Opinião

O que a crise das marcas tradicionais ensina sobre reputação

Uma marca conhecida pode manter seu lugar na memória das pessoas mesmo quando o negócio perde força. Mas o que, de fato, essa história consegue sustentar?

Giuliana Tranquilini

Cofundadora da Betafly 20 de agosto de 2026 - 16h00

O pedido de recuperação judicial do Grupo Casas Bahia colocou uma das marcas mais conhecidas do Brasil novamente no centro das conversas.

Mas meu olhar aqui não é financeiro. É sobre o papel da marca quando o negócio entra em crise. A Casas Bahia ocupa um lugar muito claro na memória dos brasileiros. O carnê, o jingle, o Baianinho e a possibilidade de comprar a prazo ajudaram a construir uma relação de proximidade com o consumidor popular.

Esse reconhecimento tem valor. Pode fazer o cliente continuar olhando para a empresa, dar credibilidade às explicações e abrir algum espaço para que ela se reorganize, mas não resolve a crise.

Uma marca forte pode ampliar o valor de um bom negócio. Não consegue compensar uma estrutura financeira que deixou de se sustentar. Essa diferença é importante porque lembrança, relevância e reputação não são a mesma coisa.

Lembrança é ser reconhecida. Relevância é continuar fazendo sentido na escolha do consumidor. Reputação é a percepção construída a partir daquilo que a empresa entrega e da forma como se comporta com as pessoas que dependem dela.

Uma empresa pode ter muita lembrança e pouca relevância. Pode continuar conhecida e perder confiança. Pode carregar uma história importante sem conseguir transformá-la em valor no presente.

A comunicação não pode prometer o que a empresa ainda não consegue entregar

Quando uma empresa entra em crise, a comunicação precisa organizar a mensagem, explicar as decisões e reduzir a insegurança dos diferentes públicos. Esse trabalho é fundamental, mas existe um limite.

A comunicação pode dar contexto a uma decisão. Não pode substituir a decisão.

Pode afirmar que a operação continuará, mas a confiança nessa mensagem dependerá da experiência de clientes, funcionários e fornecedores. Pode-se dizer que existe um plano de transformação, mas

esse plano precisa aparecer na operação, nas prioridades e na forma como as relações serão conduzidas.

É nesse momento que a empresa corre o risco de confundir controle da narrativa com controle da percepção. A narrativa está no que a empresa escolhe dizer. A percepção se forma também a partir do que as pessoas vivem, observam e compartilham.

Quanto maior a distância entre essas duas coisas, menor a capacidade da comunicação de proteger a reputação. Por isso, antes de perguntar “como vamos comunicar?”, a liderança precisa responder: o que estamos fazendo para que essa mensagem seja verdadeira?

O que ainda faz essa marca ser escolhida?

A discussão sobre preservar a história de uma marca costuma ficar presa aos seus elementos mais visíveis: nome, identidade, personagens, campanhas e símbolos conhecidos. Mas a identidade de uma marca não está apenas na maneira como ela se apresenta. Está, principalmente, no valor que aprendeu a entregar.

No caso da Casas Bahia, esse valor sempre esteve na capacidade de entender o consumidor popular e transformar crédito em acesso. O jingle e o Baianinho tornaram essa proposta conhecida. Não foram eles que construíram a relação.

Essa distinção muda a pergunta. Em vez de tentar preservar tudo o que o consumidor reconhece, a empresa precisa identificar o que ele ainda considera importante.

A Casas Bahia não precisa permanecer igual para continuar sendo a Casas Bahia. Precisa encontrar uma maneira atual e financeiramente possível de continuar entregando acesso, conveniência e proximidade.

É isso que significa transformar uma marca sem apagar sua identidade.

Não é modernizar a aparência para parecer atual. Também não é possível manter práticas antigas em nome da tradição. É usar a identidade como critério para decidir o que permanece, o que muda e o que já não faz sentido sustentar.

Reputação é consequência das decisões

Em uma crise, a empresa se comunica por muitos lugares além de seus canais oficiais.

Comunica quando define quem será protegido primeiro. Quando negocia com fornecedores. Quando explica uma demissão. Quando responde a um cliente inseguro. Quando assume o que ainda não sabe. E quando cumpre, ou não, aquilo que anunciou.

Por isso, reputação não pode ser responsabilidade apenas do marketing ou da comunicação. Ela é consequência das decisões da liderança, da governança, do atendimento, da gestão de pessoas e da relação com todos os públicos envolvidos.

A comunicação organiza essas decisões, dá contexto e ajuda as pessoas a compreendê-las. Mas não consegue sustentar uma promessa que a conduta da empresa contradiz.

É aqui que a história da marca pode ajudar ou se transformar em um problema.

O reconhecimento acumulado pode fazer com que as pessoas estejam mais dispostas a ouvir. Mas também aumenta a expectativa de coerência. Quanto mais importante uma marca foi na vida do consumidor, maior a cobrança sobre a forma como ela conduz um momento como esse.

A força atual de uma marca não está no número de pessoas que ainda se lembram dela. Está no valor que ela continua entregando e na confiança que suas decisões ainda conseguem produzir.

A Casas Bahia não precisa abandonar sua história. Precisa mostrar que o valor que construiu essa história ainda pode ser entregue em outro modelo de negócio.

Se conseguir, a memória será um ponto de partida para a transformação. Se não conseguir, continuará sendo uma marca conhecida, mas cada vez menos relevante.