Em quem confiar quando todo mundo fala de dinheiro?
Apesar do papel importante das redes sociais, qualidade da influência de criadores de conteúdo acende alerta para o segmento financeiro
Outro dia, em um evento sobre finfluencers, me fizeram uma pergunta que parece simples à primeira vista: como saber se um influenciador financeiro é confiável? Ou, em bom português, como saber se não é picareta?
Não existe uma resposta única, muito menos um selo capaz de separar quem merece confiança de quem não merece. Mas há sinais que ajudam. E, quando o assunto é dinheiro, aprender a reconhecê-los deveria fazer parte da educação financeira tanto quanto entender o que é renda fixa, fundo de investimento ou ação.
Na 10ª edição do FInfluence, monitoramos 904 influenciadores. É muita gente falando de finanças, com estilos, especialidades e níveis de formação diferentes, para públicos que também querem coisas diferentes. Tem quem esteja tentando organizar a vida financeira, quem queira começar a investir e quem já acompanhe o mercado há anos. Por isso, saber escolher quem ouvir virou parte importante do processo.
Um bom começo é prestar atenção no que está sendo prometido. Rentabilidade sem risco, enriquecimento rápido, certeza demais para um mercado cheio de variáveis deveriam acender um alerta. Não acredite em milagres, porque, se parece bom demais para ser verdade, provavelmente não é.
No FInfluence, não olhamos apenas para números como alcance e engajamento na hora de avaliar os perfis que aparecem nos rankings. Também fazemos uma análise qualitativa, que considera a reputação, as boas práticas e as condutas desses influenciadores. É nessa etapa que observamos, por exemplo, se os conteúdos podem induzir o investidor ao erro ou apresentar uma visão distorcida dos riscos envolvidos.
Quem trata o assunto com responsabilidade precisa mostrar também o que pode dar errado. Talvez esse seja um dos filtros mais simples para quem está do outro lado da tela: o conteúdo está ajudando a entender uma decisão ou apenas tentando convencer de que determinada escolha é boa? A ideia, no fim das contas, é que você possa ter todas as informações necessárias em torno de uma recomendação de investimento, por exemplo, para tomar uma decisão totalmente consciente.
A transparência entra nessa mesma conta. Quando existe uma relação comercial por trás de um conteúdo, o público precisa saber. A publicidade, por si só, não é o problema. A questão é quando ela aparece disfarçada de opinião espontânea. As regras da Anbima para instituições que contratam influenciadores já preveem a identificação dessa relação justamente para deixar claro quando há interesse comercial naquela comunicação. Sempre se pergunte — e, se possível, pesquise — se há alguma relação entre os produtos que o finfluencer divulga e a empresa que os criou ou distribui.
Na hora de avaliar a qualificação de quem fala, o primeiro passo é entender que tipo de atividade aquele influenciador exerce. Nem todo conteúdo financeiro exige uma certificação. Quem explica, por exemplo, o que é CDI, inflação ou como funciona determinado investimento está produzindo conteúdo educativo. É diferente de exercer uma atividade regulada, para a qual existem habilitações específicas. Um analista de valores mobiliários, por exemplo, precisa ter CNPI. Já no universo da gestão, há certificações específicas, como CGA e CGE. Mais importante do que simplesmente procurar um selo no perfil é entender se a formação ou a certificação daquela pessoa é compatível com o que ela se propõe a fazer.
E só a certificação também não resolve tudo. Ela pode atestar o preparo técnico necessário para determinada atividade, mas não transforma ninguém automaticamente em bom comunicador, nem torna uma pessoa infalível. O melhor dos mundos é quando um finfluencer reúne qualificação adequada e capacidade de traduzir esse conhecimento de forma clara, responsável e útil para a audiência.
Na 10ª edição do FInfluence, demos mais visibilidade a esse tema com rankings específicos de influenciadores com certificações da Anbima e com CFP (Certified Financial Planner), da Planejar. Não se trata de uma chancela para dizer quem é “bom” ou “ruim”. É mais uma informação à disposição de quem acompanha esses perfis e quer entender melhor quem está do outro lado da tela.
Um outro ponto mais subjetivo, mas igualmente importante, é o histórico. Um perfil não é só o post que apareceu no seu feed hoje. Depois de algum tempo acompanhando alguém, dá para perceber se existe coerência no que aquela pessoa defende, que fontes costuma usar, como lida com erros e até se o discurso muda ao sabor do assunto do momento. Essa é uma das razões pelas quais o FInfluence também olha para reputação, boas práticas e condutas, e não apenas para seguidores e engajamento.
Número de seguidores não é certificado de competência, assim como engajamento não é prova de credibilidade. Falar bem diante de uma câmera também não significa necessariamente entender profundamente do assunto. Nenhum desses elementos, sozinho, responde à pergunta que ouvi naquele evento.
As redes sociais tiveram um papel importante ao aproximar o mercado financeiro da vida das pessoas. Os finfluencers ajudaram a tornar temas complexos mais acessíveis e levaram essa conversa para públicos que antes talvez nem se enxergassem nela. Quanto maior essa influência, porém, maior também precisa ser o cuidado de quem produz e de quem consome esse conteúdo.
Confiança se constrói com transparência, preparo, coerência e tempo. Antes de seguir qualquer dica sobre o que fazer com o próprio dinheiro, talvez a melhor pergunta seja outra: essa pessoa está me ajudando a tomar uma decisão melhor ou apenas tentando me convencer de alguma coisa? Quais são os interesses por trás do que ela publica nos conteúdos? Vale a reflexão.