opinião - richard le moult

Ainda há mercado para lazer

O papel das marcas de consumo na era da produtividade

Richard Le Moult

Chief marketing officer LATAM da Pernod Ricard 18 de setembro de 2026 - 6h00

O avanço tecnológico exponencial dos últimos 20 anos gerou maior flexibilização, integração entre setores e melhorias no cotidiano; contudo, infelizmente, também levou à fragmentação social e ao isolamento de muitos indivíduos por conta da substituição do contato humano por telas. A importância reduzida atribuída ao coletivo reflete-se, também, nos hábitos: a hipervalorização da nossa autoimagem, da produtividade individual e do desempenho pessoal são fenômenos ligados à perda da conexão com o outro.

O excesso de individualismo fez com que acreditássemos que a cura de nossos males está no esforço próprio: se treinarmos o suficiente, se trabalharmos o suficiente, se ganharmos dinheiro suficiente, se investirmos em nossa aparência externa o suficiente, estaremos, finalmente, bem. E, é claro, esses são todos fatores que contribuem para uma vida feliz. Há uma atividade, porém, que acabou ficando em segundo plano para muitos: a socialização.

A presença de outros seres humanos ao nosso lado é, ainda, o maior alento que existe para o sistema nervoso. Seres sociais que somos, precisamos de comunidade. Nos cercarmos de pessoas que reconhecem – e espelham – que a nossa existência deve ser uma prioridade. Uma vida que equilibra o esforço próprio com o que há de mais genuíno – conexões humanas – ainda é o caminho mais certeiro para a felicidade.

Há uma grande questão nas indústrias de bens de consumo: como manter sua relevância mesmo em meio a essa nova forma de organização social? Se as pessoas estão se reunindo menos, como marcas que baseiam sua estratégia de vendas para esses momentos ficam? Haverá um caminho em que elas consigam acompanhar a demanda de seus consumidores sem perder a sua essência?

Readequar o portfólio pode parecer a solução mais direta e isso pode fazer parte da resposta. Talvez, algumas marcas devam tomar para si a responsabilidade de lembrar a todos que a vida realmente acontece nos momentos em que vivemos e interagimos com a comunidade que nos rodeia, principalmente nesta fase de hiperprodutividade pela qual passamos. Incentivar os consumidores a priorizarem conexões, famílias, amigos e a celebração de pequenas e grandes conquistas faz com que haja espaço no mercado para todos, ao mesmo tempo em que fomentamos o consumo responsável e consciente.

Também se discute muito sobre como o crescimento do mercado wellness e a busca dos consumidores por uma vida saudável ameaçam as marcas associadas a

momentos de descontração. A verdade é que ambos os mercados podem perfeitamente coexistir em harmonia. O lazer, a celebração e a criação de memórias nunca deixarão de ter o espaço que merecem. Somente assim a vida poderá ser realmente equilibrada: com momentos de conexão, diversão, relaxamento e descanso para quebrar o ritmo intenso da rotina de cuidados.

É necessário, para isso, confiar no consumidor: quando se busca produtos fitness, ele irá para marcas específicas; em momentos de lazer, a busca é diferente. Tentar alavancar vendas mudando drasticamente a natureza dos produtos, com o único intuito de seguir tendências, pode ter resultados adversos.

Acompanhar os consumidores nesse momento de convivialidade – como nos referimos na Pernod Ricard – não vai na contramão de tendências contemporâneas. O uso do álcool de forma adequada pode, sim, fazer parte de uma vida equilibrada e harmoniosa, porque a bebida é um acompanhamento para diferentes ocasiões sociais e não o propósito em si. A felicidade está em uma vida bem equilibrada, sem excessos nem restrições.

E esse equilíbrio pode ser atingido com pequenas ações que tornam o consumo mais respeitoso e agradável, como intercalar a ingestão de doses de bebida alcoólica com as de água, para que esses momentos sejam sempre lembrados de forma positiva. Assim, o álcool em momentos específicos não se torna incompatível com uma vida moderada; pelo contrário, é por meio da diversão que conseguimos relaxar para depois retornarmos ao foco.

Com isso, as empresas de bebidas alcoólicas adquirem um novo papel, pois o consumo está cada vez mais associado a uma decisão intencional. Nós complementamos momentos especiais.

Marcas que entendem seu propósito fidelizam seu público. A moderação não é uma aposta recente nem uma adaptação às tendências atuais de consumo. Afinal, não existe convivialidade sem moderação. Acreditamos que as melhores experiências são aquelas vividas de forma equilibrada, responsável e compartilhada. Por isso, a moderação não nos afasta da vida do consumidor; pelo contrário, qualifica nossa presença e fortalece uma relação baseada em escolhas conscientes e experiências significativas.