Esportes

Fim do futebol: clubes fazem apelo contra veto de bets

Times nacionais expressam preocupação de que restrição às apostas esportivas inviabilize o segmento responsável por seus principais patrocínios

i 18 de setembro de 2026 - 9h25

futebol bets

(Crédito: Shutterstock)

Na noite dessa quinta-feira, 17, clubes de futebol brasileiro das séries A e B postaram em suas redes sociais, simultaneamente, um comunicado, feito em conjunto, no qual expressam preocupação a respeito da Medida Provisória que o governo planeja publicar vetando a atuação das bets no mercado brasileiro.

O texto começa reconhecendo a importância da discussão em torno do assunto, por conta de seus impactos sociais e econômicos, mas segue pontuando a importância desse segmento, que se tornou uma das principais fontes de receita dos clubes de futebol.

“Os rumores sobre mudanças abruptas na regulamentação do mercado de apostas têm gerado enorme preocupação em todos os clubes, federações e entidades de administração do esporte. Uma mudança abrupta nas regras reduziria a capacidade de investimento dos clubes e criaria desequilíbrios dentro e fora do País”, diz uma parte da nota (leia o texto na íntegra mais abaixo).

Governo prepara MP sobre bets

A publicação dos clubes de futebol acontece um dia depois da circulação da notícia de que o governo federal estaria em fase de finalização do texto de uma Medida Provisória para restringir as apostas esportivas online.

Há alguns dias, o presidente da República e candidato a reeleição, Luiz Inácio Lula da Silva, declarou publicamente sua preocupação com os efeitos econômicos e sociais das plataformas de apostas esportivas e prometeu medidas sobre o tema, a partir da avaliação de diferentes setores da sociedade.

Bets e futebol

No caso dos clubes de futebol brasileiro, as bets são o setor predominante em termos de patrocínios. Dos 20 clubes que atualmente disputam a Série A do Brasileirão, 13 tem uma empresa de apostas esportivas como cotista máster, ocupando o espaço de maior destaque de seu uniforme.

A Sportingbet é patrocinadora máster de Vasco e Palmeiras, enquanto o Flamengo tem como cotista principal a Betano. O Fluminense tem contrato com a Superbet e o Botafogo com a Vbet.

Já no futebol paulista, Corinthians estampa a Esportes da Sorte, enquanto São Paulo conta com Superbet e o Santos tem a Novibet.

Em Minas Gerais, o Atlético tem parceria com a H2Bet e Cruzeiro, com a Betnacional. O Vitória é patrocinado pela 7K, enquanto Remo estampa a marca da Vai de Bet. Por fim, a Chapecoense tem em sua camisa o patrocínio máster da Zeroum.

Apelo dos clubes

Por conta dessa grande participação em suas receitas, os clubes brasileiros afirmam no comunicado, que a eventual restrição de atuação dessas empresas seria um “golpe” para o futebol no Brasil e terminam com a conclusão de que, caso as plataformas de apostas acabem, é o futebol brasileiro que acabará.

Veja a íntegra do comunicado compartilhado pelos clubes do País:

“O FIM DO FUTEBOL BRASILEIRO

O futebol acompanha com atenção as discussões sobre o mercado de apostas no Brasil e reconhece os desafios que sua expansão traz. Os impactos sociais, especialmente sobre as pessoas mais vulneráveis, exigem atenção permanente do Poder Público, das empresas e de todos os setores envolvidos.

Por isso, é fundamental aprimorar as medidas de proteção, fiscalização, educação e prevenção, para reduzir riscos e garantir um mercado responsável.

O Brasil escolheu enfrentar esse desafio pela regulamentação. A regulamentação estabeleceu regras rígidas para as empresas autorizadas a atuar no país, com regras claras que permitem ao Estado fiscalizar o mercado, responsabilizar quem descumpre a lei e combater a atuação de plataformas clandestinas.

Importante ressaltar que, nos últimos anos, o investimento das empresas de apostas autorizadas tornou-se uma das principais fontes de receita do esporte. Este investimento impulsionou o futebol brasileiro de tal forma a dominar o cenário sul-americano em competições como a CONMEBOL Libertadores e a CONMEBOL Sul Americana e a colocar clubes brasileiros em posição de protagonismo.

Essa presença não se limita aos maiores clubes. Os recursos também alcançam equipes de menor expressão, divisões de acesso e competições com menor exposição comercial. Para muitos destas agremiações, especialmente aquelas localizadas no interior do país, não existe hoje outro segmento econômico capaz de substituir imediatamente esse investimento.

Essas receitas são fundamentais para manter estruturas administrativas, centros de treinamento, profissionais, projetos sociais e departamentos que não gerem recursos suficientes para se sustentar de maneira independente, como parte do futebol feminino e a formação de futuros talentos, os primeiros investimentos ameaçados quando a receita cai de forma abrupta.

Assim, os rumores sobre mudanças abruptas na regulamentação do mercado de apostas têm gerado enorme preocupação em todos os clubes, federações e entidades de administração do esporte.Uma mudança abrupta nas regras reduziria a capacidade de investimento dos clubes e criaria desequilíbrios dentro e fora do país. Contratos regularmente firmados, planejamentos plurianuais e compromissos financeiros foram estabelecidos sob um marco regulatório construído pelo próprio Estado.

Para responder a um mercado que já existia e movimentava ilegalmente bilhões de reais, o país instituiu um ambiente regulado. Empresas foram autorizadas, passaram a recolher impostos e assumiram obrigações relacionadas à proteção do consumidor, ao bloqueio de menores, à prevenção de práticas abusivas e ao combate à lavagem de dinheiro e à manipulação de competições. Foi justamente a regulamentação do mercado que retirou o Brasil da liderança do ranking mundial de casos de manipulação.

Inviabilizar esse modelo não fará com que as apostas deixem de existir. Apenas abrirá o caminho para que os consumidores migrem integralmente para plataformas clandestinas, que não pagam impostos, não respeitam limites, não oferecem instrumentos de proteção e não colaboram com as autoridades.

A consequência não será apenas uma porta escancarada para as apostas clandestinas, mas um golpe fatal para o futebol brasileiro, levando muitos clubes à insolvência. Isso, sem falar na insegurança jurídica e profissional que a medida acarretaria, especialmente para contratos regularmente firmados e planejamentos construídos sob o marco regulatório aprovado pelo Congresso Nacional e estabelecido pelo próprio Estado.

O que o futebol entende que deve ser feito, com o máximo rigor, é combater a ilegalidade, fortalecer a fiscalização e aperfeiçoar os mecanismos de proteção, sem colocar em risco um mercado que foi regulamentado pelo próprio Estado. O futebol se coloca à disposição do Governo Federal, do Congresso Nacional, das Autoridades Estaduais e Municipais para colaborar em mecanismos mais eficientes de educação e conscientização.

O futebol está mobilizado, reconhece suas responsabilidades e quer participar da solução, de uma forma racional e consciente.

O TORCEDOR NÃO PODE PAGAR ESSA CONTA.
SE ACABAR COM O MERCADO REGULADO, AS APOSTAS NÃO ACABAM.
O FUTEBOL É QUEM ACABA.”