Comunicação

Confira os anunciantes mais punidos pelo Conar em 2025

Embates concorrenciais entre empresas das indústrias farmacêutica e de bebidas determinam primeiras posições no ranking elaborado por Meio & Mensagem

i 23 de fevereiro de 2026 - 12h15

O Conar considerou que a campanha “Chutou o balde? Epocler busca” encoraja excessos gastronômicos e etílicos

O Conar considerou que a campanha “Chutou o balde? Epocler busca” encoraja excessos gastronômicos e etílicos

Fabricantes de medicamentos e cervejas lideram o ranking dos anunciantes mais punidos pelo Conselho Nacional de Autorregulamentação Publicitária (Conar), as sanções determinadas nos julgamentos realizados em 2025.

Na liderança do ranking, a Hypera Pharma teve sete das oito decisões desfavoráveis motivadas por representações feitas por suas concorrentes Opella e Haleon. A maioria das punições sofridas pela Heineken, que ficou na segunda colocação, com cinco penalizações, foi gerada por reclamações feitas pela Ambev. Houve também casos mútuos envolvendo Haleon e Colgate-Palmolive. O ranking inclui, ainda, Haleon, com quatro penalizações, e Opella, Colgate-Palmolive, RD Saúde e Wellhub, com três cada.

Dados consolidados pela reportagem de Meio & Mensagem, a partir das informações publicadas no site do Conar, mostram que entre os 216 processos finalizados com penalizações destacam-se marcas do mercado de apostas, suplementos alimentares e redes de farmácias envolvidas em anúncios de venda de canetas emagrecedoras.

As bets ou cassinos online respondem por 17% do total de punições — uma queda em relação aos 22% do ano anterior. Desde 2024 está em vigor o Anexo X, conjunto de regras elaboradas especificamente para a publicidade das plataformas de apostas, aprovado pelo Conar em dezembro de 2023, após regulamentação da atividade pelo governo federal.

Os anunciantes mais penalizados: Quantidade de processos que resultaram em condenações nos julgamentos realizados pelo Conar em 2025

Vídeo de Buscopan Pediátrico precisou ser alterado para retirar cena em que uma criança dizia o nome do produto

Vídeo de Buscopan Pediátrico precisou ser alterado para retirar cena em que uma criança dizia o nome do produto

Hypera Pharma – 8 penalizações

A maioria dos processos com decisões desfavoráveis à Hypera Pharma foi provocada por reclamações da concorrente Opella. Em dois deles, o órgão considerou que a campanha “Chutou o balde? Epocler busca”(foto) encoraja excessos gastronômicos e etílicos. O anunciante disse que oferece uma solução ao consumidor que já cometeu excessos, mas, considerando sua reincidência, o Conselho decidiu, nos dois casos, por alteração agravada por advertência.

Em outro processo, o alvo foi a distribuição de um guia impresso sobre rinite alérgica em evento para médicos, com alegações questionáveis ou sem evidências científicas sobre o analgésico Alektos Ped. A Hypera alegou que o material era destinado exclusivamente à comunidade médica, sem qualquer ação promocional ao público leigo. Mesmo assim, a decisão do Conar foi por sustação e advertência.

Houve, ainda, três processos provocados pela Opella que terminaram em sustação de campanhas de Neosaldina e Benegrip. Uma das ações de Neosaldina prometia aliviar a dor de cabeça provocada pela dengue, indicação que não teria respaldo técnico e legal. Mesmo após o anunciante tendo informado que tirou os anúncios do ar como medida de boa-­fé, o Conar considerou que a ação ultrapassou os limites éticos.

O caso de Benegrip é parecido, com anúncios que recomendavam o medicamento para tratar efeitos de Covid-19 e dengue.

O outro processo envolvendo Neosaldina se refere a postagem no perfil da marca no TikTok, que estimularia consumo excessivo por exibir grande volume de unidades do medicamento, o que, segundo o Conar, é incompatível com o uso responsável. O destaque dado ao tamanho do comprimido e o uso de frases como “vocês se engasgando com comprimido tijolão”, em referência ao tamanho maior de remédio concorrente, também foram motivos de sustação e advertência.

A farmacêutica Haleon é outra concorrente que teve êxito em processo movido contra o site de um dos analgésicos da Hypera Pharma, que prometia ação duas vezes mais rápida, numa comparação com outros três medicamentos. A Haleon alegou que há dezenas de analgésicos disponíveis no mercado, com efeitos equivalentes. O Conar decidiu pela alteração da informação para que o consumidor entenda com clareza o que está sendo comparado.

Por iniciativa de uma reclamação de consumidor, vídeo de Buscopan Pediátrico, veiculado no canal da marca no YouTube, precisou ser alterado para retirar cena em que uma criança dizia o nome do produto, já que o Conar veda o emprego de crianças e adolescentes como modelos para vocalizar apelo direto, recomendação ou sugestão de uso ou consumo.

Ambev reclamou ao Conar de marketing de emboscada em postagens da Amstel, associando a marca ao Botafogo e ao Atlético Mineiro, às vésperas da final da Libertadores 2024

Ambev reclamou ao Conar de marketing de emboscada em postagens da Amstel, associando a marca ao Botafogo e ao Atlético Mineiro, às vésperas da final da Libertadores 2024

Heineken – 5 penalizações

A Ambev reclamou ao Conar de marketing de emboscada em postagens feitas pela Amstel em seu perfil no Instagram (foto), associando a marca ao Botafogo e ao Atlético Mineiro, às vésperas da final da Libertadores 2024. A Ambev era a patrocinadora dos dois clubes e a Heineken, do torneio. A decisão foi de sustação agravada por advertência ao anunciante, por reincidência, pois em 2023 o Conselho já havia julgado caso semelhante, reforçando que as peças publicitárias invadem o ambiente de comunicação dos contratos firmados entre os clubes e a Ambev.

Outros anúncios da Amstel no Instagram foram sustados após a concorrente apontar que eles tentavam uma associação com o jogador Vini Jr., mesmo sem mostrá­­­lo explicitamente. Nas peças, garrafas da cerveja apareciam junto a óculos escuros normalmente usados pelo jogador, que, na ocasião, era menor de 25 anos, com o título “Hoje o futebol venceu, o melhor do mundo é nosso”. O anunciante alegou que faltam análises para comprovar que os consumidores fazem ligação entre os elementos usados e o jogador, mas o Conar decidiu pela sustação por considerar que, em casos controversos como esse, o Código pede uma interpretação mais restritiva.

Também após queixa da Ambev, o órgão recomendou alteração na campanha “Eleita a melhor do Brasil”, da marca Eisenbahn, pela afirmação estar baseada em apenas uma de várias categorias de uma premiação realizada em 2023 e na qual, no ano seguinte, a marca não obteve a mesma distinção.

Foram encerrados com recomendação de alteração dois julgamentos contra a marca Heineken 0.0 abertos por reclamações de consumidores. Em postagem feita no TikTok, a influenciadora Vitória Mello aparece bebendo a cerveja. Mesmo sendo a versão sem álcool, o Conar considerou que não havia uma clara distinção com a versão alcoólica. Em outro caso, anúncio veiculado pela marca na mídia OOH não trazia a obrigatória frase de responsabilidade social no tamanho exigido. O anunciante informou que retirou a peça de exibição assim que percebeu o erro.

Conar recomendou que deve ficar claro os atributos apresentados na mensagem “a melhor tecnologia para dentes sensíveis do mercado”, de Sensodyne, da Haleon

Conar recomendou que deve ficar claro os atributos apresentados na mensagem “a melhor tecnologia para dentes sensíveis do mercado”, de Sensodyne, da Haleon

Haleon – 4 penalizações

Queixa da Colgate-Palmolive motivou processo encerrado com recomendação de alteração em mensagem da marca Sensodyne, da Haleon, exibida em ação de merchandising no programa Mais Você, da Globo. O órgão recomendou que deve ficar claro que os atributos destacados se aplicam apenas ao produto objeto da ação e não a todos os fabricados pela marca, que se apresentava como “a melhor tecnologia para dentes sensíveis do mercado” (foto). A Haleon sofreu, ainda, três outras condenações de sustação de campanhas da Sonridor, que propagavam que o medicamento é “cinco vezes mais rápido que dipirona” e “começa a agir em cinco minutos”. Esses três casos ainda não estão detalhados no site do Conar, pois ainda cabe recursos.

Colgate-Palmolive – 3 penalizações

Todas as três decisões contrárias à Colgate-Palmolive foram motivadas por reclamações da Haleon. A concorrente apontou alegações de superioridade sem o adequado suporte científico em anúncios de Colgate Total veiculados em evento e perfil de influenciadora no Instagram e YouTube. O anunciante alegou que o apelo “A melhor fórmula da história para prevenção de problemas bucais” permaneceu no ar por apenas 24 horas, mas o Conar julgou que isso não minimiza o impacto causado, decidindo pela sustação no Instagram e alteração no YouTube. Foram pedidas também alterações em campanha de Elmex Sensitive, por slogans que carecem de comprovação e potencial de indução ao erro em alguns dos apelos, e em postagens em redes sociais de Colgate Total, que prometiam prevenção à sensibilidade nos dentes, o que só ocorreria se outros requisitos fossem cumpridos.

Opella – 3 penalizações

A Hypera reclamou de campanha de Allegra, que apresentava o medicamento como “o único com 0% interferência cerebral”. O Conar recomendou alteração para expressão tecnicamente mais precisa. Em outro processo, a Cimed denunciou a associação do produto a celebridades e elementos do universo infantil, como o personagem Atchim, do filme A Branca de Neve, fato que levou o Conar a recomendar a não exibição em farmácias, locais de fácil acesso para crianças. Por fim, reclamação da Hypera terminou com pedido de alteração e advertência por material distribuído em treinamento de profissionais de farmácias e disseminado em grupos de Whats­App, com mensagens de superioridade técnica do analgésico Dorflex.

RD Saúde – 3 penalizações

Processo movido por consumidor reclamou de anúncios veiculados no status do WhatsApp, pela divulgação de medicamentos sujeitos à prescrição médica. A rede de farmácias alegou que as mensagens eram apenas de caráter informativo, mas o caso foi encerrado com recomendação de sustação e advertência. Dois outros processos, que ainda têm recursos a serem julgados, foram encerrados com recomendação de sustação de anúncios que divulgaram a chegada do medicamento Mounjaro à rede de farmácias.

Wellhub – 3 penalizações

Consumidor denunciou e-mail marketing da anunciante após ter negado seu acesso a uma unidade da Bodytech. O Conar pediu alteração para que o anúncio incluísse os critérios claros para os usuários do programa de benefícios. Já anúncios em redes sociais do Wellhub foram sustados pela promessa de exclusividade em parceria com uma rede de academias, que também podia ser acessada por planos concorrentes. Um desses concorrentes, a TotalPass, reclamou de campanha digital comparativa e com alegações subjetivas, como: “as melhores taxas de engajamento do mercado”. O Conar decidiu por sustação e advertência ao anunciante.

Outros anunciantes – 2 penalizações

Tiveram duas condenações cada: 7Games, Brasil Vida, Betano, Blaze, BYD, Diageo, Grupo Flow, Lirius Suplementos, Mc Games, Nestlé, Novvo, Serasa, Superbet e Unilever, além do influenciador Toguro.

Como é feito o ranking

Para construir o ranking de anunciantes mais punidos, a redação de Meio & Mensagem consolida informações publicadas no site do Conselho Nacional de Autorregulamentação Publicitária (Conar). As decisões tomadas nos julgamentos recomendam arquivamento dos processos, quando o Conselho entende que não há irregularidade, ou três tipos de penalidades, consideradas na montagem do ranking: advertência, alteração e/ou sustação das ações. Não são considerados nesse levantamento recursos de representações já julgadas em 2024, e incluídas no ranking anterior, quando a mesma sentença foi mantida ou adotada punição mais branda. Algumas decisões tomadas em 2025, aqui consideradas, ainda podem ser modificadas por julgamentos de recursos.