Opinião

A economia solo como padrão de comportamento

Quase um em cada cinco brasileiros mora sozinho. Por que o mercado ainda não percebeu?

Estela Brunhara

Sócia e diretora da FutureBrand 19 de agosto de 2026 - 14h00

O mercado ainda enxerga quem mora sozinho como um público de transição, alguém a caminho de formar família, ou saindo dela, mas essa leitura ficou pra trás: hoje, 19,7% dos domicílios brasileiros têm um único morador, contra 12,2% em 2012, segundo a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua do IBGE, quase um em cada cinco lares do país. O salto foi rápido, mas a oferta de produtos e serviços não acompanhou, e segue desenhada como se esse padrão ainda fosse provisório, uma fase, não uma configuração estável da vida contemporânea.

Só que esse número esconde duas histórias diferentes, e vale separá-las antes de qualquer conclusão fácil sobre autonomia. Entre as mulheres que moram sozinhas, a maioria tem 60 anos ou mais, geralmente depois da viuvez ou da saída dos filhos de casa, enquanto entre os homens o padrão se concentra na faixa de 30 a 59 anos, mais ligado à mobilidade de carreira e separação conjugal. Uma dessas trajetórias tem mais de escolha, a outra tem mais de circunstância, e tratar a economia solo como se fosse, para todo mundo, um projeto deliberado de independência simplifica um fenômeno que é, na prática, bem mais ambíguo.

O ponto mais revelador, porém, não está em como a pessoa chegou a esse arranjo, e sim no que ela faz depois. O sociólogo Anthony Giddens descreve a vida contemporânea como um projeto reflexivo, em que rotina, tempo, dinheiro e consumo deixam de seguir um roteiro herdado, o da família, do casal, do grupo doméstico, e passam a ser decididos e revisados continuamente pela própria pessoa. Isso vale tanto para quem escolheu morar só quanto para quem chegou lá por circunstância, e vale, o que é menos óbvio e mais interessante pra quem pensa mercado, também para quem não mora sozinho: duas pessoas podem dividir o mesmo endereço e ainda assim manter compras, horários, assinaturas e orçamento organizados cada uma na própria lógica, porque dividir casa não significa mais dividir decisão de consumo. A economia solo, vista assim, é menos uma categoria demográfica e mais um padrão de comportamento, maior do que o número de domicílios unipessoais sugere.

É esse padrão que a maior parte do mercado ainda lê errado, e o erro se repete de formas diferentes em cada categoria. Em alimentação e conveniência, pedido mínimo e embalagens pensadas para mais de uma pessoa penalizam, não apenas ignoram, quem decide sozinho, já que se paga proporcionalmente mais por comprar menos, como se comer só fosse uma exceção a ser taxada. Em viagem e hospitalidade, a tarifa por pessoa em quarto duplo segue como referência padrão, tratando a viagem individual como desvio a ser cobrado, não como um padrão de consumo com direito a preço próprio. Em serviços financeiros e assinaturas, o plano compartilhado segue como opção default, e o plano individual funciona como recorte reduzido de um produto pensado para outro arranjo, em vez de proposta pensada para quem ele de fato atende. Em nenhum desses casos o problema é o tamanho da porção ou da tarifa, e sim o contrato, o preço e a linguagem, que seguem presos a uma vida compartilhada como ponto de partida implícito, mesmo quando cada vez menos gente parte dali.

Há um setor, ao menos, que já corrigiu essa leitura: o mercado imobiliário reagiu com rapidez ao dado do IBGE, e cresceu a busca por studios e apartamentos compactos, sobretudo em regiões urbanas com boa oferta de serviços e mobilidade, com incorporadoras tratando esse público como projeto central de novos lançamentos, não como nicho a ser acomodado depois que o essencial já foi decidido. Isso prova que a lacuna nos outros setores não é inevitável, é atraso de leitura, corrigível assim que alguém decidir corrigir.

A economia solo não deveria ser tratada como tendência de conveniência, nem como conquista uniforme de autonomia. Ela é o retrato de uma reorganização mais funda de como as pessoas decidem, morando sozinhas ou não, e o mercado que segue oferecendo a versão reduzida de um produto pensado para outro arranjo está lendo só metade do dado: a outra metade, a de que decisão individual já é decisão completa, é onde está a diferença entre acompanhar esse público e efetivamente construir para ele. Essa diferença, hoje, ainda está em aberto, e vai continuar rendendo vantagem pra quem chegar primeiro.