Mídia

O desempenho dos jornais na eleição americana

Para quem ainda dá espaço para ouvir mais do que uma versão da realidade, o jornalismo impresso continua sendo um dos melhores canais para se obter informações independentes

i 20 de novembro de 2012 - 11h00

Por Carlos Eduardo Lins da Silva (*)

O jornalismo impresso, apesar da imensa crise em que está há mais de uma década mergulhado nos EUA, mostrou na campanha presidencial deste ano naquele país que ainda pode prestar grandes serviços à sociedade.

Muitos veículos montaram equipes para fazer o “factchecking” de tudo o que os candidatos afirmavam em discursos, debates ou anúncios eleitorais. E, graças a eles, muitas alegações falsas, meias-verdades ou insinuações sem fundamento foram desmontadas em benefício do eleitorado.

É verdade que as características do ambiente de comunicação social do mundo contemporâneo certamente limitaram muito os efeitos desse trabalho de grande qualidade realizado por muitos jornais porque um número enorme de pessoas­ atualmente não liga se o candidato que apoia mente ou não, nem fica sabendo dos desmentidos factuais, pois apenas consomem informação de veículos que estão alinhados a elas e, portanto, eliminam a contradição.

Como já se diz há algum tempo, o mundo parece caminhar para uma situação de “pós-verdade”, em que, para as pessoas empenhadas no embate ideológico radical, nada importa, a não ser as suas convicções e interesses, os quais seus blogs, Facebooks, Twitters e até emissoras de rádio, TV ou mesmo jornais e revistas propagam sem dar espaço para o outro lado.

De toda maneira, para quem (mesmo que seja minoria) ainda dá espaço para ouvir mais do que uma versão da realidade, o jornalismo impresso continua sendo um dos melhores canais para obter informações independentes como se comprovou mais uma vez nos EUA este ano.

Diversos jornais que adotaram o modelo paywall, que cobra pelo seu conteúdo quando acessado eletronicamente, resolveram suspendê-lo nos dias finais da campanha e oferecê-lo gratuitamente a todos, numa operação com o objetivo de se tornarem mais populares, e isso ajudou a disseminar as suas informações. O New York Times foi um dos que agiram assim.

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Outro grande elemento da mídia impressa na campanha de 2012 foi o trabalho de Nate Silver no New York Times. Embora seus textos tenham sido postados majoritariamente entre os blogs do jornal, foi a exposição garantida pelo prestígio do titulo do diário que os projetou e lhe garantiu a condição de grande estrela nesse pleito.

Silver é um talentoso matemático que se tornou conhecido inicialmente por fazer previsões, em geral certas, de resultados de jogos de beisebol a partir de dados estatísticos que colecionava e analisava.

Em 2008, ele mudou seu campo de atuação para a política eleitoral e previu com êxito quem ganharia o pleito presidencial americano daquele ano em 49 dos 50 Estados do país.

Este ano, com uma disputa muito mais acirrada, Silver se tornou mais ousado e visível, e atraiu a ira de dezenas de jornalistas que sempre fizeram as suas predições a partir apenas de suas próprias intuição e experiência e de informações de bastidores obtidas de políticas.

Ele criou algoritmos para destrinchar dezenas de pesquisas de intenção de voto feitas por diversos institutos, dando-lhes pesos a partir do histórico de erros de cada um deles em eleições anteriores.
O sucesso do “factchecking” e de Nate Silver é estimulante para as perspectivas do jornalismo quando elas parecem totalmente negativas. Ele demonstra que a verificação factual sistemática e a independência editorial continuam sendo ativos fundamentais numa sociedade democrática.

As mídias sociais também não se saíram mal nas eleições de 2012 nos EUA. Embora os estudos a respeito de sua influência na campanha ainda não tenham conclusões definitivas, mesmo porque a metodologia para medi-la permanece indefinida em muitos aspectos, há indícios de que o Facebook ajudou a levar às urnas alguns milhares de eleitores, especialmente entre os mais jovens, que de outra maneira teriam engrossado a abstenção.

O Twitter tem seus próprios motivos para comemorar, já que ele foi quase tão utilizado quanto a tradicional TV na noite da eleição como forma de as pessoas se informarem sobre o andamento das apurações.

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* Carlos Eduardo Lins da Silva, editor da revista Política Externa e diretor do Espaço Educacional Educare, escreve uma vez por mês para Meio & Mensagem na coluna Opinião. Este texto foi publicado na edição 1536, com data de publicação de 19 de novembro.