Opinião WW

Violência de gênero aumenta os índices de mulheres com deficiência

No mês dedicado às conquistas da mulher, precisamos continuar indignadas com as notícias e com mecanismos que não funcionam para nos proteger

Carolina Ignarra

CEO e fundadora do Grupo Talento Incluir 6 de março de 2026 - 9h59

(Crédito: Shutterstock)

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“Enfrentar a violência contra a mulher é enfrentar a desigualdade social”. Esta frase é da minha convidada para este artigo, a Maria da Penha, a mulher que dá nome à Lei nº 11.340, de 7 de agosto de 2006, que cria mecanismos para prevenir, coibir e erradicar a violência contra a mulher.

No mês dedicado às conquistas da mulher, precisamos continuar indignadas com as notícias, cada vez mais frequentes, e com mecanismos que não funcionam para nos proteger. Maria da Penha Maia Fernandes sobreviveu à tentativa de feminicídio, adquiriu deficiência permanente por conta dessa violência e teve seu caso reconhecido internacionalmente como exemplo da omissão do Estado brasileiro diante da violência doméstica.

A violência contra a mulher é sobre direitos humanos, desigualdade social, futuro e suas consequências ainda tão invisibilizadas. Ela produz, de forma direta, um aumento no número de mulheres com deficiência no Brasil, e isso impacta profundamente sua autonomia, sua renda e sua possibilidade de existir com dignidade.

Como bem lembrou Maria da Penha, a violência contra a mulher não é um problema privado, não é um conflito doméstico e não pode ser naturalizada ou silenciada. Desde a criação da Lei Maria da Penha, o Brasil avançou ao reconhecer a violência contra a mulher como uma violação de direitos humanos. No entanto, como a própria Maria da Penha alerta, a lei sozinha não basta.

As tentativas de feminicídio não produzem apenas dor momentânea. Elas atravessam o corpo, a saúde física e mental, a autonomia, o trabalho, a renda e o futuro de muitas mulheres. Além disso, impactam no futuro de seus filhos. Como bem lembra Maria da Penha, “o impacto da violência não termina no momento da agressão”.

O estudo da UFC (Universidade Federal do Ceará) indica que, a cada mulher assassinada, três crianças ficam órfãs. Muitas vezes, elas não recebem o atendimento psicossocial necessário e crescem marcadas pela perda, pelo abandono e pela insegurança.

Mulheres que sobrevivem a espancamentos, esfaqueamentos, disparos de arma de fogo e outras agressões graves e absurdas frequentemente adquirem deficiências físicas, sensoriais ou psicossociais. São sequelas que poderiam ter sido evitadas se o ciclo da violência tivesse sido interrompido. São as muitas “Marias da Penha” de todos os dias, que carregam no corpo e na mente as marcas de um sistema que falhou em protegê-las.

A Pesquisa Nacional de Violência contra a Mulher, do DataSenado 2025, mostra que 27% das brasileiras já sofreram violência provocada por um homem ao longo da vida. Isso significa que cerca de 3,7 milhões de mulheres sofreram algum tipo de agressão. Mais da metade das entrevistadas (58%) afirmaram conviver com situações de violência há mais de um ano, o que evidencia a persistência do ciclo de agressões e a dificuldade de rompimento desses vínculos.

Impactos da violência de gênero

Em muitos casos, o medo, a dependência econômica e a ausência de redes de apoio impedem que as vítimas consigam interromper o ciclo. Não bastasse tanta violência, essa mulher ainda tem que aprender a conciliar o tripé de sobrevivência para seguir a vida, o que exige equilíbrio constante entre saúde física, emocional e social.

Maria da Penha é enfática ao lembrar que, todos os dias, todas nós corremos esse risco, simplesmente por sermos mulheres. A violência de gênero não escolhe classe social, escolaridade ou território, mas seus efeitos são ainda mais cruéis quando encontram um país profundamente desigual.

Só quem sofreu na pele e na alma pode afirmar que o impacto da violência atravessa o corpo, a saúde, a autonomia, o trabalho, a renda e o futuro da mulher e de seus filhos. Aquelas que seguem vivas enfrentam um novo ciclo de exclusão, agora marcado pela deficiência adquirida em um contexto de violência de gênero.

As dificuldades aumentam no cenário do trabalho. Muitas dessas mulheres tiveram suas carreiras interrompidas por homens violentos. Outras jamais conseguiram se inserir formalmente no mercado. Ainda temos empresas pouco preparadas para acolher mulheres com deficiência, especialmente aquelas que trazem histórias de violência. Há desconhecimento, falta de adaptações razoáveis, ausência de políticas de acolhimento e cuidado em meio à pressão da produtividade acima de tudo. O resultado é um cenário de dependência financeira, subemprego, informalidade e pobreza, que retroalimenta o ciclo da violência.

Ciclo da violência

Kátia Regina Pereira infelizmente é uma delas. Achei importante trazer sua história para que cada mulher possa se reconhecer, entender, ser acolhida e acolher outras mulheres que têm a vida marcada por sequelas de violência que nunca foram em nome do amor.

Após 17 anos de relacionamento com o pai de sua filha, em 2022, ela reconheceu que vivia uma relação abusiva. Na sequência, veio a violência extrema por parte dele contra ela, resultando em lesões graves que a tornaram uma mulher com deficiência, levando-a à paraplegia e ao uso permanente de cadeira de rodas. Kátia ficou cinco meses internada no hospital e outros cinco em reabilitação até retornar ao trabalho.

“Nesse período, percebi algo muito marcante: eu passava mais tempo reabilitando minha mente e minha alma do que o corpo físico. Precisei reconstruir minha autoestima, minha identidade e minha sensação de segurança. Aprendi a nomear sentimentos, aceitar dias difíceis e, principalmente, a me perdoar por não ter conseguido sair antes daquela relação”, conta ela.

Mesmo com a violência confirmada e com a condenação criminal do agressor, ela ainda teve que enfrentar desafios inacreditáveis no sistema jurídico. Um deles, por exemplo, foi esperar por dois anos para a justiça conceder a ela a guarda definitiva da sua filha.

Outro absurdo: o processo criminal foi concluído, mas seu divórcio ainda segue em outra esfera: a civil. Kátia continua lutando pelos seus direitos de estar legalmente separada do homem que quase a matou. Isso só comprova que o caminho da vítima não termina com a denúncia. Muitas batalhas continuam por anos.

E não é só isso. Kátia relembra o período emocionalmente muito desafiador que precisou atravessar, porque além da recuperação física e psicológica, também precisava garantir segurança e estabilidade da filha, reconstruindo a vida das duas com autonomia e proteção.

Sob o ponto de vista profissional, Kátia reconhece seu privilégio de trabalhar em uma empresa que já tratava a inclusão como um valor antes mesmo de ela se tornar uma pessoa com deficiência. Hoje ela é diretora de remuneração e benefícios dessa companhia multinacional do setor de alimentos. A deficiência acabou impulsionando mudanças importantes dentro da organização, como ajustes nas políticas de viagens corporativas e adequações específicas no ambiente de trabalho para garantir acessibilidade.

Kátia deixa um recado potente para mulheres que podem estar enfrentando um ciclo de violência velada: “Você não está sozinha. A violência nunca é culpa sua. Ela vem disfarçada de cuidado ou proteção, e por isso pode ser difícil reconhecer o que está acontecendo. Procure ajuda”.

Responsabilidade das empresas

É fato que a violência contra a mulher é um problema estrutural e o mercado de trabalho não pode se eximir de sua responsabilidade nesta pauta. As empresas  precisam reconhecer a interseccionalidade entre gênero, deficiência e violência; criar ambientes de trabalho seguros, acessíveis, livres de assédio, discriminação e capacitismo; ter políticas de acolhimento, confidencialidade e respeito à privacidade; flexibilidade, com jornadas adaptáveis e compreensão de afastamentos necessários para cuidados de saúde e familiares como instrumentos de equidade; promover autonomia econômica como estratégia de enfrentamento à violência, garantindo emprego digno, renda estável e oportunidades reais de desenvolvimento profissional e, finalmente, assumir compromisso público com a vida das mulheres.

A Lei Maria da Penha aponta o caminho, mas, como ela mesma reforça: “Esse caminho só se concretiza quando o Estado, a sociedade e as instituições assumem, de forma permanente, a responsabilidade de proteger a mulher.”

Para o mercado de trabalho, isso significa empresas assumindo um papel ativo na construção de ambientes mais inclusivos e humanos. Não há inclusão sem acolhimento, acessibilidade e compreensão das trajetórias atravessadas pela violência. Incluir mulheres com deficiência, especialmente aquelas impactadas pela violência doméstica, é uma responsabilidade social e um ato de justiça social.

A exemplo do que ocorreu com a Kátia Regina, o apoio corporativo fez toda a diferença na retomada de sua vida pessoal e emocional. Porém, sabemos bem que muitas mulheres não têm acesso a esse nível de suporte. Ainda existe uma lacuna significativa no apoio estrutural oferecido pelo Estado, principalmente na continuidade da proteção e na reconstrução da autonomia da vítima.

Maria da Penha tem muita razão ao afirmar que nenhuma estatística é apenas um número. “É preciso agir para prevenir, punir e erradicar a violência. Cada dado representa uma vida, uma história, um direito violado. A gente está com a impressão de que a violência contra a mulher só começou agora, que tem estampado diariamente as notícias na imprensa. A verdade é que é preciso interromper essa normalização dos crimes contra a mulher”.

Na era em que a ciência está trazendo esperanças e avanços rumo à cura da tetraplegia e pelas mãos de uma mulher brasileira, doutora Tatiana Sampaio, a cura da violência contra nós ainda parece distante. Transformar essa realidade exige mais que leis no papel. Exige compromisso real com a vida de todas as mulheres, em toda a sua diversidade.

Ligue 180 e denuncie toda e qualquer violência contra mulher à Central de Atendimento à Mulher, um serviço gratuito e disponível 24 horas por dia.