Por que a Folha fechou acordo de IA com Google?
A acordo visa proteger propriedade intelectual e adaptar modelo de negócio à nova realidade
O movimento de licenciamento de conteúdo jornalístico para plataformas de inteligência artificial generativa chegou ao Brasil. Em abril, a Folha de S. Paulo se juntou ao Estadão ao anunciar uma parceria com o Google que consiste em ceder acesso ao conteúdo produzido pelo veículo para aprimorar as respostas do Gemini. Os termos específicos do acordo, assim como seu valor, não foram revelados.

Entre os jornais, Estadão e Folha fazem parceria com Google e Folha processa OpenAI (Crédito: Arte M&M)
Visão da Folha de S. Paulo sobre IA generativa
Mesmo processando a OpenAI por uso indevido e não-remunerado de seu conteúdo, a Folha de S. Paulo quer fazer acordos com todas as plataformas de IA que fazem uso de seu conteúdo, pois o uso sem autorização ou remuneração não é tolerável, descreve Sérgio Dávila, diretor de redação.
“Não há como ignorar a IA generativa. E, na prática, essas big techs já estavam usando nossos conteúdos, sem autorização e sem remuneração, o que não é tolerável. Por outro lado, o interesse das empresas de IA no nosso conteúdo mostra a importância crescente do que é produzido pelo jornalismo profissional, que não admite alucinações, invenções ou aproximações, muito menos erros factuais”, coloca.
Detalhes dos acordos com Google e seus impactos
O Google foi a primeira big tech com a qual a Folha firmou acordo de licenciamento, pois a empresa já tinha parcerias pré-existentes com a big tech. No programa Google Destaques, o veículo seleciona e organiza notícias em painéis personalizados para a audiência. Ademais, o jornal disponibilizou fotos do seu acervo para compor galerias virtuais e exposições temáticas do Google Arts & Culture. “Mas estamos em contato com outras empresas também”, confirma o diretor de redação.
O objetivo do Google por trás das negociações é tornar as respostas do Gemini atualizadas e melhores. A Folha dá acesso ao acervo de notícias e a um feed de textos em tempo real. Segundo Dávila, o jornal seleciona os conteúdos que podem ser usados para aprendizado da IA. Apenas o conteúdo proprietário da Folha é licenciado.
Por sua vez, o Estadão também oferece um feed de notícias em tempo real. No entanto, o acordo é válido, particularmente, para notícias de última hora e de caráter factual. O Estadão também tem uma relação prévia com o Google. A empresa participa do Google Destaques, para o qual o veículo licencia painéis de notícias para uso no Google Notícias e Discovery. Procurado pela reportagem, o Estadão optou por não participar da matéria.
No caso da Folha, o veículo também dá ao Pinpoint, ferramenta de pesquisa para jornalistas do Google, acesso a reportagens do veículo baseadas em documentos públicos. Além disso, a publicação integra o News Pilot, programa do Google News que utiliza IA para diversificar formatos de conteúdo para atingir novas audiências.
Formato de remuneração e morte do clique
Conforme Dávila, a remuneração pelo licenciamento de conteúdo acontece de duas formas: por uma parcela fixa e outra variável. A exibição do veículo nas respostas do Gemini se dará por menção direta ou via links para as notícias que foram a fonte para o conteúdo devolvido para o usuário. As alucinações estão na conta da IA, diz o executivo da Folha.
A divulgação sobre a parceria não deixa claro se haverá priorização de conteúdos produzidos pelo Estadão e pela Folha em detrimento daqueles jornais com os quais o Google não tem acordo.
Assim como em outros segmentos, antecipa-se uma aceleração da morte do clique, assim como modelos de negócios que se baseiam nessa métrica. “Isso já acontecia desde o início dos sistemas de busca do Google, na década passada. No caso da IA, a vantagem é que haverá contratos para a remuneração”, coloca Dávila.
Questionado sobre uma possível queda de assinantes, o executivo afirma que “para conteúdos relevantes e de qualidade como os da Folha, sempre haverá assinantes”, pois a IA sempre olha para o passado e não para o que deve acontecer e vai atrás de fontes e informações exclusivas.
Ações da Folha contra a OpenAI
Antes de divulgar o acordo com o Google, a Folha de S. Paulo optou por processar a OpenAI pelo uso não autorizado e não remunerado de seu conteúdo para treinar seus modelos de linguagem e reproduzir matérias integralmente nas respostas aos usuários. O veículo afirma que, em julho, o jornal registrou 45 mil acessos ao seu site por GPT bots.
Conforme a Folha, as medidas resultam em concorrência desleal, pois desviam os clientes de seu site, onde está o conteúdo original. O jornal também acusa a OpenAI de driblar mecanismos da Folha para impedir o acesso de conteúdos exclusivos para assinantes. O jornal diz que tentou um acordo com a empresa em 2024, mas não recebeu retorno da outra parte.
O movimento da Folha segue exemplo de jornais americanos que entraram com ações do tipo contra big techs de IA. O The New York Times processou a OpenAI e a Microsoft em 2023. O The New York Times e o Chicago Tribune processaram a startup Perplexity em dezembro de 2025 e a Penske Media Corporation processou o Google em setembro de 2025 devido aos seus resumos de IA.

