para todos. As canetas de saúde vencem porque tornam possível um tratamento que, sem elas, ficaria trancado no laboratório. Mas aqui mora a diferença que me incomoda. A Bic era radicalmente democrática, e essas canetas ainda não são. Resolveram o problema técnico da adesão e esbarraram no econômico do acesso. A pergunta que todo designer honesto precisa fazer não é se o objeto muda o mundo, é para quem ele muda. Democratizar o gesto não é a mesma coisa que democratizar o direito de usá-lo.

Sempre foi assim com os objetos que mudaram o mundo por baixo do radar. A caneta transparente, o controle remoto, o cartão de crédito, o smartphone. No começo pareciam

pequenos demais para importar. Só depois entendemos que nunca foram somente objetos, e sim interfaces entre uma tecnologia nova e um jeito novo de viver.

A reflexão é que o design não pode ser entendido apenas como a disciplina que dá forma às coisas. Ele é a disciplina que transforma tecnologias complexas em comportamentos possíveis. Que reduz a distância entre invenção e adoção. Que desenha confiança, adesão, repetição e acesso. Que faz uma descoberta sair do laboratório e encontrar espaço na vida real.

Alguns objetos, ainda, parecem pequenos demais para mudar o mundo.