No SXSW EDU, uma idéia incômoda sobre por que estamos tão cansados
Entre IA e futuro do trabalho, há uma reflexão sobre a necessidade humana de sentir que importa
No primeiro dia de SXSW EDU, saí de uma palestra com aquele tipo de desconforto que eu gosto: quando uma ideia começa a ecoar na cabeça e não vai embora.
Sabe quando você ouve algo aparentemente simples, mas que, de repente, ajuda a organizar um monte de sensações que já estavam ali, meio difusas? Foi exatamente essa a sensação.
Na apresentação da pesquisadora Jennifer Wallace (jornalista, autora e pesquisadora americana), ouvi um conceito que parece óbvio, mas explica muito do que estamos vivendo hoje. Ela chamou de “mattering” a necessidade humana de sentir que importamos.
Pode soar trivial. Mas, segundo Wallace, ao longo das últimas décadas fomos expostos, muitas vezes sem perceber, a três narrativas silenciosas que moldam profundamente a forma como nos enxergamos e como medimos nosso próprio valor.
Se eu sou o que tenho, preciso sempre ter mais.
Se eu sou o que faço, preciso sempre conquistar mais.
Se eu sou o que os outros dizem sobre mim, preciso ser perfeito.
São ideias que atravessam cultura, trabalho, redes sociais e expectativas familiares. Narrativas que parecem naturais, mas que criam uma lógica permanente de comparação, desempenho e validação externa.
Se somos o que temos, nunca é suficiente. Se somos o que fazemos, precisamos sempre entregar mais. Se somos o que os outros dizem sobre nós, então qualquer imperfeição vira ameaça.
Talvez isso ajude a explicar por que tanta gente anda esgotada e, paradoxalmente, cada vez mais sozinha.
Caminhando pelos corredores do evento, a maior parte das conversas gira em torno de inteligência artificial, automação e do futuro do trabalho. As discussões são fascinantes: novas tecnologias, novos modelos de produção, novas profissões surgindo enquanto outras desaparecem.
Mas a fala de Wallace trouxe uma pergunta que ficou ressoando por trás de tudo isso: em um mundo cada vez mais automatizado, eficiente e orientado por dados, como garantir que as pessoas continuem sentindo que importam?
Não é uma questão pequena.
À medida que as máquinas assumem mais tarefas, o valor humano tende a ser medido cada vez mais pela performance, produtividade e capacidade de adaptação. E justamente nesses ambientes hipercompetitivos o sentimento de invisibilidade cresce.
Talvez por isso o conceito de “mattering” seja tão potente. Ele desloca a conversa do “quanto você produz” para algo mais fundamental: você é visto? Sua presença faz diferença para alguém?
E, possivelmente, esse seja um dos grandes desafios da próxima década, não apenas para a educação, mas para qualquer profissão, empresa ou liderança. Nenhuma inovação tecnológica substitui algo que continua sendo profundamente humano: a necessidade de sentir que nossa presença importa.