Por que ser mediano ainda compensa?
Nenhuma empresa precisa escrever em um manual que é melhor não arriscar; a gente aprende observando quem é promovido e quem recebe os projetos mais importantes
Ninguém entra em uma empresa pensando em fazer um trabalho mediano. Ainda assim, muitas organizações criam sistemas em que não arriscar pode ser uma decisão bastante inteligente. Se uma ideia previsível entrega resultado, atravessa as aprovações com facilidade e ainda protege a carreira de quem a defendeu, escolher o previsível deixa de ser falta de criatividade. Torna-se uma decisão estratégica.
Essa ideia tem voltado à minha cabeça sempre que vejo a quantidade de talento, repertório e ferramentas disponíveis hoje para quem trabalha com marketing. Temos acesso infinito a referências, dados, tecnologia, parcerias e possibilidades de execução. Ainda assim, existe uma sensação difícil de ignorar: muita coisa parece igual. As mesmas referências, os mesmos formatos, as mesmas soluções, as mesmas pessoas circulando entre as mesmas marcas. A qualidade criativa mediana pode não ser um problema de talento. Pode ser um problema de incentivo.
Nenhuma empresa precisa escrever em um manual que é melhor não arriscar. A gente aprende observando. Quem é promovido. Quem recebe os projetos mais importantes. Quem ganha visibilidade. Quem pode errar e quem não pode. Que tipo de ideia atravessa uma reunião com facilidade e qual precisa sobreviver a 15 aprovações. Quem é chamado de corajoso e quem ganha fama de difícil.
Todo sistema de recompensa também é um sistema de educação. Ele ensina, mesmo sem dizer uma palavra, quais comportamentos vale a pena repetir. E, por isso, sempre me chama atenção quando empresas dizem que querem mais coragem, inovação, pensamento original e ideias capazes de impactar a cultura. São ambições legítimas, mas precisam vir acompanhadas de uma pergunta reflexiva: o que estamos efetivamente recompensando?
Não adianta pedir risco criativo em um sistema que recompensa previsibilidade. Nem celebrar experimentação no discurso e transformar qualquer tentativa que não funciona em problema de performance. Podemos contratar as pessoas mais talentosas, oferecer as melhores ferramentas e criar espaço para experimentação. Mas, se no fim promovemos quem nunca erra, premiamos quem entrega somente o que já sabe que funciona e tratamos risco como ameaça, assim, a organização já ensinou qual comportamento espera ver novamente.
Não significa romantizar risco. Nem toda ideia diferente é boa. Nem todo processo é burocracia. Consistência e capacidade de operar dentro de sistemas complexos também são competências. O ponto não é substituir o previsível pelo caos. É entender quais comportamentos estamos incentivando as pessoas a repetir. Porque a cultura real de uma organização está menos naquilo que ela declara e mais naquilo que ela recompensa.
Um líder não define cultura apenas quando escreve os valores. Define quando promove alguém. Quando escolhe quem ganha visibilidade. Quando decide quem recebe autonomia. Quando protege uma ideia ainda imperfeita. Quando permite que alguém erre depois de assumir um risco acordado.
Cada uma dessas decisões ensina alguma coisa. Sobre o que importa. Sobre quem prospera. Sobre o que é permitido. E também sobre aquilo que não vale a pena arriscar. Cultura não é apenas aquilo que dizemos que valorizamos. É aquilo que as pessoas aprendem que precisam fazer para crescer.
E é aqui que esta conversa deixa de ser apenas sobre criatividade. Porque os mesmos incentivos que moldam o trabalho também começam a moldar quem somos profissionalmente. Cargo, salário, promoção, visibilidade, tamanho do time e reconhecimento são recompensas legítimas. O problema não está em desejá-las. Está em nunca investigar o que elas estão nos ensinando a desejar depois.
Porque sistemas de recompensa não apenas reconhecem escolhas que já fizemos. Eles influenciam as próximas. Uma promoção aponta para outra. Um cargo maior redefine o que parece avanço. Mais pessoas no time podem passar a significar mais sucesso. Mais exposição cria novas referências de reconhecimento. Aos poucos, uma definição externa de progresso pode se transformar na nossa definição sem que exista exatamente um momento em que decidimos por ela.
Entender quais sistemas de recompensa estão moldando nossas escolhas é também uma forma de preservar alguma autoria sobre a própria trajetória. Não porque exista uma carreira perfeitamente planejada. Oportunidades aparecem, contextos mudam, dinheiro importa, a vida acontece. Mas existe uma diferença entre navegar as possibilidades que surgem e permitir que cada recompensa defina automaticamente o próximo passo. E existe algo especialmente difícil em questionar um caminho quando ele está dando certo.
Só que, conforme avançamos na carreira, nossa posição nessa equação muda. No começo, somos principalmente afetados pelos incentivos. Depois, começamos a criá-los. Escolhemos quem contratar. Quem promover. Quem colocar diante da liderança. Que ideia defender. Quem recebe crédito. Que comportamento tolerar. Que erro permitir. Quem pode experimentar. Que tipo de coragem vale a pena proteger.
Nesse momento, “o sistema” deixa de ser uma entidade abstrata que determina nossas possibilidades. Nós começamos a determiná-las para outras pessoas.E é aí que a discussão sobre criatividade ganha uma responsabilidade que não pode ser terceirizada para a empresa, o processo ou a cultura. Porque organizações não recompensam comportamentos sozinhas. Pessoas fazem isso.
Se queremos trabalhos mais originais, marcas mais relevantes e equipes dispostas a desafiar o óbvio, precisamos olhar menos para a quantidade de vezes que a palavra coragem aparece nas reuniões internas e mais para o que acontece quando alguém efetivamente a exerce. O que fazemos quando uma ideia ousada ainda não vem acompanhada de todas as respostas? Quando uma aposta não entrega o resultado esperado? Quando alguém questiona uma solução que todos já estavam prontos para aprovar? Quando uma pessoa brilhante não corresponde exatamente ao modelo de profissional que tradicionalmente promovemos?
É nessas horas que a cultura deixa de ser intenção e vira prática. E é também aí que voltamos à pergunta do título. Ser mediano ainda compensa quando o custo de tentar algo diferente é maior do que o benefício de acertar? Quando proteger a própria carreira de um possível erro parece mais vantajoso do que assumir o risco de tentar algo novo? Quando aprendemos, observando quem cresce ao nosso redor, que o caminho mais seguro também é o mais recompensado?
Nesse contexto, a mediocridade criativa não é necessariamente ausência de talento. Pode ser a resposta mais inteligente a um ambiente que ensinou as pessoas que determinados riscos simplesmente não valem a pena. Se os incentivos educam, toda decisão de liderança também ensina alguma coisa sobre o profissional que vale a pena ser naquele lugar. Entender quais sistemas de recompensa estão moldando nossas escolhas é uma responsabilidade individual. Entender quais escolhas estamos ensinando outras pessoas a fazer é uma responsabilidade de liderança. Porque chega um momento da carreira em que já não podemos apenas perguntar o que o sistema está fazendo conosco. Precisamos refletir sobre o que nós estamos fazendo com ele.