Mulheres negras são apenas 5% do C-level da indústria
Censo do ODC mostra que mulheres são 64% dos profissionais do setor, mas poucas chegam aos cargos mais altos
A terceira edição do Censo da Diversidade na Indústria da Comunicação, realizado pelo Observatório da Diversidade na Comunicação (ODC) com a Quantas, aponta que 64% dos profissionais do setor no Brasil são mulheres. A proporção é superior à participação feminina na população brasileira, de 52%, segundo o Censo 2022 do IBGE.
Apesar disso, enquanto as mulheres brancas representam 43% da indústria, as profissionais negras correspondem a 19%, diante de uma participação de aproximadamente 28% no Brasil. Elas também são 24% dos profissionais que não ocupam cargos de liderança e fazem parte de apenas 5% dos integrantes do C-level.
O movimento é inverso ao observado entre homens brancos, que passam de 20% na base para 50% no principal escalão executivo.
O levantamento ouviu 2.908 profissionais, de todos os níveis, do estágio ao C-level, entre julho e setembro de 2026, e ampliou seu alcance em relação às edições anteriores. Agora há oito segmentos da indústria contemplados, além das agências de publicidade. São eles assessoria de imprensa e relações públicas; empresas de comunicação interna; agências de marketing promocional; agências de influência; produtoras de conteúdo ou audiovisual; anunciantes e companhias de mídia OOH.
Desigualdade hierárquica
A desigualdade também aparece quando se observa a distribuição dos profissionais por nível hierárquico. Embora as mulheres representem 64% dos profissionais que não ocupam cargos de liderança e 70% da gerência, elas são 62% da diretoria e apenas 46% do C-level. Ou seja, a maioria feminina se perde na passagem para o principal espaço de decisão das empresas.
O recorte racial aprofunda esse cenário. Entre os profissionais negros, a participação cai de 38% entre os não líderes para 22% na gerência, 16% na diretoria e apenas 9% no C-level. Quando gênero e raça são analisados conjuntamente, a distância fica ainda mais expressiva. Mulheres negras passam de 24% na base para 13% na gerência, 8% na diretoria e 5% no C-level.
Já as mulheres brancas representam 38% dos profissionais não líderes, 54% da gerência, 52% da diretoria e 40% do C-level. Os números evidenciam que a presença feminina não é homogênea e que as oportunidades de ascensão são distribuídas de maneira diferente conforme a raça.
A baixa presença de pessoas com deficiência
Outro indicador que chama a atenção no levantamento é a participação de pessoas com deficiência (PCDs). Elas representam apenas 4% dos profissionais da indústria da comunicação, proporção inferior aos 7% registrados pelo IBGE na população brasileira com 18 anos ou mais.
A comparação, entretanto, exige cautela. O instituto considera pessoas com grande dificuldade ou impossibilidade de realizar determinadas atividades, enquanto a pergunta do Censo da Diversidade adota uma definição mais ampla de deficiência.
A baixa representatividade permanece praticamente estável entre os diferentes níveis hierárquicos. As pessoas com deficiência correspondem a 4% dos profissionais não líderes, 5% da gerência, 4% da diretoria e 4% do C-level. Diferentemente do observado no recorte racial, o levantamento não identifica uma queda expressiva de participação à medida que se avança na hierarquia.
Ainda assim, a presença reduzida em todos os níveis aponta para um desafio de inclusão que começa no acesso ao mercado de trabalho.
Desafio está na ascensão profissional
A percepção dos profissionais da indústria reforça a necessidade de avançar para além das políticas de contratação. Para 25% dos entrevistados, o principal desafio do setor é aumentar a representatividade em cargos de liderança. Outros 24% apontam a necessidade de garantir oportunidades de crescimento para profissionais diversos. Já a ampliação da diversidade na contratação aparece em último lugar, mencionada por apenas 8%.
Entre as pessoas negras, a demanda por representatividade nos cargos de liderança é ainda maior. 29% apontam esse aspecto como o principal desafio. Entre os profissionais não heterossexuais, o percentual chega a 31%. Na avaliação das mulheres, 25% também destacam o ponto como prioridade.
A percepção sobre os avanços da agenda também varia conforme o grupo. Enquanto 14% do conjunto dos entrevistados consideram que a indústria retrocedeu em diversidade e inclusão nos últimos anos, esse índice chega a 20% entre profissionais negros e 25% entre pessoas LGBTs. O levantamento indica, assim, que quem está fora do perfil majoritário tende a ter uma avaliação mais crítica sobre a evolução do setor.
Apesar de 94% dos participantes considerarem diversidade e inclusão fundamentais ou importantes para o sucesso das empresas de comunicação, apenas um 1 cada 4 acredita que a indústria avançou muito no tema.