opinião - mafoane odara

A próxima revolução será a das relações

Estamos tecnologicamente mais conectados e relacionalmente menos disponíveis, uma das ironias desse tempo

Mafoane Odara

Psicóloga, executiva de relações humanas e professora 18 de agosto de 2026 - 6h00

Tenho pensado muito sobre uma competência que raramente aparece entre as mais celebradas nos currículos, nos programas de liderança ou nas listas sobre o futuro do trabalho: a capacidade de construir relações que sobrevivem ao tempo, às diferenças e aos conflitos.

Estamos tecnologicamente mais conectados e relacionalmente menos disponíveis. Essa é uma das ironias do nosso tempo, nunca tivemos tantas ferramentas para nos conectar e nunca foi tão fácil abandonar uma relação. Silenciamos, bloqueamos, deixamos de seguir, saímos do grupo, aceleramos o áudio e, no limite, cancelamos.

No trabalho, trocamos uma conversa difícil por um e-mail, uma pergunta por uma interpretação, um conflito por uma reunião paralela. A tecnologia reduziu drasticamente o custo de iniciar conexões, mas não aumentou nossa capacidade de sustentá-las. Relações profundas exigem justamente aquilo que nossa época tenta eliminar: tempo, repetição, vulnerabilidade, inconveniência e presença.

O Harvard Study of Adult Development, iniciado em 1938 e uma das pesquisas longitudinais mais conhecidas sobre a vida adulta, mostrou algo aparentemente simples, a qualidade das nossas relações importa profundamente para nossa saúde e bem-estar ao longo da vida. Seus pesquisadores usam uma expressão de que gosto muito, social fitness, algo como condicionamento social.

A ideia desmonta uma fantasia de que boas relações simplesmente acontecem, elas precisam ser cuidadas. Assim como cuidamos do corpo, precisamos cuidar da nossa vida relacional. Quem são as pessoas para quem você pode ligar quando alguma coisa dá errado? Quais relações importantes você deixou no piloto automático? Com quem precisa ter uma conversa que vem adiando? Quem só recebe notícias suas quando você precisa de alguma coisa? E, a pergunta mais incômoda, como você trata as pessoas que já não podem fazer nada por você?

Quanto mais penso sobre transformação organizacional, mais acredito que não existe desenvolvimento sem relação. Uma ideia pode nascer individualmente, mas, para transformar ideia em ação, intenção em mudança e prática em cultura, precisamos de outras pessoas. São as relações que sustentam a transformação. Por isso, precisamos rever o que chamamos de competência estratégica.

Será estratégico saber usar inteligência artificial? Evidentemente. Compreender dados? Sem dúvida. Mas será igualmente estratégico construir confiança, cooperar entre silos, atravessar conflitos, criar alianças improváveis e trabalhar com quem enxerga o mundo de maneira diferente da nossa.

A IA pode produzir uma resposta em segundos, mas ainda precisamos decidir juntos qual pergunta vale a pena fazer. Pode sintetizar milhares de informações, mas alguém precisa construir confiança para que as informações importantes circulem. Pode sugerir caminhos, mas organizações continuarão dependendo de pessoas capazes de discordar sobre eles sem transformar diferença em guerra.

A pesquisa de Harvard nos lembra de algo que a pressa contemporânea nos fez esquecer, não construímos uma vida apenas com aquilo que realizamos, construímos uma

vida com quem esteve conosco enquanto realizávamos, portanto cuidar das relações também significa aprender a discordar. Existe uma ideia equivocada de que relações boas são aquelas em que não há conflito. Tenho aprendido o contrário, algumas relações acabam porque houve conflito, mas muitas outras acabam porque nunca houve conflito suficiente.

As pessoas deixam de dizer o que pensam, acumulam frustrações, interpretam as intenções umas das outras e conversam sobre alguém com todo mundo, menos com a própria pessoa. Até que aquilo que poderia ter sido uma conversa vira uma ruptura.

Relacionamentos longevos não são aqueles em que ninguém se decepciona, são aqueles que desenvolvem capacidade de reparação. Isso vale para amizades, famílias e organizações. Precisamos aprender a discordar sem destruir, perguntar antes de presumir, distinguir intenção de impacto, reconstruir confiança depois de uma quebra e dizer “não gostei do que aconteceu” sem transformar isso em “não gosto de você”.

Em um mundo em que o conhecimento estará cada vez mais disponível, a competência mais importante para lidar com a complexidade será construir pontes para transformar conhecimento em ação coletiva. Porque saber mais não significa, necessariamente, conseguir fazer melhor juntos. Isso exigirá parar de tratar as relações como aquilo que acontece enquanto fazemos o trabalho. Relações são parte do trabalho. Precisamos cuidar delas não apenas porque tornam a vida mais agradável, mas porque é por meio delas que aprendemos, discordamos, inovamos, cooperamos e transformamos.

Então, se eu pudesse apostar em uma competência para as próximas décadas, apostaria na capacidade de construir relações que não dependam de concordância, conveniência ou moeda de troca para continuar existindo. A próxima revolução pode até ser impulsionada pela tecnologia, mas a transformação mais necessária do nosso tempo será a revolução das relações.