Opinião

O desafio de comunicar para mudar comportamentos

A mensagem como utilidade pública depende do estreitamento da distância entre técnica e experiência humana

Carlos Cyrino

Carlos Cyrino, diretor de comunicação empresarial da CPFL Energia 6 de agosto de 2026 - 6h00

Como transmitir uma mensagem de segurança ou utilidade pública de forma que ela realmente influencie o comportamento das pessoas? Essa é uma das questões mais complexas para marcas, instituições e profissionais de comunicação que atuam com prevenção e conscientização. Afinal, em tempos de hiperconexão, a informação isolada perdeu o poder de gerar ação.

Quando o assunto é a prevenção de acidentes – seja no trânsito, na saúde ou convivência com a infraestrutura urbana -, a realidade nos mostra que o acesso ao dado nem sempre se traduz em atitude. Profissionais de setores operacionais, trabalhadores autônomos ou cidadãos comuns frequentemente conhecem as regras básicas de segurança. Sabem o que é perigoso. Ainda assim, comportamentos de risco continuam sendo repetidos na rotina de trabalho ou dentro de casa. Não por ignorância, mas por um fenômeno psicológico conhecido: a normalização do risco e o viés de otimismo.

A experiência prática, a pressa do cotidiano e a falsa sensação de controle silenciam os alertas cognitivos. Quando o perigo se torna parte da paisagem, a percepção de risco diminui. Romper essa barreira de imunidade cognitiva e transformar o conhecimento passivo em comportamento ativo é o verdadeiro papel da comunicação moderna.

Para alcançar esse objetivo, a comunicação corporativa e institucional precisa, em primeiro lugar, descer do pedestal técnico. Durante muito tempo, campanhas de prevenção priorizaram uma linguagem normativa, professoral e focada em proibições. Embora o rigor técnico seja fundamental na base de qualquer operação, ele raramente estabelece conexão emocional ou dialoga com a realidade prática do público-alvo.

A comunicação voltada à mudança de hábitos exige empatia linguística e adequação de canais. É preciso falar a língua da rotina do indivíduo, despertando a atenção através do afeto, do humor, da identificação e, acima de tudo, do storytelling. Recursos multicanais, como narrativas humanizadas, linguagem visual dinâmica, conteúdos no formato snackable content (curtos, ágeis e visualmente atraentes para facilitar a interpretação e absorção das mensagens), o uso estratégico de influenciadores locais e criadores de nicho, humanizam o alerta e o mantém vivo na memória recente do público.

Além disso, a distribuição da mensagem precisa ser contextual. No ecossistema digital contemporâneo, a prevenção deve estar inserida organicamente nos ambientes de busca e aprendizagem informal de cada comunidade. Estar presente nas redes sociais e plataformas de busca onde o profissional autônomo ou o cidadão comum busca tutoriais, dicas ou entretenimento é uma forma de converter a dúvida prática de um momento em uma oportunidade perene de aprendizado e segurança.

Na era da economia da atenção, emitir uma mensagem correta já não basta. O grande desafio das lideranças de comunicação é construir ecossistemas de mensagens que provoquem reflexão interna e desencadeiem escolhas seguras e voluntárias.

Quando a comunicação consegue estreitar a distância entre o dado técnico e a experiência humana diária, ela deixa de ser mera publicidade de utilidade pública. Ela assume seu papel mais nobre: o de arquiteta de uma cultura de cuidado coletivo, onde o comportamento seguro deixa de ser uma imposição burocrática para se tornar um hábito natural