Qual é o impacto de um possível fim da taxa das blusinhas?
Entidades do varejo se manifestaram contra rumores do governo; medida pode alterar percepção de preços

No ano passado, governo arrecadou R$ 5 bilhões em imposto de importação com as encomendas internacionais, segundo a Receita Federal (Crédito: VicVa-shutterstock)
Na quinta-feira, 30 de abril, um protesto contra um possível fim da chamada “taxa das blusinhas”, imposto cobrado desde 2024 para compras internacionais realizadas de forma online, estendeu uma camiseta de 70 metros por 90 metros na Esplanada dos Ministérios, em Brasília, com a frase “Se baixar imposto para estrangeiro, tem que baixar para brasileiro”.
A ação foi organizada pela Coalizão Prospera Brasil e liderada pela Associação Brasileira de Varejo Têxtil. Antes, uma série de órgãos setoriais do varejo e da indústria se uniram em um manifesto sobre o tema.
“O setor produtivo brasileiro, trabalhadores e empresários, se une contra esta possibilidade, que ameaça uma série de conquistas do Brasil depois que estas plataformas de e-commerce passaram a pagar algum tipo de imposto no País – a partir de 2023, com o ICMS estadual e, em 2024, o imposto federal de importação”, aponta o texto que é assinado por 70 entidades.
Os rumores tomaram forma ainda no mês passado, quando veículos da imprensa repercutiram que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva teria consultado a equipe econômica do governo sobre o envio de uma medida provisória que zere a taxa das blusinhas.
A medida divide opiniões, inclusive, dentro do governo. Ministérios, como o da Fazenda e do Desenvolvimento, Indústria e Comércio, são contra o fim do imposto. A taxa das blusinhas foi sancionada em junho de 2024 e determinou a incidências de um imposto de 20% sobre compras internacionais de até US$ 50.
Até então, compras com essas características eram isentas para clientes de empresas participantes do programa Remessa Conforme, da Receita Federal, e incluiu plataformas como Amazon, Shopee e Shein.
Qual seria o impacto do fim da tarifa para o varejo?
Para o economista e professor de MBAs da FGV, Roberto Kanter, uma eventual medida que revogue a taxa das blusinhas teria efeito imediato na percepção de preço do consumidor e aumentaria a atratividade de plataformas internacionais, especialmente, para compras de baixo valor e itens de impulso.
“O ponto central é que o consumidor brasileiro compara preço final, prazo, conveniência e variedade. Quando a carga tributária cai, a comparação volta a favorecer com mais força os marketplaces internacionais”, explica Kanter.
A mudança também afetaria o varejo nacional de maneira desigual. Apesar de pressionada, grandes companhias com capacidade de gestão de sortimento, crédito próprio e operação omnichannel, teriam mais instrumentos para reagir. Já os pequenos e médios varejistas, que competem por preço, tendem a sentir mais.
“A revogação beneficiaria o consumidor no curtíssimo prazo, mas pressionaria margens, estoques, planejamento de compras e competitividade do varejo nacional no médio prazo. O varejo brasileiro teria de acelerar diferenciação por serviço, curadoria, entrega rápida, confiança, política de troca e relacionamento”, opina o professor de MBAs da FGV.
Uma mudança na tarifa também encontraria o setor em um momento sensível. Como explica Eduardo Yamashita, diretor de operações da Gouvêa Ecosystem: “Isso intensificaria ainda mais a pressão no varejo nacional, que já tem trabalhado com margens muito comprimidas, por conta do cenário de consumo fragilizado que temos visto, especialmente, nos últimos dois anos”.
O balanço da taxa das blusinhas
No acumulado de 2025, o governo arrecadou o valor recorde de R$ 5 bilhões em imposto de importação com as encomendas internacionais. Os dados são da Secretaria da Receita Federal. No ano anterior, 2024, a arrecadação totalizou R$ 2,88 bilhões.
Apesar do recorde de arrecadação, o ano marcou uma queda nas remessas do exterior. Em 2025, foram 165,7 milhões de encomendas, contra 189,15 milhões de 2024. Para a Receita, a queda se deve ao fim do fracionamento e o aumento da compra de produtos nacionais.
Em outubro do ano passado, uma pesquisa encomendada pela Confederação Nacional da Indústria (CNI) à Nexus mostrou que aumentou de 13% para 38% a quantidade de consumidores brasileiros que desistiu de efetuar uma compra internacional por conta das taxas.
Já no cenário competitivo do varejo, Kanter explica que as plataformas internacionais se adaptaram ao novo ambiente regulatório por meio da nacionalização de parte das suas operações.
“Ao incorporar vendedores locais, essas empresas deixaram de ser apenas concorrentes externos e passam a atuar como infraestrutura de distribuição dentro do Brasil. A competição, portanto, deslocou-se de uma lógica de ‘produto importado mais barato’ para uma lógica de ‘plataforma que concentra demanda, oferta e dados’”, descreve Kanter.
Nesse sentido, para o economista, a taxa ajudou a reduzir parte da assimetria tributária, mas não gerou um ganho estrutural automático para as companhias brasileiras. “O consumidor que deixou de comprar fora não necessariamente migrou integralmente para o varejo local. Em muitos casos, ele simplesmente adiou a compra, reduziu consumo ou buscou alternativas promocionais”, afirma.
O diretor de operações da Gouvêa Ecossystem concorda com o efeito limitado. “A taxação trouxe o tema da isonomia competitiva para o debate, o que foi muito positivo. Mas, isoladamente, só a taxação não resolve o problema. O varejo continua muito pressionado por fatores estruturais com a renda disponível das famílias comprometida, crédito caro, custos elevados e o alto endividamento das famílias”.

