6G, plataformas abertas e coinovação
A cultura de partners como motor do ecossistema de telco
A indústria global de telecomunicações vive um de seus momentos mais decisivos, especialmente neste segundo dia de conferências no Mobile World Congress, grande fórum de discussões do setor. Se, nos últimos anos, o debate esteve concentrado na virtualização de redes, no 5G e na migração para a nuvem, hoje a pauta evoluiu: inteligência artificial (IA), soberania digital, infraestrutura autônoma e os primeiros passos rumo ao 6G deixaram de ser promessas para se tornarem prioridades estratégicas.
Nesse contexto, uma certeza se impõe: nenhuma telco conseguirá atravessar essa transformação sozinha. A contribuição de parceiros e o protagonismo de alianças, desde que estruturados sob uma cultura aberta, colaborativa e orientada à coinovação, passam a ser o principal vetor para impulsionar o ecossistema e convertê-lo de centro de custo em uma plataforma integrada de novas oportunidades para operadoras, empresas terceirizadas e, principalmente, para o cliente.
Do experimento à industrialização: onde está o valor?
Da última edição para cá, o setor definitivamente superou a fase de testes pontuais com IA, cloud e Open RAN e ingressou em uma era de industrialização estruturada de aplicações e soluções nativas de inteligência artificial, com alto valor agregado. Dessa forma, a pergunta que ecoa entre executivos, tomadores de decisão e quadros técnicos não se resume mais ao clássico “e se tivéssemos acesso à inovação?”, mas sim a “como posso otimizar meu retorno sobre investimento no menor prazo possível?”.
As operadoras enfrentam pressões simultâneas: de um lado, modernizar redes legadas, reduzir custos operacionais, atender a exigências regulatórias crescentes e, ao mesmo tempo, criar novas fontes de receita; de outro, lidar com orçamentos enxutos e pouca margem para inovação isolada. Afinal, segundo previsões do Gartner, o apetite por inovação dos players representa um aumento de 9,8% nos custos operacionais globais, o que significa que mais de US$ 6 bilhões do planejamento financeiro corporativo já estão comprometidos.
É justamente aí que a cultura de parceiros ganha protagonismo para impulsionar a inovação. Ao compartilhar riscos, competências, plataformas tecnológicas e, principalmente, experiências de sucesso, o ecossistema permite acelerar ciclos de desenvolvimento, reduzir redundâncias e criar padrões interoperáveis colaborativos, nos quais cada integrante da rede é beneficiado pelo sucesso do outro.
Assim, a colaboração deixa de ser uma escolha tática de alguns para consolidar-se como estratégia estrutural de todo o mercado, seja na hora de expandir e financiar projetos, seja no momento de capacitar a nova geração de especialistas e tomadores de decisão para atuar em um setor cada vez mais ágil, dinâmico e inovador.
Não à toa, nos últimos dias vimos grandes marcas como Ericsson, Vivo, SoftBank, TIM e a própria Red Hat anunciando importantes parcerias para consolidar avanços, aprimorar tecnologias e, principalmente, disponibilizar uma série de vantagens aos clientes. Trata-se, afinal, de uma máxima do ecossistema de parceiros: juntos, temos mais fôlego para ir mais longe e transformar o mercado, especialmente se essas alianças forem norteadas por parcerias abertas. A partir de uma abordagem ética e colaborativa, ancorada em metodologias e princípios democráticos, o open source fornece o essencial, de maneira acessível, para que telcos e outras empresas possam se guiar por mentalidades disruptivas e inovadoras.
Telco cloud, IA e a força da base comum
Não é coincidência que a consolidação de uma telco cloud comum, estruturada em arquiteturas abertas e nativas de nuvem, venha se tornando um dos pilares compartilhados dessa nova era. Por meio de soluções abertas que conseguem conectar os novos avanços da IA com todo o repertório legado que permitiu à indústria destacar-se entre as mais inovadoras do mundo, plataformas como o Red Hat OpenShift demonstram como a padronização pode unificar máquinas virtuais e containers, permitindo que parceiros desenvolvam e validem funções de rede (CNFs) e aplicações de TI com maior agilidade.
Essa base compartilhada não é apenas um ganho técnico; é um catalisador de ecossistema. Ao reduzir a complexidade de integração, abre-se espaço para que múltiplos fornecedores, integradores e desenvolvedores atuem de forma coordenada. O tempo de lançamento de serviços, que antes levava meses, pode ser drasticamente reduzido, criando vantagem competitiva sustentável.
Quando adicionamos IA a essa equação, o impacto se multiplica. Fábricas de IA, pipelines automatizados e aceleradores de hardware exigem interoperabilidade e governança robusta. Sem colaboração entre provedores de infraestrutura, desenvolvedores de software e fabricantes de equipamentos, a escala simplesmente não acontece.
6G e o futuro: um esforço coletivo
À medida que avançamos nas discussões sobre o 6G, torna-se cada vez mais evidente que a próxima geração de redes será concebida, desde a origem, como uma infraestrutura nativa de IA, distribuída e orientada a serviços. Diferentemente das gerações anteriores, a banda nasce em um ambiente já desenhado pelo cloud, pelo edge computing e pela automação instantânea de processos. Isso significa que sua viabilidade econômica e técnica dependerá diretamente da capacidade de integração entre múltiplos setores, como telecomunicações, indústria, mobilidade, energia e provedores de tecnologia digital, em um modelo coordenado de inovação.
Iniciativas globais já sinalizam essa direção. A NVIDIA, em parceria com operadoras e empresas de tecnologia, anunciou esforços para desenvolver redes sem fio 6G nativas de IA, incorporando a IA desde o desenho inicial da arquitetura até a operação da rede. O objetivo é claro: aumentar a eficiência do espectro de banda, reduzir o consumo energético e criar novas possibilidades de monetização por meio de serviços avançados. Essa abordagem reforça que o diferencial competitivo não estará apenas na infraestrutura física, mas na capacidade de orquestrar dados, algoritmos e aplicações de forma integrada, algo que só é possível em um ecossistema colaborativo, aberto e escalável.
Organizações internacionais também vaticinam que a consolidação do 6G depende da integração entre diferentes padrões e tecnologias das operadoras. A Wireless Broadband Alliance tem defendido um ecossistema convergente entre redes móveis e Wi-Fi, reduzindo riscos de fragmentação e promovendo interoperabilidade global. Sem essa coordenação entre players, a promessa de experiências imersivas, por exemplo, realidade estendida, mobilidade autônoma e aplicações industriais críticas, pode esbarrar em barreiras técnicas e regulatórias.
Dessa forma, o 6G não será apenas uma evolução de velocidade ou latência para os processos das telcos. Ele representará a consolidação de uma nova lógica de mercado, na qual inovação aberta, padronização tecnológica e alianças estratégicas serão determinantes para capitalizar inovações, capturar valor dos clientes e oferecer novos horizontes para o desenvolvimento conjunto. Mais do que preparar infraestrutura, as operadoras precisam estruturar seus modelos de governança e sua cultura organizacional para atuar em rede, tanto entre parceiros (e competidores) no âmbito nacional quanto entre grandes players do mercado.
Cultura antes da tecnologia
Enxergar a transformação das telcos apenas sob a ótica técnica (avanços na nuvem híbrida, edge computing, IA generativa, Open RAN, 6G e IA Factories) é, muitas vezes, tentador; no entanto, essa abordagem fecha os olhos para uma das grandes mudanças do setor: a transformação cultural e o fortalecimento das parcerias nas organizações.
Impulsionar o ecossistema telco exige, antes de tudo, uma transformação cultural profunda. Ou seja, significa adotar uma mentalidade genuinamente aberta à coinovação, promover o compartilhamento estruturado de conhecimento e riscos entre parceiros, investir na adoção de padrões e arquiteturas interoperáveis e garantir a capacitação contínua das equipes para atuar em ambientes cada vez mais colaborativos e multidisciplinares. Também requer uma governança madura, capaz de equilibrar competição e cooperação em um mercado em que empresas, ao mesmo tempo que disputam espaço, precisam construir juntas as bases da próxima geração de redes.
Mais do que infraestrutura inteligente, precisamos de um ecossistema inteligente, capaz de conectar competências diversas em torno de objetivos comuns e gerar valor de forma precisa, prática e distribuída. Se a próxima geração de redes promete ser mais rápida, autônoma e imersiva, ela também precisará ser mais colaborativa. A cultura de parceiros não é um complemento à estratégia das telcos; trata-se de um de seus grandes alicerces para escalar.
Estar aberto ao amanhã representa compreender que o verdadeiro diferencial competitivo não está apenas na jornada tecnológica, mas na capacidade de construir, desenvolver e sustentar um ecossistema vibrante, soberano e orientado por IA. Afinal, entre tantas indefinições, o futuro das telecomunicações será construído por acordos, parcerias, projetos conjuntos e, principalmente, por meio de uma cultura colaborativa.