Estamos mais ansiosos…
...e também produzindo ambientes mais ansiogênicos no mundo corporativo
Durante muito tempo, boa parte das iniciativas de saúde mental nas empresas concentrou sua atenção na pessoa, como aumentar a resiliência, administrar o estresse, estabelecer limites, melhorar a gestão emocional. São provocações importantes, mas o momento exige acrescentar: o que existe nos ambientes que estamos construindo que contribui para o sofrimento das pessoas?
Evolutivamente, a ansiedade é um sistema de proteção. Nosso cérebro aprendeu a perceber riscos, antecipar ameaças e nos preparar para reagir. Foi essa capacidade que ajudou nossa espécie a sobreviver. Hoje, esse sofisticado sistema de alarme encontra um mundo que oferece estímulos quase permanentes para mantê-lo acionado.
Notificações, metas, notícias, comparação constante, instabilidade, violência, mudanças climáticas, reestruturações, pressão por performance, inteligência artificial transformando profissões e um trabalho que atravessa o celular e entra em nossas casas. Vivemos permanentemente disponíveis e frequentemente com a sensação de estarmos atrasados, devendo ou deixando alguma coisa escapar.
O mundo do trabalho participa ativamente dessa dinâmica. Há culturas em que o expediente não tem fim claro, em que tudo se torna urgente, lideranças que fazem da imprevisibilidade um método, equipes em que discordar tem custo, ambientes em que um erro ameaça uma reputação construída durante anos e pessoas que começam o domingo sofrendo pela segunda-feira.
Aplicativos de meditação, terapia, práticas de autocuidado e desenvolvimento da resiliência podem ser recursos importantes. Sua potência aumenta quando o cuidado individual encontra ambientes que também assumem responsabilidade pelas condições que produzem. Existem histórias individuais, condições clínicas e tratamentos necessários. Existem também culturas, relações e formas de organizar o trabalho que ampliam ou reduzem o sofrimento. Saúde mental exige enxergar essas dimensões ao mesmo tempo.
Somos, ainda, uma espécie profundamente relacional. Ao longo da nossa evolução, proximidade, contato e cuidado tornaram-se referências de segurança. Esse dado ganha força diante de um dos grandes paradoxos contemporâneos: Estamos hiper conectados e, ao mesmo tempo, nossas relações parecem mais frágeis. Temos centenas de contatos e poucas conversas difíceis. Respondemos mensagens todo o dia e adiamos conversas capazes de reparar relações. Trabalhamos conectados em tempo real enquanto muitos ainda não sabem a quem recorrer quando algo não vai bem.
Ambientes psicologicamente seguros conseguem sustentar pressão, conflito, cobrança e frustração preservando a dignidade e a qualidade das relações. Permitem metas ambiciosas com respeito, cobrança com confiança, discordância com abertura, erros com aprendizado e responsabilidade com humanidade.
Saúde mental e alta performance podem ocupar o mesmo lado da mesa. Para isso, precisamos também ampliar nossa capacidade de escuta. A ansiedade pode chegar antes da palavra como insônia, tensão, irritabilidade, silêncio, evitação, dificuldade de concentração ou uma mudança repentina de comportamento e desempenho.
Escutar é também perceber aquilo que uma pessoa ainda não conseguiu falar. Diagnóstico e tratamento pertencem a profissionais qualificados. À liderança cabe construir relações em que as pessoas encontrem segurança antes de chegar ao limite.
Por isso, o Setembro Amarelo pode marcar uma passagem importante, da conscientização para a corresponsabilidade. Terapia, cuidado especializado, autoconhecimento e recursos individuais seguem fundamentais. A eles precisamos somar uma discussão sobre carga, prioridades, previsibilidade, confiança, autonomia, reconhecimento, segurança e qualidade das relações.
Precisamos cuidar de pessoas, relações e ambientes. Uma sociedade emocionalmente mais saudável permite que nosso sistema de alarme cumpra sua função: nos avisar quando existe perigo e encontrar condições para descansar quando há segurança.
Além de perguntar “como você está?”, organizações e lideranças podem ampliar a conversa: “O que na forma como estamos trabalhando e nos relacionando pode estar contribuindo para que você esteja assim?” E há uma pergunta ainda mais importante: “O que está ao nosso alcance transformar?”
Cuidar da saúde mental significa oferecer recursos para que pessoas atravessem momentos difíceis e construir ambientes que ofereçam mais razões para que nosso sistema de alarme possa, finalmente, descansar.