Opinião: Lições de Victor Navasky
Jornalista critica a atividade de relações públicas, acusando-a de adotar qualquer atitude que possa favorecer o cliente, inclusive a distorção da verdade. Por Carlos Eduardo Lins da Silva
Na condição de um dos editores da Revista ESPM de Jornalismo, que tem os direitos de reprodução no Brasil da consagrada Columbia Journalism Review, a mais importante publicação de crítica de mídia no mundo, tive a magnífica oportunidade de acompanhar um dos mais importantes jornalistas americanos do século 20, Victor Navasky, publisher da CJR, em sua visita ao Brasil no mês de junho deste ano para o lançamento da nova publicação.
Em plena forma às vésperas do octagésimo aniversário, Navasky cumpriu uma verdadeira maratona de compromissos em quatro dias em São Paulo: uma entrevista ao programa Roda Viva da TV Cultura, três conferências a professores e alunos de graduação e pós na ESPM, uma conversa com jornalistas da Editora Abril, além de cerimônias e refeições em que foi solicitado a falar sobre suas experiências ao longo de seis décadas na profissão.
Ele trabalhou em publicações escolares, numa do Exército dos EUA (aos 18 anos, quando o serviço militar era obrigatório nos EUA e o país¬ estava envolvido na guerra da Coreia, a cujo front ele felizmente não chegou a ser enviado), em um pequeno jornal do Alasca, na revista do New York Times, no semanário The Nation e, agora, na CJR.
Seu período mais longo e mais famoso foi em The Nation, a mais antiga publicação jornalística periódica em circulação ininterrupta nos EUA (desde 1865) e um dos mais famosos porta-vozes da esquerda nos EUA. Navasky foi editor e publisher da Nation por mais de duas décadas.
Apesar de sua associação com esse título poder sugerir que Navasky seja uma pessoa de ideo-logia radical, suas palavras em público e em privado durante os dias em que esteve no Brasil em nada indicaram essa possibilidade. Ao contrário, ele sempre fez ponderações moderadas, razoáveis, conciliatórias sobre temas muito polêmicos sobre o jornalismo e seu futuro.
Por exemplo, o papel dos blogs e das mídias virtuais. Navasky acha que no curto prazo ele poder ser nocivo ao jornalismo por estimular demais a pressa na apuração de informações, o relaxamento nos procedimentos tradicionais de checagem de fatos, a veiculação de opiniões pouco embasadas e muitas vezes com retórica tão extremada que chega frequentemente ao nível da calúnia e da difamação.
Mas no longo prazo, crê ele, esses novos meios poderão passar por processos de aperfeiçoamento que atenuem esses problemas e cumprir uma importante função de democratização do jornalismo, com a inclusão de pontos de vista e vozes relevantes que sem eles ficariam de fora do debate público devido ao alto custo financeiro exigido para o estabelecimento das mídias tradicionais e praticamente inexistentes para as mídias virtuais.
Outro ponto que costuma causar divergências: controle privado dos veículos jornalísticos. Navasky citou o caso do Washington Post, que resistiu a pressões pesadas do governo federal americano sob o comando de Richard Nixon na década de 1970 durante o caso Watergate, que incluíam a ameaça de não renovação de concessões de lucrativas emissoras de TV, que — caso tivessem ocorrido — poderiam ter causado sérios prejuízos à empresa.
Para ele, uma das razões que permitiram ao Post essa atitude de defender valores essenciais para a atividade do jornalismo foi o fato de ele pertencer inteiramente a uma família, que não devia satisfações a acionistas e tinha poder abso¬luto para colocar todo o seu patrimônio em risco em nome desses princípios se assim quisesse proceder.
Mas Navasky não acha que a condição da propriedade particular seja suficiente para garantir a adesão de um veículo jornalístico a normas de conduta e níveis de qualidade exemplares. Claro que muito depende de quem seja o dono. A News Corporation é uma empresa controlada por uma família, mas alguns de seus títulos, como ficou claro com o caso do The News of the World, se comportam como se a única regra a ser obedecida fosse a do lucro imediato e de grande porte.
Um dos poucos momentos em que Nasvasky se pronunciou de modo mais beligerante foi ao fazer a distinção entre jornalista e relações públicas. Para ele, toda profissão tem um núcleo central de crenças que dá sentido ético a ela.
No caso do jornalismo, segundo sua opinião, é o apego à verdade; no de relações públicas é a adoção de qualquer atitude que possa favorecer seu cliente, inclusive, se for o caso, a distorção da verdade. Por isso, defende Navasky, as duas¬ atividades não podem ser equiparadas nem consideradas como parte de um mesmo gênero profissional.
CARLOS EDUARDO LINS DA SILVA é editor da revista Política Externa e diretor do Espaço Educacional Educare. Uma vez por mês ele escreve artigos para Meio & Mensagem. Este texto foi publicado na edição 1517, de 9 de julho.
