O novo luxo é sujar as mãos
A primeira geração nascida sob a internet está buscando cada vez mais as experiências analógicas e as marcas seguem obcecadas pelas digitais imersivas
Para muitos de nós, são 8h por dia durante a semana em frente a um computador trabalhando. Muitas mais mexendo no celular. E quando a gente acha que acabou, no fim de semana, aqueles dois dias preciosos, muitas vezes se passam anestesiados, maratonando série na TV.
Aliás, quem hoje não tem medo de abrir a tela de tempo de uso do celular e descobrir que passou quatro, cinco, seis horas por dia scrollando uma rede social sem sequer se lembrar do que viu?
A tela cansa. E é exatamente por isso que algo muito estranho está acontecendo. A geração Z, a primeira a nascer com a tela, aquela geração que não conhece o mundo sem internet, que nunca pegou numa Barsa, está fazendo o que toda geração faz. Se rebelando. E, nesse caso, fugindo para o analógico.
Quem aí lembra do barulho do telefone de disco, do fio que (nem sempre) esticava até o quarto? Hoje, os jovens compram câmeras digitais dos anos 2000. Ouvem discos de vinil. Lotam oficinas de cerâmica, aulas de tufting (aqueles tapetes peludos), cursos de marcenaria e pintura.
Mas, o que está acontecendo?
Se você acha que isso é só mais um hobby, eu te convido a olhar para um dos maiores laboratórios de comportamento digital do mundo.
Na China, a tecnologia não é uma promessa, é a infraestrutura básica. A inteligência artificial (IA) pede o chá, o robô entrega na porta, o pagamento é feito por reconhecimento facial. É o ápice da conveniência. Mas quer saber o que os jovens chineses, os mesmos que vivem nessa ficção científica, fazem quando saem do trabalho?
Eles pagam caro para sentar-se em casas de chá milenares, sem celular, para aprender a ritualizar o aquecimento da água. Estão lotando estúdios de caligrafia e cerâmica. O movimento de resgate do “feito à mão” explodiu por lá. No país mais conectado e automatizado do planeta, um dos maiores símbolos de status entre a juventude não é mais ter o último celular. É o luxo de pagar mais caro na cafeteria para você mesmo ter o trabalho de passar o café.
Esse comportamento muda a forma como enxergamos o consumo. O que é um kit de cerâmica ou um curso de pintura, senão a compra de uma válvula de escape? Não se está comprando o barro, mas a sensação de criar um objeto por si mesmo, e estar, nem que seja por poucas horas, focado em algo fora do digital.
Como se por algumas horas pudéssemos nos desconectar das notificações, esquecer quem somos na nossa vida online, escapar da Matrix. Buscando viver a sensação de que ainda existimos no mundo físico.
Enquanto isso, marcas estão tão obcecadas em criar experiências digitais imersivas, em assistentes de IA que adivinham o seu desejo e conversam como um ser humano, mas será que é isso que a gente realmente quer?
Talvez cada vez mais as marcas vão se dividir em dois grandes grupos. As que facilitam nossa vida, nos dão conveniência, zero fricção, e que resolvem a nossa vida com IA, para que a gente não perca tempo. E as marcas que vão nos vender o oposto disso, o ritual, o artesanal, a conversa. O espaço para fazermos algo por nós mesmos, com as próprias mãos, sem robô, com a própria mente, sem IA. O momento para sermos analógicos, criativos, imperfeitos, humanos. De qual lado sua marca vai querer estar?