Opinião

O consumidor não quer mais ser convencido, quer ser respeitado

O marketing de persuasão está dando lugar ao marketing de relevância e inovar, nesse contexto, também é uma questão ética e relacional

Edmar Bulla

Fundador da Croma e estrategista de inovação e comportamento 17 de março de 2026 - 14h00

Estamos presenciando uma mudança no consumo que não é apenas circunstancial. Ela revela uma transformação estrutural na forma como as pessoas se relacionam com as marcas. O shopper não é mais passivo nem tolerante a discursos publicitários vazios. Ele chega às prateleiras físicas e digitais munido de dados, repertório, senso crítico e, sobretudo, consciência de poder. Não quer ser convencido por narrativas fabricadas, mas ser respeitado por marcas que entendam sua realidade, seus valores e seu tempo.

O marketing de persuasão está dando lugar ao marketing de relevância. Tecnologias, big data e análise preditiva deram às empresas a capacidade de conhecer profundamente seus públicos, mas conhecer não basta. O consumidor espera que esse conhecimento seja usado para entregar experiências úteis, personalizadas e coerentes e não mais para bombardear com ofertas irrelevantes em um ruído publicitário contínuo. Respeito, nesse contexto, é sinônimo de contexto: falar a coisa certa, no momento certo, pelo canal certo.

No comportamento de compra, isso se traduz em jornadas cada vez mais não lineares. A compra começa no feed, passa pelo marketplace, ganha validação no review, é comparada no aplicativo e, muitas vezes, termina na loja física. Nesse percurso híbrido, o consumidor avalia não apenas preço e conveniência, mas também a postura da marca diante de temas como sustentabilidade, inclusão, privacidade de dados e responsabilidade social. Inovação, portanto, não é apenas tecnológica, mas é também ética e relacional.

O varejo que prospera nesse ambiente é o que entende que experiência se tornou parte central do valor oferecido. Lojas físicas passam a funcionar como espaços de experimentação, serviços e relacionamento. Ambientes digitais deixam de ser vitrines estáticas e se transformam em plataformas de interação. O shopper quer autonomia para escolher, flexibilidade para trocar e transparência para confiar. Programas de fidelidade evoluem para ecossistemas de valor, baseados em reconhecimento real e não apenas em descontos.

Outro vetor decisivo é o tempo. O consumidor não aceita mais fricção desnecessária. Processos lentos, cadastros intermináveis e atendimentos pouco resolutivos são interpretados como descolamento com a realidade e apropriação de um tempo considerado cada vez mais escasso. Por outro lado, marcas que resolvem problemas de forma rápida, empática e integrada conquistam algo mais valioso que a venda: a preferência. Em mercados saturados de opções, a lealdade nasce da experiência, não da propaganda.

Há ainda uma mudança profunda no papel do consumo na vida das pessoas. Comprar deixou de ser apenas um ato econômico para se tornar também uma extensão da identidade. O shopper escolhe marcas que refletem quem ele é ou quem deseja ser. Isso exige das empresas coerência entre discurso e prática. Não há mais espaço para greenwashing, promessas vazias ou posicionamentos oportunistas. A autenticidade passou a ser um ativo competitivo.

Respeitar o consumidor significa reconhecer sua inteligência, sua diversidade e sua complexidade. Significa oferecer escolhas em vez de empurrar produtos. Significa construir relações de longo prazo e não apenas capturar conversões. As marcas que compreendem essa mudança tendem a vender mais e, sobretudo, a ocupar um lugar legítimo na vida das pessoas. Nesse novo cenário, respeito não é apenas uma virtude. É uma estratégia de crescimento.