CULTURA

Os livros que marcaram CEOs em 2026

Executivas de Amazon, Coca-Cola, WMcCann e outras indicam obras que provocaram reflexões ao longo do ano

i 29 de outubro de 2026 - 17h17

Há livros que terminam na última página e outros que ecoam muito depois da leitura. Nas entrelinhas, encontramos perguntas que ainda não sabíamos formular, ideias que desafiam nossas certezas e novas maneiras de enxergar o mundo e a nós mesmos. Para quem lidera, essas descobertas podem ganhar novos significados e inspirar escolhas, moldar relações e apontar caminhos possíveis em meio a incertezas.

A pedido de Women to Watch, lideranças de marcas como Coca-Cola, Amazon, Audible, WMcCann e BETC Havas compartilharam os livros que provocaram reflexões sobre carreira, gestão e vida pessoal ao longo do ano. As indicações vão de biografias e obras de negócios a romances e ensaios sobre tecnologia.

Nos depoimentos, aparecem temas que atravessam o momento da liderança, como identidade e pertencimento, o desenvolvimento das pessoas, a convivência entre gerações, o diálogo entre culturas e a coragem de reconhecer as próprias fragilidades. O que se lê a seguir é um retrato de como essas mulheres pensam o próprio papel. Nele, liderar tem menos a ver com ter todas as respostas e mais com escutar, aprender com o diferente e abrir caminho para outras pessoas.

Adriana Alcântara, diretora-geral da Audible no Brasil

Adriana Alcântara, diretora-geral da Audible no Brasil (Crédito: Divulgação)

Adriana Alcântara, diretora-geral da Audible no Brasil, indica “10 to 25”, de David Yeager (Crédito: Divulgação)

“10 to 25”, de David Yeager

Entre um trajeto e outro, do trabalho para casa ou a caminho de uma reunião ou almoço com amigos, consegui encaixar na minha rotina a oportunidade de ficar imersa nesta obra que me provocou reflexões profundas sobre desenvolvimento humano, empatia e evolução da gestão. Tendo como ponto de partida a ciência sobre a mente e as motivações da juventude, o audiolivro me fez pensar nos aprendizados intergeracionais. Seja numa interação durante o caminho para a escola ou numa conversa mais difícil com minha filha adolescente em casa, é possível identificar como alguns aprendizados podem se traduzir de forma muito poderosa no ambiente corporativo e para a liderança de profissionais de diferentes gerações.

Estar à frente de um negócio dinâmico exige compreender de verdade as aspirações tanto de quem está começando a construir a carreira quanto de quem já tem uma sólida trajetória profissional. Muitas vezes, o mercado comete o erro de tentar enquadrar as novas gerações em modelos antigos de cobrança ou, no extremo oposto, de subestimar seu potencial. O audiolivro reforça o valor de uma postura de mentoria genuína ao manter a régua alta de excelência e ambição, mas oferecer o suporte, a escuta ativa e o espaço de segurança necessários para que as pessoas arrisquem e cresçam. O que vale para pessoas de todas as idades. Ele me inspirou a calibrar como dou feedbacks, a substituir julgamentos por curiosidade e a valorizar a visão fresca que os talentos mais jovens trazem para a mesa. Em um cenário de constantes transformações, liderar não é impor certezas, mas criar pontes entre experiências diferentes para construir futuros mais inovadores

Camila Nakagawa, CEO e copresidente da BETC Havas

Camila Nakagawa, CEO e copresidente da BETC HAVAS (Crédito: Divulgação)

Camila Nakagawa, CEO e copresidente da BETC Havas, indica “Bom Dia, Inverno”, de Tamara Klink (Crédito: Divulgação)

“Bom Dia, Inverno”, de Tamara Klink

O livro conta a experiência dela passando um inverno sozinha no Ártico mas, para mim, vai muito além de uma história de aventura. É uma reflexão muito interessante sobre coragem, resiliência, disciplina e, principalmente, sobre a capacidade de tomar decisões em situações em que não temos controle sobre tudo. Acho que existe uma conexão muito forte de ‘Bom Dia, Inverno’ com o mundo da liderança: estamos o tempo todo lidando com mudanças, incertezas e decisões difíceis, muitas vezes sem ter todas as respostas. O que mais me marcou foi justamente essa ideia de que não podemos controlar o que acontece à nossa volta, mas podemos controlar como nos preparamos e como reagimos. E também a importância de saber estar sozinha com as próprias decisões, algo que faz muito parte da vida de quem lidera.

Ingrid Spyker, CEO e cofundadora da Creators Brand

Ingrid Spyker, CEO e cofundadora da Creators Brand indica “Multiplicadores: Como os bons líderes valorizam você”, de Liz Wiseman e Greg McKeown (Crédito: Divulgação)

Ingrid Spyker, CEO e cofundadora da Creators Brand, indica “Multiplicadores: Como os bons líderes valorizam você”, de Liz Wiseman e Greg McKeown (Crédito: Divulgação)

“Multiplicadores: Como os bons líderes valorizam você”, de Liz Wiseman e Greg McKeown

O livro me fez refletir sobre como a liderança pode ampliar, ou, mesmo sem intenção, limitar a capacidade das pessoas ao nosso redor. A ideia que mais ficou comigo foi a de que liderar não significa concentrar as respostas e as decisões, mas criar condições para que cada pessoa pense, contribua e desenvolva seu potencial. A obra apresenta um modelo de gestão baseado em reconhecer talentos, estimular a autonomia, fazer boas perguntas e desafiar as equipes a encontrar soluções.

Essa leitura dialogou com algo que já faz parte da minha essência como líder. Sempre acreditei que as pessoas se desenvolvem por meio do diálogo, da escuta e de relações de confiança. Os números e indicadores são indispensáveis para acompanhar o negócio e orientar decisões. Mas são as pessoas que transformam estratégia em resultado. O livro me ajudou a olhar com ainda mais atenção para o efeito que meu estilo de liderança tem sobre a autonomia, a iniciativa e o crescimento de quem está comigo. Indico a leitura a quem lidera equipes ou deseja construir uma gestão que combine desempenho e desenvolvimento humano. É uma reflexão importante sobre como fazer o negócio crescer ampliando também o potencial das pessoas.

Juliana Sztrajtman, presidente da Amazon

Juliana Sztrajtman, presidente da Amazon.com.br indica “Minha Vida por Inteiro”, de Indra Nooyi (Crédito: Divulgação)

Juliana Sztrajtman, presidente da Amazon, indica “Minha Vida por Inteiro” (Crédito: Divulgação)

“Minha Vida por Inteiro”, de Indra Nooyi

A leitura de ‘Minha Vida por Inteiro’, autobiografia de Indra Nooyi, traz reflexões sobre liderança e os múltiplos papéis que desempenhamos. O que mais me impressiona na obra é a honestidade ao tratar da complexidade de construir uma trajetória de sucesso sem deixar de lado as relações pessoais e os valores que nos sustentam. Acredito que liderar exige reconhecer que não existem fórmulas prontas. É um exercício diário de escolhas conscientes, aprendizado contínuo e, acima de tudo, a compreensão de que o sucesso não está apenas no resultado, mas na forma como chegamos até ele e no impacto que geramos nas pessoas. Em um ambiente de constantes transformações, a história de Indra reforça que a capacidade de adaptação e a construção de laços de confiança são os verdadeiros pilares de uma carreira sustentável.

Luciana Batista, presidente da Coca-Cola Brasil

Luciana Batista, presidente da Coca-Cola Brasil indica “The Culture Map”, de Erin Meyer (Crédito: Divulgação)

Luciana Batista, presidente da Coca-Cola Brasil, indica “The Culture Map”, de Erin Meyer (Crédito: Divulgação)

“The Culture Map”, de Erin Meyer

Sempre tive curiosidade em entender como diferentes culturas influenciam a forma como enxergamos o mundo, nos relacionamos e fazemos negócios. Esse interesse me acompanha desde o início da carreira e ganhou um novo significado com a leitura de ‘The Culture Map’, de Erin Meyer. O livro trouxe reflexões sobre como as particularidades culturais influenciam nossas relações profissionais, a comunicação e a maneira como lideramos. Hoje, à frente da Coca-Cola no Brasil e em contato com equipes de diferentes países, vejo como compreender essas diferenças é essencial para construir relações e colaborar em uma companhia global. Isso exige escuta, abertura e sensibilidade para reconhecer diferentes perspectivas e construir soluções melhores. A leitura me fez revisitar algo que sempre esteve presente nas minhas escolhas, que é a vontade de aprender com o diferente. Foi um lembrete de que seguimos em constante desenvolvimento e de que algumas das perguntas que nos moviam no início da carreira continuam importantes para definir quem somos como líderes.

Marina Sousa, diretora executiva da MSP Estúdios

Marina Sousa, diretora executiva da MSP Estúdios indica “Accountability”, de Julia Gianzanti (Crédito: Lucas Ramos)

Marina Sousa, diretora executiva da MSP Estúdios, indica “Accountability”, de Julia Gianzanti (Crédito: Lucas Ramos)

“Accountability”, de Julia Gianzanti

A leitura me fez pensar em como a posição de liderança pode nos afastar da percepção sobre o nosso próprio papel em um problema. Quando algo não sai como esperado, é fácil olhar primeiro para a entrega da equipe, mas será que a orientação foi clara? Houve espaço para alguém discordar ou dizer que precisava de ajuda? Para mim, a contribuição do livro está nesse convite a incluir a si mesma na análise. Em um estúdio criativo, estrutura a qual lidero, isso ganha um sentido especial, porque as pessoas precisam de liberdade para propor e segurança para falar sobre o que deu errado. A responsabilidade de quem lidera também está em criar esse ambiente e reconhecer quando precisa rever o caminho.

Michelle de Paula, CEO da Zest

Michelle de Paula, CEO da Zest (Crédito: Divulgação)

Michelle de Paula, CEO da Zest (Crédito: Divulgação)

“O monge, o iogue e o faquir”, de Ronaldo Lemos, e “Saber conversar na era da IA”, de Laura Trachtenberg Hauser

Este ano decidi deixar de apenas observar a inteligência artificial e passei a estudá-la de verdade. Fiz cursos, testei ferramentas, criei meus agentes e, no meio desse mergulho técnico, encontrei dois livros que acabaram funcionando como contrapeso e também como complemento um do outro. Em ‘O monge, o iogue e o faquir’, Ronaldo Lemos usa três arquétipos para falar da nossa relação com as emoções, a mente e o corpo, e de como as plataformas digitais aprenderam a conversar com os três ao mesmo tempo, fortalecendo um lado enquanto enfraquecem o outro.

Já ‘Saber conversar na era da IA’, Laura Trachtenberg Hauser, uma querida amiga, parte de uma inquietação parecida para defender algo que parece simples, mas anda cada vez mais raro: a conversa como espaço de dúvida, de escuta e de convivência com o diferente, o oposto da lógica algorítmica que só confirma o que já pensamos, algo que vivenciamos na pele nos últimos meses com a polarização política, o diálogo entre os extremos é impossível enquanto os algoritmos só te entregam conteúdos que validam seu viés.

Lidos juntos, os dois mudaram a forma como encaro a tecnologia no trabalho. Entendi que dominar a IA não é somente uma questão de produtividade e que a pergunta mais importante não é o que a máquina pode fazer por mim, mas o que eu não quero terceirizar. Saber dialogar e ter um time multidisciplinar e diverso nos ajuda a ter visões diferentes do trabalho e entregas muito ricas e valiosas no nosso dia a dia. Na vida pessoal, passei a prestar mais atenção ao equilíbrio entre corpo, mente e emoção, e a perceber quando estou no automático, gosto de ficar off das redes sociais por um tempo e isso é muito importante para o dar foco naquilo que realmente importa, ter mais tempo para o convívio social, cada vez mais escasso hoje em dia. A área agêntica veio para ficar, o que preservamos de humano diante dela continua sendo uma escolha nossa. Esses dois livros me lembraram disso no momento certo.

Monalisa Gomes Muehlboeck, global account manager da Delfort

Monalisa Gomes Muehlboeck, global account manager da Delfort indica“Quando os pássaros voam para o sul", de Lisa Ridzén (Crédito: Divulgação)

Monalisa Gomes Muehlboeck, global account manager da Delfort indica “Quando os pássaros voam para o sul”, de Lisa Ridzén (Crédito: Divulgação)

“Quando os pássaros voam para o sul”, de Lisa Ridzén

É a história de um homem no fim da vida, no interior da Suécia, que vê o controle sobre a própria rotina passar aos poucos para o filho e para as cuidadoras que entram e saem da casa dele. Ele resiste, negocia, cede no que importa menos e segura o que importa mais. Ele chegou no meu quinto ano na Áustria, depois de ter sido CEO e CFO e de ter levado minha carreira para o mercado global. Ler esse romance em alemão, a língua do país que escolhi, foi parte da mesma decisão: construir raízes onde estou, e não só trabalhar aqui.

Acabou sendo o livro de negócios que eu não esperava ler. Passei o ano em negociações globais longas, com contrapartes muito bem preparadas, e Ridzén me lembrou de algo que manual nenhum ensina: quem tenta controlar tudo costuma perder justamente o que mais importa. A força está em decidir antes onde ceder e do que não abrir mão, e sustentar isso sob pressão. Os estoicos chamavam de separar o que depende de nós do que não depende. Na liderança, o risco é o inverso, e o livro mostra isso, o filho quer proteger o pai e, por isso, passa a decidir por ele. É o que acontece com times protegidos demais. Saí da leitura mais paciente com o tempo dos outros e mais clara sobre o que é inegociável para mim.

Renata Bokel, CEO da WMcCann

Renata Bokel, CEO da WMcCann, indica “Ioga”, de Emmanuel Carrère, e “The Woman I Wanted to Be”, de Diane von Furstenberg (Crédito: Divulgação)

Renata Bokel, CEO da WMcCann, indica “Ioga”, de Emmanuel Carrère, e “The Woman I Wanted to Be”, de Diane von Furstenberg (Crédito: Divulgação)

“Ioga”, de Emmanuel Carrère, e “The Woman I Wanted to Be”, de Diane von Furstenberg

À primeira vista, são histórias muito diferentes. De um lado, um escritor francês que parte em busca de equilíbrio e autoconhecimento, mas acaba confrontado com a depressão, suas contradições e os limites da própria mente. Do outro, uma mulher icônica que construiu uma trajetória extraordinária na moda, marcada pela independência, pela ambição, pelos erros e pela capacidade de se reinventar. O que conecta essas duas histórias, para mim, é a maneira sincera, direta e surpreendentemente lúcida com que ambos lidam com suas próprias fragilidades.

Quero deixar claro que nenhum dos dois glorifica o fracasso, não é sobre isso. Também não procuram justificar todas as escolhas, nem oferecer grandes lições sobre a vida. Por isso talvez eu tenha me interessado pelas duas histórias. Ambos reconhecem suas vulnerabilidades como parte de quem são, sem querer uma medalha por isso. Vivemos em uma sociedade que valoriza a segurança e a capacidade de ter respostas para tudo. Muitas vezes, confundimos força com a necessidade de demonstrar controle permanente sobre nossas vidas. O que é claramente impossível. Esses dois livros me fizeram refletir sobre o contrário. Sobre como o autoconhecimento começa quando conseguimos olhar para nossas imperfeições com honestidade, sem necessariamente precisar corrigi-las ou justificá-las o tempo todo.

Carrère me mostrou que nem sempre conseguimos ser quem gostaríamos. Diane me lembrou que podemos continuar construindo quem desejamos ser. Talvez a grande lição dessas duas leituras seja que a coragem não está em não ter fragilidades, mas em reconhecê-las sem permitir que elas nos definam. E que amadurecer tem menos a ver com encontrar todas as respostas e mais com aprender a fazer perguntas melhores sobre nós mesmos.

Tatiana Marinho, CEO da Gana

Tatiana Marinho, CEO da Gana, indica “Minha História”, de Michelle Obama (Crédito: Divulgação)

Tatiana Marinho, CEO da Gana, indica “Minha História”, de Michelle Obama (Crédito: Divulgação)

“Minha História”, de Michelle Obama

Um livro que li em 2026 e que me trouxe importantes reflexões sobre carreira, liderança e propósito foi ‘Minha História’, de Michelle Obama. É uma narrativa sobre identidade, escolhas, pertencimento e a coragem de construir o próprio caminho sem abrir mão de quem somos. O que mais me conecta a essa obra é a compreensão de que nossas trajetórias não são construídas individualmente. Elas carregam histórias, referências, oportunidades e também barreiras que precisamos enfrentar e transformar. Na minha visão, liderar tem muito a ver com isso: reconhecer de onde viemos, ter clareza sobre onde queremos chegar e entender a responsabilidade que temos de abrir caminhos para outras pessoas.

O livro ainda reforça algo em que acredito profundamente: não precisamos escolher entre excelência e autenticidade, entre ambição e sensibilidade ou entre resultados e impacto coletivo. É possível construir uma carreira relevante sem abrir mão dos nossos valores e da nossa identidade. Especialmente em uma indústria como a comunicação, que tem o poder de influenciar narrativas e comportamentos, acredito que precisamos de lideranças capazes de ampliar perspectivas, desafiar padrões e transformar representatividade em poder real de decisão. Para mim, sucesso não é apenas chegar a determinados lugares, mas contribuir para que esses espaços sejam diferentes depois da nossa passagem. E talvez essa seja uma das maiores provocações desse livro: entender que nossa história ganha ainda mais significado quando ajuda a transformar a história de outras pessoas.